Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

Quando eu morrer


Para o Ferreirinho e Rosa, o Noel

Ô sapateia, sapateia. Hermínio Dutra abria a Voz de Jacutinga sempre com esse samba de Noel. Estranho, chiavam: sintonizar a rádio boca da noite ao som de Quando eu morrer…? Não parecia, assim, estímulo à boemia. Lacônico, corpo comido – fio solitário na alta careca –, rendia homenagem à namorada, mulata como a da Fita amarela. Na esquisitice, Hermínio Dutra acabou que fez sucesso. E fama entre os pinguços do pagode. Locutor loquático daquele lugar ocre: Jacutinga, Minas Gerais. Quando estava quente era muito quente; se frio, era frio pior. Tudo exagero – cacta, lã de fel, atucanada, a cidade não cabia em si. Anunciantes de cachaçarias, termas e malharias invadiam o éter.

Viver, o que era? Hermínio, caladão, só sussurrava no programa diário – Sambas de Todos os Tempos – do samba o nome e o sobrenome. Um erudito do cavaquinho na paróquia de 20 mil almas, João Gilberto do dial. Não à toa que Hermínio Dutra se sentisse do mundo o ponto e vírgula; sincopado.

História matada do começo.

Virando o vinil, Curimbaba. O lóqui local tinha tesão na infeliz Adalgiza. Sim. A própria Adalgiza sósia da mulata do samba, a caixa do mercado, concubinada de nata com o loquático Hermínio. Tara notória. Babava Curimbaba e se masturbava descarado, a turba ria: ninguém cria coragem de expulsar o louco sagrado da província, tirando o curinga da calça – muquiado pelas gôndolas do mercadinho –, socando-o urgente. O pai na cola, cuidando do filho não apanhar; cego dum olho, o outro vesgo, o velho esguelhava o abilolado a cidade toda. Adalgiza nada. Mulher de gala, Adalgiza era de uma melancolia sem fim. Mulataça safa, tudo psicologizava: aqui todo quinto tem segundo, deus não há, tudo tem preço – mas nada paga ver um tonto bater punheta pra você o dia inteiro. Um dia o português proprietário Ari varria o chão do secos e molhados e, desfadado, tacou o cabo nos costados de Curimbaba: vai-te pro diabo na praça. Curimbaba foi, no caminho sacou da calça seu amigo; e bala. Na rua. O pai longe. Veio a polícia – e bala e bala, o levou. Aí, o lóqui sumiu uns tempos.

Adalgiza ficou meio assim com o vapor do único fã. Logo esqueceu a telha numa rádio que tocava música de crente. Pirraça – pois que Hermínio só queria saber de samba. Mas de sambar, nada. E Adalgiza dando o trampo no mercado. O tlintlin da máquina a endoidava. Sem dindim. Sem carinho. Só pantim. Sozinha em casa, toda noite – o programa do mala, das dez à uma; e ele voltava ainda mais tarde, catingando da maldita. O tlintlin da máquina e entre as coxas o dedinho. O rádio gospel, ela irada. Pra curar os calores, um banho na fonte São Clemente, todo sábado. Pensava até ir na igreja. Terreiro, que fosse. O careca devia ter encosto. Por bosta! Viver, onde se encontra? Um dia, mercadinho deu seis; e tipo artista de novela, Curimbaba ressurgiu todo galante pra Adalgiza. Numa beca preta, polida, o cabelo repartido. Tinha virado bíblia: mudei, li o Livro três vezes, só a mode compensar a vergonha feita. Vinha do nada o diabo no corpo. Agora: era um novo. A mulata, muito psicológica. Curimbaba voltou uma. Duas vezes. Três. Uma hora subiu o sistema nelvoso.

Outra tarde o ex-lóqui chegou na dela, da fonte até em casa. A virilha assando. O quadril da nega assando. A batata de Hermínio assando. Longo, o caminho pra casa. Perto, um parque de diversões. Curimbaba convida Adalgiza: – passear no trem-fantasma? Hermínio Dutra chamava a primeira música. Se existe alma, se há outra encarnação – toda mulher tem direito a uma maçã do amor envenenada –; Curimbaba mostrou a Bíblia de dentro do casaco preto – não fosse, e eu não saía do fundo do poço: Cristo me tirou – Curimbaba mostrou a língua; agora, via a luz – e na luz do fim do túnel do trenzinho Curimbaba de língua nas coxas de Adalgiza: eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão. O programa durava três horas. Ao vivo. À vontade na casa da mulata, Curimbaba fez o da cruz antes de folhear o vestido de Adalgiza. Mostrou a ela os furos de bala. Fissura. Vem, ela miou, foda-se ligado no último. Ou é calça de veludo ou é bunda de fora: viver, quanto custa? Ligou o rádio na Voz de Jacutinga. Veio samba e mais samba e outro. Uma chave de coxa sem desmastreio. E um forrobodó evangélico – onde o nexo entre apoteose e apocalipse? De vez em quando o marido no ouvido; como um sonho. Adalgiza deu trabalho a Curimbaba. A tristeza teve breque. Água benta dentro. Luz. Graças a deus. Ou à psicologia.

O diabo foi a tecnologia: o advento do gravador. No primeiro programa, feito de surpresa, Hermínio voltou pra casa só pra ouvir o tape com a patroa – pegou o Curimbaba traçando a amásia. Arranhou o disco. De surdo a cuíca num repique, o loquático saltou por trás de sua neblina, sacou de uma faca de cozinha: capou o lóqui. Cega do alto das maravilhas, puta de tesão, na loucura, Adalgiza lhe catou a faca – Hermínio furado nas costas. Muito psicológica, pelo choque, a mulata – fissura – ficou muda. Tragédia única em Jacutinga, nem deu polícia: mas, pra sempre, notícia na Gazeta – O SAMBA DA CRIOULA DOUDA. Hoje o ex-bíblia prega desconexo em frente à casa de Adalgiza: pensa em inventar religião, os Capados Místicos. Novo ramo islâmico. Não dizem do azar em ler três vezes a Bíblia?

Terrorista é o cavaquinho.

Já Hermínio Dutra paralítico. Mesmo assim, jurou perdoar a mulata. Só exigiu de Adalgiza, das dez à uma, botá-lo na sala, num caixão com tampo de vidro. A mulata saca a calcinha no repique do salto agulha sobre o cristal: tlintlin; tlintlin; tlintlin, tlintlintlin, tlintlin. Hermínio Dutra canta baixinho. Junta gente pra espiar da janela; o casal estuda cobrar ingresso. Da rua, Curimbaba ouve extático, pega da garrafa sob a beca – e tome. O céu é um lugar estranho pra morar. A vida seja. E Adalgiza sapateia. Ô sapateia, sapateia.

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Vila Madalena [SP], inverno, 2002.

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