Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

O mundo é um moinho

Olhodrops! Fortunádio sim, esse um cara de sorte, não eu. Aquele ali, ó, o fita no fiteiro doutro lado da rua, sentadinho no caixote, largando cigarro solto e bilhete de loteria. Rolou uma treta pra ele que faz ele vender mais que todos os malas daqui. É o que tem a voz mais nervosa, saca que berro alto. Ganh’dinheiro, compr’carnero! Pode ver, té no nome do tiozinho, tá ligado? Fortunádio! Nome bonito, grande, cê num acha? Então, eu chamo o cara de sortudo porque ele tem tudo de bom, mano. Té olho azul. Mulher dele, nega distinta, mina de responsa, ajuda em casa, cria os pirralho, lava roupa, num zoa com os malaco da área, na delíssima, véio. Eu é que queria descolar um nega boa assim, mas só cato é as perversa. Vai a ficha teleufônica! Que que eu tava falano mesmo? Ah, o Fortunádio, ele vende mais pela goela, pelo nome e pelas lenda que diz que quem compra nele tem sorte. Cigarrmetadopreç! Cigarrgring! Um dia passou um bacana desses da Bolsa, eu já gritava é a borboleta: ele nem tchum. Foi o Fortunádio berrar é a sorte do seu ládio, é o bilhete do Fortunádio e o boy parou e comprou. Dias depois o bacana volta todo todo: meu amigo, ganhei na loteria, te trouxe uma presença, aí, valeu mesmo. Fortunádio nunca disse o que levou, só que ia empatar numa casinha que tava fazeno no Jardim Ângela. Eu dizia pros outros camelo, esse aí tem tanto rabo que um dia inda fatura loteria tamém. Ganh’dinheiro, compr’carnero! E eu sem vender uma pinóia, penano, ralano, se fudeno, mano. Mas depois que rolou aquela parada com o Fortunádio, aí que zuou, não vendi nada mais memo. Ó só, ele quase não tem mercadoria, morou? Vai a ficha teleufônica! Então: ano atrás, ele travessava a rua meio loco das idéia, distraidão, uma merça veio no gás, não teve acordo: bumba. Nas perna, mano. Véio, ficou migalha, os osso passado num ralador de pimenta, papo cabuloso. O motorista, mó playboy, num quis saber de treta pro lado dele, indenizou bonito. O Fortunádio nem precisava trampar mais na vida. Mas quer tirar o sustento de nóis. Presepada. É pior agora, a pessoa passa, e de pena, pára e paga mais, pra ajudar o porra do aleijadinho. Cigarrmetadopreç! Cigarrgring! Ele vende tudo, tudinho, num dá cinco da tarde o fita sai fora, nem precisa catar buso lotado. O cara tá no céu, vende tudo mesmo, ó as canjica do cara escancarada, se abrindo todo, saca só, só o tempo que cê tá aqui quanto neguinho não fez jogo no sem-perna? Té tive de mudar de calçada, mano. Dá licença. Coisa de Deus, tem quem nasce com o cu pra lua, fala sério. Fosse eu catado por um carro, morria atropelado, cagado que sou, morou? Foda. Bom, cada um com seus pobremas. Firmou? Olhodrops!

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Praça da Sé [SP]–Cordisburgo [MG], verão, 1994-7.

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