Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

Sator arepo tenet opera rotas

Próximo do fim da fila, volto a salivar. Detesto, mas sempre acontece. As mesmas caras dissimuladas e a reticente angústia e a fome financeira e a infantil expectativa de ganhar. Um presente. Faz 50 minutos espio o caixa gordo suarento de gravata listada – breve nos encontraremos, mediados por um guichê, ele meu Papai Noel. O segurança de olho. Granito. Já estou entre os topfive! Por um minuto trocaremos informações e ficarei despreocupado. Por pouco tempo. Eu e meu incrível número de equilibrista, caminhando sobre o abismo com os olhos vendados – e a conta bancária bloqueada. Troco o peso do corpo do pé direito pro esquerdo e lembro: sempre venho a bancos como quem vai ao juízo… Ama ao próximo como a ti mesmo, pede o Cristo, crucificado ao lado do relógio: 13h35. Coço a barba. Unhas, palavras cruzadas, o jornal vizinho lido por sobre o ombro, o decote da atendente – táticas escusas para driblar a linha reta. Reta? Fome. Me lembro do desenho. Quase. Não; mantenho-me cordato, ego no bolso. Furado. Qualquer velho ou grávida olhados com ódio – a fila aumenta. Será que não existe gente que aluga o neto ou o vovô para nego furar a linha? Tem filho da puta pra tudo. Granito. O segurança de olho em mim… Coço o saco. Sou forte, sou bonito, sou estratégico – mas aqui sou tão pequeno que eu mesmo não me vejo; desprezível, escravo: devia lamber o chão. Vil. Documentos, papéis, carimbos. Que situação! Por que o boy à frente – sou já o 3o colocado, é, já estou no pódio – não pára de balançar de um lado para o outro? Por que a mulher às minhas costas insiste em conversar – eu fosse uma cartola e de mim surgissem coelhos em forma de não foi gol, hoje vai chover ou presidente filho da puta? Quase babando. Outro otário, é – encoleirado pela hipótese de ter o nome incluído na lista de losers do Banco Central! Coço o sovaco. O segurança acaricia o berro. Queria tanto uma granada! Ama ao próximo como a ti mesmo, é, pede o Cristo, crucificado ao lado do relógio: 14h. O tempo cada vez mais de mim distante. Crachás – uniformes – importâncias… Granito. Faixas amarelas. Odeio-me! Troco o peso do corpo do pé esquerdo pro direito e ouço: absurdo esse horário só um caixa, viu o juro, entrei no cheque especial e não consigo sair, aquela mocinha ali passou na minha frente, lambisgóia, desculpe, foi mal, obrigado você, obrigado eu. Me lembro do desenho em que o homem. Na fila ao lado, um cara troncho remexe nos papéis tais segredos. De guerra. O segurança me espreita. Coço a orelha. Quase babando na gravata. Me financiam uma metralhadora? Meus papéis suados; me avalio. Quanto custo? Já o número 2! Troco o peso do corpo do pé direito pro esquerdo… e conto 25 pessoas atrás de mim, invejosas de meu status. Fome. Granito. Não, que droga é esta – em seus interstícios o conceito de recompensa; não em ganhar, mas em perder –, quando me viciei em extratos e senhas? Como cancelar minha mente – meu desejo? Uma agência de banco é um salão de fantasias no carnaval. Dos monomaníacos. E estou em primeiro lugar. Merda! Logo, somarei ao tempo gasto o dinheiro que vou inadimplir em contas. Invencíveis. Vencedor? Coço a boca: o próximo, chama o caixa. Ama ao próximo como a ti mesmo, pede o Cristo, crucificado ao lado do relógio: 14h25… E quando tudo parece se desvencilhar, me atiro por sobre o guichê, encosto minha gravata listada na gravata listada do gordo suarento, afundo-lhe os dedos no pescoço, te amo – sussurro, choro, coro, oro –, te amo, te amo. O segurança vem, me arranca, eleva-me, daí ao chão, papéis caem, filas dissipam comentários – tem filho da puta pra tudo –, sou algemado, me empurram por escadas até esta sala escura onde no chão – granito, granito – há uma faixa amarela. Tem outros aqui, mas não vejo. Os rostos. Me lembro do desenho em que o homem entrava no próprio bolso: os braços, a cabeça, o tronco, as pernas, e o buraco negro se fechando detrás de uma vagina dentada… O segurança me joga no fundo – aguarda a tua vez. Volto a salivar.

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Lapa de Baixo [SP], verão, 2002.

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