Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

O quarto dos ventos

05h55min55s: estou aqui, estou aqui, agora mesmo, sou eu quem o percebe mas não é possível estabelecer uma conexão: sei que antes disso houve pessoas, gente que mergulhava no mar azul de Maracaípe, pranchas se espatifando na areia e no entanto agora tem só essas porradas na porta, porradas na porta, por que será que não atendo a esta porta, estarei por acaso dormindo? se durmo, por que não acordo para atender e desligar esses ventiladores? não é possível, devo estar acordado, sim, é claro que estou acordado e posso ouvir lá fora o mar dourado de Maracaípe se entrelaçando felino nos troncos dos coqueiros, posso ouvir suas águas cruzando com as do rio Ipojuca, isso é real, apesar de todos os ventos que me circundam, embora todos os ventiladores do quarto na pousada vazia ligados sei que isso acontece aqui neste instante, e apesar de todos os ventiladores tremo de febre, tesão e êxtase, como se levitasse, ou como se me eliminasse o como se – é o que é – no que não haveria o menor problema não continuassem batendo à porta, batendo à porta, à porta, à porta do quarto em que vim calmamente dormir após contemplar a lua amarela um olho de fogo nascendo cheia do fundo do mar vermelho de Maracaípe; noutro tempo, no tempo como se, no tempo antes e depois, agora não, agora somente agora, agora batem e batem e batem à porta e as hélices giram jogando meu suor pra todos os sentidos cardeais e o pior é que estou lúcido, com certeza, já tenho certeza de que estou acordado, meu corpo é este mesmo e estou deitado na cama do quarto da pousada onde ninguém me conhece, nesta praia pra onde nunca um conhecido saberá que vim e jamais me alcançará nessa despedida do universo – era o que pensava antes de notar o zumbido dos ventiladores nos pêlos do meu saco e sentisse saliva na língua e meu corpo uma tocha humana em sagração a excusos pecados trespassado por chamas e coceiras e nervos úmidos de rio a penetrar aos mangues o mar banhado pelo olho de fogo de um ciclope, um dragão, uma supernova engolindo deliciosa as espumas expostas por minha pele em levitação pra além do bem e do mal, acima do universo diário medido e cortado na fria lupa dos caracteres conectos a fatos, nojento universo de animal de zoológico, universo como se, como se interrompido pelas porradas na porta, pelas porradas na porta que me invocam os demônios combustíveis da dúvida e do medo e da vontade, aqui agora entregue ao êxtase das línguas hélices a estraçalharem doces som e sentido de meus pensamentos mortos no encontro das águas doces com as salgadas, êxtase a que nem mesmo Deus foi convidado, êxtase completo de solidão hóspede que desconhece pra onde vai e donde vem, expulso pra dentro do próprio paraíso a sobrevoar retumbante o país do corpo, como se houvesse um microfone ligado nalgum lugar e pudesse dizer a alguém o que rola justamente neste momento mas não posso – quem me acudiria agora nesta parte do mundo trazendo um conforto? morrerei e ninguém saberá, mero viajante num quarto de ventiladores que zumbem – tudo tão fácil não batessem à porta, batessem à porta, à porta trancada com as chaves contidas na fria caixa preta do meu medo de ser atingido pelo universo como se, o universo das coisas possíveis e não no universo deste quarto em que me é comunicada a essência das coisas em levitação antes de nascer – não importa, aqui sou tão mínimo no êxtase que me consome, êxtase sem aeroportos ou salas de estar, paraíso nem inferno nem condenação nem prêmio, espaço de matéria tão absoluta em que poderia até ouvir o coração da areia quente sob o rio enluarado não fossem os ventos que me circundam e as batidas, as batidas, batidas incessantes à porta me lembrando de que existe um outro lado além deste único instante total, onde antes que pense já saiba o que pensarei em seguida e já me esqueça daquilo em que pensava como uma onda a engolir outra onda e outra onda e outra onda vomitada pelo olho de fogo mas não é isso, não estou neste universo como se e sim no universo em que sucumbem incêndios e afogamentos, e me pergunto – quem estaria batendo à porta? alguém que conheço ou o óbvio desconhecido? a noite a me dar um último beijo antes do universo como se invadisse as dobras do meu mundo secreto? – este mundo secreto atingido sem que o possa justificar num vulgar êxodo de fim de semana, pois não há mais semana, não há mais tempo concreto pra onde volte, tempo em que possa mastigar o café da manhã com o jornal; se apenas conseguisse apagar o olho de fogo e desligasse o êxtase que suicida meu corpo num nascer da lua cheia sobre o negro mar de Maracaípe vomitando ondas sobre ondas com a força dos ventos deste quarto em suspensão interrompida pelas batidas à porta me implorando – há quanto tempo batem? – uma resposta, um empurrão de um universo pra dentro do outro, um corpo dentro do outro, maré penetrando corrente, tormenta de pensamentos tesamente se enlaçando quando me lembro, ou vislumbro, ou pressinto – é justo pra isso que vim aqui, justo atrás desse céu, exato, isso, nunca poderia ter sonhado este espelho refletindo a si mesmo até seu mais obscuro poço de luz, a mais profunda caverna solar em que me escondia antes que viessem bater à porta e eu me levantasse do leito para abrir, ou nascer, ou morrer – agora, exatamente agora: 05h55min55s

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Maracaípe [PE], outono, 2001.

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