Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

Psicotrópico

Sábado, em flagrante cena de falta de objetividade jornalística, o repórter, dando uma de roadie e na brodagem levando um case lotado de vinis para a Subadream, invade o palco flutuante onde acontece o show do axezento Boi Sound System e é atropelado pelos popôs das popozudas da banda, que frenéticas abundam pra lá e pra cá. Perdidaço, o repórter tropeça em fios, desliga microfones, paga mico sob holofotes.

Pra onde eles foram? Moon moon moon moon. Embaço demais. Assim, disperso na floresta, amazônica, só guiado pelos sons, o repórter procura o paraíso perdido. O DJ Soul Slinger, mentor do festival Ecosystem, manda “Aquarius” – engraçado como certas coisas até fazem sentido. Tem fogo? Interpor a página branca feito um escudo àquela lógica tão complexa: antes de entrar no palco e detonar as bases recém-enviadas por Apolo 9 para seu próximo Condomblack, Otto afirmou que viu uma coruja sobrevoar o palco e teve medo. Como reportar isso? Afinal, aqui há quem pense que a voz do MC é a voz de Deus.

Amazônia psicotrópica vingada em caverna africana. Nação Zumbi chama TC Izlam para cantar – é o encontro com a Zulu Nation. Os gringos não acreditam que o drum’n’bass nasceu no Recife há uns dez anos. Os gringos não acreditam na percussão da Nação. “O paraíso desta vez vem logo/ como um lugar sem nome” é o mantra de Jorge dü Peixe. Difícil crer em milagres, como o drumba e o samba em iorubá em “Tocaia”. E em bobagens – BNegão rebola o pancadão da dança do patinho. Tem fogo? O paraíso sempre foi artificial, desde o tempo do inferno: o maná de Manaus se chama Dom Pablito, homenagem a Picasso – um quadrilátero de cinco por cinco milímetros cuja forma lembra outro catalão, Miró, e de efeito mais pra outro catalão, Dalí. Oferenda trazida dos céus químicos pelos Hell’s Angels, executivos bicudões ao lado das latas de lixo vermelhas, azuis, verdes, amarelas [metal, papel, plástico, lata, não jogue lixo na floresta]. O repórter ouve que alguns podem esconder mortes atrás dos logotipos de águias e caveiras. Mas não é hora pra apurações – e sim, negócios.

DJ Krush e seu trip-hop samurai. A reportagem escapa do palco flutuante e se dirige à grande missa dos autistas que rola na maloca tecno. Tem fogo? Comunhão orgânica através da música – não converse com ninguém dentro do espiritual estrobo enquanto pick-ups came down: você sabe, aqui os cães latem na igreja. Tem fogo? Numa corrida sem fim, musique never stops – nibelüngen kraftwerk.

Encostada numa coluna, a garota de óculos parece um pouco entediada da rave. E o repórter perde o prumo. Não se esquecer da porra da lua cheia por sobre toda a floresta escura, densa, granítica, sedosa. E não esquecer da mensagem. Não esquecer – esta é a mensagem.

[Na área vip, o garçom índio, colonizado há quinhentos anos, não tem mais espelhinhos pra trocar pelos vinis que giram nas carrapetas: só mosca e masca a realidade ao redor feito um universo paralelo a que ele só enviesadamente tivesse acesso – alguns até dançam, sem graça: um índio no meio da maloca, no exato centro do círculo de areia, camisa vermelha de bar de beira de estrada, uma cerveja em cada mão, gira e gira e gira e grita continuamente a mesma vogal, até que seus ouvidos se entopem de texturas supersônicas a 200 bpm e ele desaba sobre si mesmo.]

D’n’b by the pool do hotel Tropical. Otto, Subadream, Slinger, garotas tatuadas no rego e hóspedes perdidos [se hospedaram um congresso com 299 otorrinos chamado ESPIRRA BRASIL 2001 e 799 coreanos de camisas floridas que vieram fazer compras e comer jacaré e só andam em grupo, condição que, quando se topa com eles num dos corredores alla Iluminado do hotel, os transforma de imediato em milhares de sedentos jack nicholsons orientais]. O no-eating-guy de sunguinha e sári florido cai dramático na piscina – passou uma tarde lendo as mãos dos seguranças que mal sabiam português, murmurando coisas como “take care of your estomach” ou “eat less, my dear”: é um tanzaniano que mora em NY e jura não comer há seis anos [sua casta, de seis mil pessoas, é chamada de breatheaterian, os comedores de vento]. Esse hotel parece saído de um filme B. E não é preciso ser muito esperto para sacar qual é a dessas garotas fantasiadas de índias na recepção. Tem fogo?

Felizmente, os pássaros chegam às cinco da tarde. O repórter não agüenta mais certo discursinho ecológico que às vezes aparece num evento patrocinado pelo governo estadual, e, afinal, não se deve esquecer que o governador Amazonino pretende se reeleger em 2002 e precisa do apoio dos “jovens”.

Mas isso são especulações políticas. A coisa toda é sobre química – imagine a quantidade de alucinógenos que não deve existir oculta nas desconhecidas plantas amazônicas? Aqui é o coração das drogas, compay.

Que som pauleira dos infernos, reclama a índia que trabalha na coleta seletiva de lixo. Uma loira gira extática sobre sua cabeça uma bolandeira e periodistas colombianos locos: amigo, esto es muy mejor que la rumba!

– O drum’n’bass tem um pequeno atraso da segunda batida para a primeira, percebeu?
– Quem vai tocar?
– E esse ácido, que não bate?
– Não sabe quem está tocando?
“O line-up está na cabeça do Slinger” – uma das frases mais ouvidas durante o festival.
– Esse DJ é aquele ainda?
– Não, porra, você não percebeu que mudou?
– Não!
– Esse DJ é careca, pô!

O que todos procuram? E de repente, para onde eles foram? Tem fogo? O repórter pensa em transmigração de almas [a voz do TC Izlam – yo, yo – parece a de um padre rezando; melhor desligar o narrador off]. E apesar de todo o esforço do Greenpeace, há quem jogue lixo no chão. Água água água água água água.

Tem fogo? Palmas se aquietam, como asas de anjos aleijados. No silêncio, o sol na água parada, os animais espreitam – os ritmos gozam. Tem os que dormem cedo e perdem essas coisas. Assim como o povo entrunfado atrás daquele mato. No chill out, o dub e o bode dos bêbados. As estrelas anunciam o sol. E de manhã, crianças nuas riem ao pé do igarapé. Samba drumba denso de novo. “Whatever – mas sempre assim classe A”, é o comentário da gordinha. O loco fotógrafo cucaracha descolou umas minas pros manos do Aphrodite mas na sua vez o segurança do hotel mandou sua garota clandestina embora.

Foda. Marcelo Mirisola ficou com medo de vir e mandou: esporte radical é comer puta sem camisinha. E há quem diga que Manaus se equilibre no tripé pinga, pó e puta.

No Woodstick, a trilha é o Sítio do Pica-Pau Amarelo e o primeiro back do dia. E o sol nascente. Uma mulher de cabelos brancos, óculos rosa, meias pretas e minissaia roxa vem correndo pela ponte seguida por um cão branco. Tudo tão câmera lenta que parece tão rápido. Não esquecer das loiras acrobáticas em roupas de ginástica amarela laranja azul verde e suas pernas elásticas. Cada RG, uma história, reflete BO. Muitas pessoas camufladas com roupas do exército [Otto, um deles]. Acelerou, Maria acelerou, acelerou, Maria acelerou, toca o vinil, enquanto o fotógrafo, queixo travado de ecstasy, chora: – não sei mais para onde apontar a câmera, cara. Tem fogo? Pífaros à contraluz. Mas do outro lado do rio, a tenda tecno never stops. E os bichos todos, nascendo.

Por todo o canto se vêem despedidas pra daqui a pouco. Subadream: o repórter refugia-se dentro da parede de caixas de som, bloco e caneta em riste. Parangolés de abelhas vestem a banda. Como descrever um som? A palavra é corrupta – prega certo alien sound generator. A cada partícula de semifusa, a cada miligrama, um compasso, uma batida, uma cadência modal: medidas pra estudar alturas. Tem fogo? E a desanoitecida loira cujos olhos eram da mesma cor da lata de lixo reciclável de papel? E sempre os mesmos hippies mochileiros, eternamente indo e vindo de festivais de música pelo mundo, vendendo seus anéis de prata e suas maricas de durepox? E um suspeito DJ índio com uma camisa do Sepultura? E quebras súbitas no ritmo? E flashbacks? O repórter procura o centro profundo da narrativa, contido nos olhos daquela menina careca que balança os pés tão descalços quantos seus seios, seus lábios, seu abandono.

– O que você tomou?

Na ponta da flecha. Não esquecer do cachorro que veio falar com a reportagem no exato momento em que o sol brilhava nas palhas amarelas mixadas a Villa-Lobos e índios do Xingu e o tecno alucinava do outro lado do rio – como se lá ainda fosse noite, e aqui, já o dia; na mente do repórter uma zona intermediária, plena de possibilidades. “Necessário é criar”, afirmaria Pessoa. A reportagem é inútil para remixar em cada exato canal dados de macumba, Drummond soterrado por camadas de neblina como se só ficasse soletrando números infinitos que sempre aumentassem, sempre mais – musique never stops. Neurônios fritando frios no corredor iluminado do hotel, às dez da manhã. O televisivo Gugu Liberato, cercado de garotinhos bombados, cortados pelo vôo do patinete do DJ rastafari – outra alucinação do ácido? As semifusas da caixa de lata da bateria eletrônica cada vez mais rápidas, virando umas sobre as outras, enquanto levadas de rontonton vão se sucedendo como ondas numa praia de arrecifes.

Fora com a objetividade do jornalismo. Culto à DJ loira cujo nome se perdeu, mandando um drumba de freqüências subsônicas que começavam nos pés e terminavam em vibrações a implodirem o crânio. Isso é o verdadeiro rock’n’roll, em seu simulacro sintético. Os índios ticuna ficaram esperando que o som se aquietasse pra que pudessem encenar seu incendiário ritual. Mas o cacique se irritou e mandou todos para casa. Pra onde eles foram? Tem fogo?

.

Manaus [AM], inverno, 2001.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: