Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

Jornal do caos

Já não sou mais aquele
e ainda não sou outro
Millôr Fernandes

[Lua]
O orelhão da esquina tocou às 4h48, a hora dos suicidas. Um toque só, e parou. Daí que abri meu bloco de notas e comecei a escrever isto – tentar um jornalismo do caos: a notícia, pão de cada dia, sem senso de o que, quem, quando, onde, como e porquê – e, ainda assim, as luzes do meu loft vão ficar sempre acesas, sala, mezanino, cozinha, wc, varanda. Sem acessar os eventos externos, as notícias do mundo me serão, e só porque eu quero, traficadas – isto é, me impedi de saber o que acontece, ou melhor: editei eu mesmo meu caos particular [não será deus o grande editor?]. Pra isso, desliguei o celular, cortei a linha telefônica, o interfone, a internet, a tv a cabo, a empregada, a assinatura do jornal, das revistas semanais, das mensais, das importadas, e no fim paguei pra o porteiro jogar no lixo toda a correspondência – a não ser um único envelope diário, onde tem um clipping elaborado por cinco infotraficantes de confiança.

Porque esse vício me cobrava muito alto. Juros sobre juros. É. Hoje, às nove da manhã, enquanto presenciava, por uma fresta nas venezianas, o sol flutuar entre as antenas da avenida Paulista, pensando no que inventar pra cobrir o rombo no cheque especial e nos cartões de crédito – usava o cartão C para pagar o B etc –, senti que minha ração cotidiana de jornal já se atrasava em uma hora. E salivei. No som da sala, Nico chamava as festas de amanhã. Desmaiei. E até agora não senti que precisasse tomar um banho. Sendo que, pela presente, firma-se que comecei este diário às três da tarde. Organizado. Tudo bem – agora pouco, considerei que havia falado de mim demais até, e rasguei umas páginas. Acho que hoje é segunda. Mas pelos sons que vêm da janela parece ser qualquer dia da semana, todo dia é igual nessa maldita cidade encaixotada, caixotes, caixotes, de caixotes de azulejo vagabundo emusguecido fuliginoso frágil é SP… ah, que morra toda, porra.

Daqui por diante, enquanto não parar de tremer, vou dormir com todas as luzes acesas.

Tomando uma pepsi à frente de minhas venezianas, posso ver também uma padaria francesa… Do lado oposto da rua, numa casa térrea marrom-merda, prensada entre prédios de vinte andares, moram um velho, uma velha. Não sei se são irmãos, se ele é pai dela, se ela é amante dele, se algum dia foram casados – o fato é que, pelo modo como saem metódicos depois do almoço pra sacar o movimento dos bares na rua, sem dizer lhufas um ao outro, irmanados aparentemente no poodletoy branco que acariciam no pescoço vez em quando, parecem isolados ali para sempre… Será que ainda se preocupam com a última declaração do presidente, o mais recente escândalo sexual do jogador de futebol ou o decote no vestido da modelo que abalou a festa do Jóquei Clube?

Na dúvida, portanto, caso seja irreversível minha síndrome, criei essa saída de emergência. Instruí cinco figuras a me tratarem com mínimas porções da droga. Elas foram pagas pra recortar 5 notícias ao acaso e me passar todos os dias por debaixo da porta – a idéia é que eu resista a abri-los ao máximo; se conseguir, é a cura. Não foi tão difícil encontrar cinco infotraficantes – todos analfabetos: pouco tempo atrás tinha entrevistado umas empregadas domésticas pra limpar o loft em que rabisco estas [em que rabisco estas palavras só pra afirmar que, é, impresso, eu existo. Vamos ver se este tratamento dá certo… Vai ser foda. Uma leve convulsão, logo depois de almoçar biscoitos – agora sem ver tv – me abriu o supercílio direito, naquela cabeçada nos pedais do piano].

[Marte]
Desesperadamente na festa em que estive – em que estive agora pouco já nem me lembro o por quê, talvez uma vernissage talvez o lançamento de um livro –, desesperado porque vinham falar comigo e eu não lembrava seus nomes, desesperado porque achava que todos reprovavam o jeito como segurava o cigarro ou bebia rápido demais o vinho, desesperado porque sentia de novo aqueles calafrios nos braços, desesperado porque odiava aquela muzak prozac em jamsession de branco metido a negão com muito saxofone e muito yeah, desesperado abordei uma patricinha falsa loura, que sabia ser filha da dona de uma loja fodona em SP, mandando alguma babaquice sobre os arabescos da barra de sua saia… nossa, que maravilha, me lembram um documentário que vi sobre a invasão dos mouros na Espanha, ah, você gosta do Paco de Lucia? E de Paco de Lucia emendamos para que delícia é passear pelo bairro gótico de Barcelona e as touradas e Gaudí e o último filme do Almodóvar que eu não tinha visto, como é que não tinha assistido o último filme de Gaudí, digo, de Paco Rabanne, mesmo assim, para impressioná-la, resgatei dos escombros da memória aquele poema do Hemingway sobre Ademir da Guia e os toureiros de Madri, mas o primeiro verso não me vinha, não me vinha, aquele vinho morno minha garganta regurgitava para a língua me fazendo esbugalhar os olhos catalãos, parara-tchim-bum-bum-bum, ela se assustou, riu, interessada, já, educadamente tentou contornar minha falta de destreza poético-cinematográfica qual seja minha charmosa incultura de ocasião e veio com uma historinha de almoço na casa da mãe em seguida me chamando a atenção pra um velho e uma velha que com tal langor degustavam coxinhas rançosas… você que é jornalista, olha que pauta, tá vendo aqueles dois ali, eles estão em quase todos os lançamentos de livros, vernissages e eventos culturais de São Paulo, um amigo me disse que são velhinhos pobres que caçam eventos pela cidade pra satisfazer sua fome cultural, repare como eles são humildes mas limpinhos, o paletó puído do senhor e o vestido costurado da senhora; esse meu amigo diz que sua postura de pseudointelectuais denuncia eles serem mais uns coitados que se fingem de personagens da intelligentzia paulistana, mas eu discordo, tenho pra mim que eles vêm nessas vernissages mesmo é atrás de canapés e tacinhas de vinho branco fajuto – nisso irrompeu de meu estômago em borbulhas de Pollock no vestido mourisco da moça um vomitão, wwwaaaaaarrrrrhhggg: oh meu deus desculpe desculpe desculpe, eu limpo você, eu te limpo, ai que nojo, putz, desculpe, por favor, ei, cadê os velhinhos, os velhinhos foram embora, qual seu nome mesmo, ai, desculpa, sou uma grossa, uma egoísta, você tá melhor? tou, tá tudo bem, Maria Fernanda, Zed Stein, tchau, tchau, vamos marcar, vamos sim, me manda um e-mail, olha, pega meu cartão, até mais, qualquer coisa eu tô no celular.

As vozes outra vez na minha cabeça me locutando flashes de notícias sobre homicídios Oscar Nobel gols maracutaias desastres de trem na Índia DJs do momento crises cambiais conjugais no trono inglês, tantas coisas que eu precisava saber e passar pra diante… gelado, suando, a taquicardia ressoando pras mãos em 190 bpm, a língua uma lixa, o bucho feito um tatu-bolinha e o pau virado num pastel murcho, senti que devia me cuidar, me recolher ao meu loft meu mundo meu tesouro e conseguir pagar a conta no restaurante com cheque sem fundo já que o cartão de crédito bloqueado e responder afinal pro manobrista que não tenho carro, caralho, tou parado aqui espiando o movimento, posso, porra? Saí andando, vesgo pros sinais de trânsito – achava que vermelho estava aberto e verde fechado, quase fui atropelado –, vislumbrei ao longe os tais pobres velhinhos, prosseguindo lenta e cultamente pelas ruas da Vila Madalena, hieráticos, como se indo à ópera só ao avistarem uma lata de lixo. Ir atrás deles me deu motivação pra sair do sonambulismo, ah, o bom repórter nunca morre.

Não eram tão pobres. Nem muito originais… Moravam na rua Original, justamente naquela casinha minúscula cercada por edifícios residenciais de vinte andares – semelhando banheiros em sua estética azulejo-pós-neoclássico –, sua casinha térrea sem jardim nem quintal que eu via todos os dias. E, engraçado, sem antena de tv [os tais velhinhos malignamente ilhados sob uma tempestade de white noise, ah que saudade de um poltergeist, estou bodeado de ser unheimlich de mim mesmo, quero meu alter ego de volta, nunca mais vou pra nenhuma festa que não seja o Galo da Madrugada].

[Mercúrio]
Qualquer tipo de abstinência fode os miolos, pensei, esguelhando o terceiro envelope largado na minha mesa marroquina. E todos os cretinos – vocês, que zoam dos viciados, e mesmo vocês aí, que até acham que fogem das drogas e não conseguem, os idiotas assépticos que se crêem legais e ajustados, os imbecis superiores senhores do método e da bacaneza fissurados em talkshows e pick-ups e sitcoms e resultados do futebol e modelos de celulares e cartões de afinidade em alguma puta igreja embalados em gravatas e anáguas de cor certa e música adequada, vocês, os que repudiam nos junkies um caráter fraco –, que tentem só uma vez se imaginar sem nome, sem amor, sem país, sem a tal grana, sem nem perspectiva de ressurreição ou fogo eterno: imaginem mortos não só seus nomes como a lembrança desses nomes pra outros, amigos, parentes, amores, que, claro, já devem estar também mortos, mortos, mortos – só que, ao mesmo tempo em que têm esta sensação desmaiando suas hemácias a cada segundo, vocês ainda vivem e gritam, mas desejam por todos os demônios que estivessem comendo grama pela raiz. Esta é a sensação de nostalgia de um desejo que não se preenche nunca – e essa saudade é ela mesma seu prazer.

Hoje, de manhã, pra parar de tremer, me obriguei a um lexotan e um lorax… tá, mandei também uma cibalena. Antes dessa licença médica, alguns colegas jornalistas, ao saber de minha decisão de ficar sozinho por uma semana, me sugeriram um tempo nas montanhas – ganhei uma dica dum lugar cult no sul mineiro, o vale do Matutu, e outra de um bacanésimo retiro tibetano em Itu… Ora vão tomar no cu.

Os gente-boa da hora soltaram que até seria interessante tomar sol em Jericoacoara… Uma amiga me convidou pra uma rave que prometia ser ultramegahiperhypada, em Maresias… Puta que pariu, merda!, não entendem, não estou viciado em nenhuma droga em particular: estou viciado é na idéia do vício; eu preciso saber, não tem como driblar dessa curiosidade que me alimenta e me concebe. Pior que isso, percebi que não sou o único: todos estão viciados nisto; meu único problema é que só eu estou – penso que – informado de que vício é este: se eu cobrisse minhas retinas com navalhas, testemunharia afinal tudo em branco, inferno particular, exclusivo universo, o grito do momento, a última estação? Quando todas as certezas se forem, o que restará deste enviado ao Hades light – uma legenda, uma manchete, um crédito, um boa-noite, um comprimido, um pôr-do-sol, uma receita de bolo, um pentelho entredentes, olhos revirados pra dentro na caça dum desejo sem nome adquirido em doze vezes sem juros? As sirenes da polícia girando ainda por todos os meus labirintos, busco meu pai Pac-Man… é, comi todas as pílulas graais de realidade que me foram ofertadas por estranhos – ao contrário do que mamãe me aconselhava –, um estágio cada vez mais rápido que o outro, labirinto labirinto labirinto, rápida solene deliciosa do dedo médio ao pescoço progressiva a tendinite fustigando 24 horas por dia montada no joystick fuçando o último degrau do jogo, a fuga, olhos em esbugalho num sistema de tiques anfetaminados em que me tornei, eu, o maior parque de diversões de mim mesmo, este esqueleto dançando drum’n’bass titerado por uma fome de consciência fora de controle [fora de controle. Como foi mesmo o sonho?

Tentava tocar no piano da sala uma música nunca antes ouvida – como quem embala no berço um fantasma –: uma música de cabaré. O gigolô. Tinha um gigolô em meu sonho. Eu tocava piano num puteiro e observava uma puta que cantava, pensando em que música tocar pra comer ela de graça. O gigolô espancava a prostituta e lhe tatuava no princípio do rego, na brasa de cigarro, o número 666.

Ele me bateu de novo… gemia a prostituta sem nome, pouco antes de me submergir, a ele, o outro eu, entre todas as línguas de sua língua… o supremo tabu quebrado. Eu sonhava como quem vai a um set de filmagem, dirigindo as cenas em que eu mesmo atuava. Ele, digo, eu, me bateu, ela, digo, eu, grogolava. De fora de mim eu nos via, e nosso rosto não era o meu – era um mix de Kurt Cobain com Samuel Beckett. De modo que matei ele, não a mim, mas ao gigolô – que, no fim das contas, era eu mesmo – com minha chave de fenda, a fenda em seu pescoço se abrindo desgarrando cardumes de linotipos: substância mais nojenta que água benta quente… Corri a noite toda, os músculos das pernas embrutecidos, não poderia voltar para minha casa, eu deveria estar atrás de mim, a chave de fenda no bolso provando o delito, não sou dos que deixam a arma do crime no local do crime, embora, no sonho, não soubesse muito bem onde é que tinha matado o gigolô, e já nem me lembrasse mais da prostituta: exaurido de cansaço e angústia, entrei na redação do jornal, onde todos meus colegas me esperavam consternados, apontando-me a manchete da página Cotidiano –

JORNALISTA MATA GIGOLÔ POR AMOR A DOSTOIÉVSKI

. Tristes, todos vêm me cumprimentar – você conseguiu, mudou de editoria, pulou do caderno de cultura para as páginas policiais, é uma pena, gemeu a estagiária lambisgóia que eu intencionava lamber, mas pense bem, veio o subeditor, amistoso, você agora vai ter muito tempo para escrever suas memórias do cárcere, quando o diretor de redação chegou com uma piadinha infame, nunca pensei que fosse perder você para a concorrência, olha, é melhor você se apressar, a polícia está logo aí… O que era verdade, as sirenes não mentiam, as sirenes nunca mentem – as sirenes que me despertaram, por exemplo, eram de carros de bombeiro que haviam chegado no meu prédio para investigar um princípio de incêndio que despontava no apartamento 161. Eu moro no 171. Literalmente].

Não chegou a ser incêndio, mas durou umas duas horas a operação. O sujeito que mora embaixo de mim, um velho advogado alcoólatra, dormiu fumando e o cigarro caiu no lençol. Foi levado pro PS com queimaduras de segundo grau, me disse o porteiro [não agüentei e desci pra ter acesso à notícia in loco, não me perdoaria ser furado debaixo do nariz]. Aí lembrei da Clarice Lispector e me deu um puta cagaço, medo de de repente perder meu belo salário de repórter especial e acabar louco e legendeiro de revista de fofoca como ela, e não dormir nunca mais… é, devia ser mais uma armação contra mim.

Logo após saber todos os detalhes idiotas do incêndio, subi – tem uma câmera no elevador, é, eu sei – e resolvi estourar vários sacos de pipocas; misturei com a ração pros iguanas, abri outra pepsi 2 litros, despejei meio valium, trouxe tudo pro mezanino, acendi as luzes e cá estou, debaixo da cama, segurando este diário contra o peito. Pânico do fantasma mongol da voz de Clarice vir me puxar os pés.

E se meus sonhos fossem reportagens?

Observando minhas veias saltarem desembestadas sob a epiderme, noto que minha pele é tão fina quanto papel: pra quem deixar este diário? Pra quem escrevo? Pra mim mesmo, daqui a uns anos, olhar pra trás e descobrir o quanto sou ridículo? Pra que, afinal, as pessoas escrevem diários, que não seja pra moto-perpetuamente alimentar sua sede por más notícias? Por favor, será que alguém consegue desligar da minha cabeça o narrador off?

[Júpiter]
 Desde cedo, resolvi também não sair hoje. Meus braços doíam pra caralho, principalmente o esquerdo, de tanto escrever. E rasgar. Empilhei o quarto envelope de notícias sem o abrir – gravidade, órbita, força de vontade, seus débeis mentais –, acendi um back, enfiei um frontal pela goela, espiei por detrás da veneziana e saquei, do outro lado da janela do prédio oposto ao meu, dois caras observando atentos meu loft. Tinha reparado pela manhã, ao voltar da padaria, que os caras conversavam com os vigias do meu prédio, alguns dias antes. Conversavam também com o taxista que eu costumava pegar.

Estariam me vigiando? Cerro as cortinas, brusco. Sempre há repórteres investigando fatos. Alguma relação com o incêndio? Serão do jornal em que trabalho? Da festa em que fui outra noite? Volto às venezianas: os espiões deram o pinote. Terão existido?

[Pare. Não leia mais nada. Esqueça as palavras. Não interprete mais nada. Feche este diário. Por favor.]

DA REPORTAGEM LOCAL – O Agente Especial, 25, paulistano, esperou até ficar muito tarde. Às duas da manhã, foi à rua Original armado de uma chave de fenda e de uma faca de cozinha. O casal estava na cama. O Agente Especial cravou a chave de fenda no coração de F. S, 79, e estuprou I.R.S., 60, enquanto lhe apontava a faca. Chegou ao orgasmo cerca de quinze minutos depois. Durante o ato, F.G.I. ao lado “ainda sangrava”, segundo o Agente contou a este jornal.

Ele cortou fora a cabeça de I.R.S., e da garganta “da mulher escapou um cavalo alado”, relatou.

Enquanto vagava, “obtuso”, pela pequena casa, o Agente descobriu um porão onde haveria um presépio dentro de uma estufa – um porco, uma vaca, um boi. Num carrinho de supermercado, um poodletoy branco. Achou melhor ir embora: “afinal, em breve chegariam os reis magos”, disse. Então, correu de volta para casa, as mãos ensangüentadas, com medo de ser encontrado por uma viatura policial.

BATISMO – São três da manhã e o Agente Especial ainda não consegue apagar as luzes de seu apartamento: “talvez, as apague amanhã”, diz. Toma um comprimido de zoloft, pega a ração para os iguanas e a come, enquanto observa seus animais cada vez mais magros no aquário. “Preciso levá-los amanhã à igreja”, declara, em voz alta. “Não posso mantê-los pagãos, devo batizá-los logo”, afirma.

[Vênus]
O dia azul… pensei em pão com manteiga. Mas a chuva caiu de repente, eu vi as pessoas lá embaixo se morcegando, pequenininhas, um soluço… Choveu o dia inteiro. Outra vez não saí de casa. Me lembro às vezes – flashbacks ou déjàvus – da emoção que tive a primeira vez que vi uma manchete. Era minha irmã, me acordando aos berros na casa de nossos tios: –

NOSSA CASA PEGOU FOGO, NOSSOS PAIS MORRERAM

. Eu voltei de dentro dos meus sonhos pra cima da cama mijada como Prometeu que roubava o fogo: na sua histeria de fofoqueira de aldeia saqueada, minha irmã me dava minha primeira noção de um fato absoluto. Um fato nada mais é que uma ação que muda irremediavelmente o futuro – aí, de vez o mundo dos não-fatos se perdeu de mim, e portanto, a causalidade dominaria todo o meu tempo, não haveria mais saída de emergência para o dois mais dois. De dentro dos meus sonhos, me foi comunicado que meu mundo de sonhos desconexos havia terminado… Dali para a frente, meu cotidiano sucumbiria à voragem dos acontecimentos com causa e efeito e lugar e época e personagens e um sentimento de irrestrita verdade [verdade: meus pais sempre me falavam que preferiam, a serem sepultados, o crematório da Vila Alpina, então tudo bem, beleza.]

Tenho parado de acreditar nisso a cada manhã que vejo o casal de velhos na casa em frente à padaria francesa alimentar os pombos da rua. Eles deveriam me ensinar alguma coisa – ah, mais uma, eu, esse infatigável viciado em aprender e esquecer. Tive uma pequena alegria – me dei conta de que era sexta-feira –, e resolvi dar uma festa, pra qual não convidei ninguém, exceto o motoboy, que saiu do elevador com a roupa toda molhada e uma pizza de rúcula e mussarela de búfala e tomate seco e um guaraná; mas ele não disse que não podia me acompanhar, daí comi a pizza enquanto lia as palavras impressas no disco de papelão delivery como quem solfeja um mantra tibetano. Ainda não consigo dormir com as luzes apagadas.

À tarde, pela primeira vez desde que me formei em jornalismo, há quinze anos, consegui escrever uns versos… Lendo o poema agora, não tenho total certeza de tê-lo escrito eu mesmo ou um outro. Melhor acender mais um, tomar um, deixa ver, dramin, e contar as gotas escorrendo pela janela enquanto o poema de que eu jamais me lembrarei arde no cinzeiro, em chamas [em chamas meu rosto – palor, luzes sombrias – refletido no vidro da janela, oculto do exterior pelas venezianas; janela de onde não virá nenhuma verdade… Não desisto de procurar ser surpreendido por um milagre.]

[Saturno]
Logo que acordei, resolvi traçar aquele ecstasy que tinha guardado pra tal megarave na finalidade de observar a dança de meus esquálidos e nervosos iguanas ao som dos socos em meu piano num samba meio árabe. Porém, licença médica à parte, entre uma melodia e outra me lembrei de que sou só no mundo e preciso pagar meu aluguel e minhas roupas bacanas e que ainda estou no bico do corvo financeiro – preso por estelionato, eu? Deixei no ar meu solo de autodub e fui à luta. Abri as venezianas e as janelas e gritei para a rua: –

SOU UM PROFISSIONAL

. Enquanto tomava banho, sentia a primeira efervescência e me lembrava de novo do que tinha acontecido à velhinha e meu pau subia. Retornava minha mente pras coxas da estagiária de redação, de meias amarelas, trancinhas e peitos transbordantes, mas, como devia fugir o pensamento do trabalho, tentava me lembrar daquela garota no lançamento ou na vernissage, a menina em quem vomitara, e gozei, no chuveiro, me recordando do meu jorro de vinho branco sobre seus seios.

Foi difícil – taquicardia: esse elevador é uma solitária vigiada, não é? Hein? Diz pra mim – mas saí do prédio. Um breve telefonema no orelhão e já temos um dia de negócios. Aquela garota poderia salvar minha vida… O cavalo branco na esquina me conduziu aos Jardins afundado no banco de trás fechando os olhos para não ver outdoors painéis de mídia e cale a boca e desligue a porra desse rádio, estou pagando.

No fim do almoço na casa da tal coroa carioca loira milionária, o lacaio biba de libré me trouxe uma bandeja. Imaginei que tivesse ali dentro uma cabeça, a de São João Batista no mínimo. Imaginei que o mundo é uma. Logo me recordei que minha cabeça está gravemente ferida e retornei à realidade do almoço à beira da piscina. Apocalíptico engano. A biba de libré levantou a bandeja de prata: me oferecia uma pílula. Logo saquei – era um xenical. Um remédio para. Bem, você sabe. Controlar o intestino. Sorri para o lacaio recusando, sussurrando “mais tarde, obrigado, tem algo doce, tipo uma mousse de limão?”.

Maria Luana Guimarães de Albuquerque Lins engoliu seu xenical e prosseguiu em seu carioquês aprendido em novela da Globo a história presenciada ontem à tarde: um ex-senador baiano, “amigo nosso, que perdeu o mandato naquela armação que fizeram contra ele, coitado”, havia visitado sua loja de roupas de prêt-à-porter. Tinha permanecido duas horas sentado numa poltrona especial Luís XIV, de um lado a neta, vendedora da loja, “uma gatinha meio axé, e um lacaio do outro. Vinha uma modelo rebolando, os seios pra cima, o senador olhava fixo, doidão – bolinhas, meu bem –, e, pior, você sabe, ele é broxa. A modelo passava, fazendo a voltinha, ele olhava a bunda da moça. A tar-de in-tei-ra: peitão, bundão, peitão, bundão, peitão, bundão. Um dos homens mais importantes da República passou três horas na minha loja olhando o rabo das minhas meninas – até meu próprio rabo o filho da puta deve ter olhado. Comprou sabe o quê? Um par de sapatos Zegna para ele e um vestidinho Dolce & Gabbana pra xumbreguinha. E ainda parcelou em três vezes no cartão de crédito. Ah, olha, Zed, licença. Vou ali dentro e volto já”.

Será que foi efeito do xenical? Eu olhava o sol se refletindo nas águas da piscina e pressentia a segunda efervescência. Ainda fingindo que não me reconhecia da outra noite – eu idem; etiqueta moderna –, a vomitada filha da perua carioca ensolarava a tez galega. Era morena, pêlos pretos, mas tingia o cabelo de loiro. Havia aberto o biquíni de lado e, mesmo da mesa de onde eu estava, podia ver que tingia também os pelinhos do púbis, por sinal bem aparadinhos, acho que ela curte raspar estilo bigodinho de Hitler. Será que a perua ia ficar muito tempo cagando? Como é que funciona essa porra de remédio? Ela toma um e em quinze minutos, plin plin, já sai um cocozinho?

E aí o que é que ela faz com o cocozinho, será que o embrulha num papel alumínio prateado, faz um lacinho e dá de presente pro marido, tipo um mimo – como as freirinhas do século XVII na Bahia [provavelmente tataratataravós dessa tipinha cagona retrocitada] faziam pra conquistar a coqueteria dos freiráticos, aqueles donos de armazéns em Salvador que, sem comer ninguém, paqueravam as meninas que iam dar um tempo nos conventos depois de aprontarem e ficarem grávidas, entregavam o filho pruns padres viados e ficavam uns dois anos por ali, se chupando umas às outras até que surgisse algum fidalgo de boteco querendo se casar com elas e lhe fizessem a corte com presentes, ao que as freirinhas, mimosas, respondiam com florzinhas, sabonetinhos perfumados, ou, pra sacanear algum desses filhos de porra nenhuma, com bostinhas embaladas em rendinhas –, será que essa perua de merda faz isso pro marido também?

Oooahh. Foco. Foco. Muita calma nessas horas. Vamos desligar a central de informações. Voltar pra piscina, pensei, quando, duma porrada, senti o MDMA reverberar num tuiiimmm, inspirado nos reflexos do sol nas águas azuis da piscina refletidas de novo na pele dourada da menina filha da perua e seus pelinhos alvos, os pelinhos atrás da nuca, os pelinhos sobre o lábio, os pelinhos em volta do umbigo, em volta da xoxotinha, imaginei que até mesmo seu cuzinho se blondeie, a imaginei num instituto de depilação com uma gorda aplicadora negra a tingi-la trigueira na mais profunda bunda e ela gemendo de dor – então, toda vontade que tinha no mundo é de me transformar num gorila e fodê-la como um gorila retardado fode sua mulher gorila; e eis que ela pareceu perceber isso, pois se virou de barriga para baixo me olhando fixa empinando aquela bunda maravilhosa, o biquíni frouxo revelando o início do rego, do rego em que algo está tatuado, um número, parece ser um número, e, sentindo a terceira efervescência invadir minha epiderme, me levantei, pau em riste – quando chegou a tipinha perua, recém-bosteada e devidamente perfumada com talco importado no rabo, insinuando um cafezinho na salinha de dentro. Ou seja, justamente a deixa pra que eu a comesse em seguida, já que afinal de contas era pra isso que o gigolô jornalista aqui tinha vindo… imaginei que aquela tipa podia me descolar umas passagens pro Marrocos, assunto duma reportagem que tenciono vender à revista patrocinada pela loja dessa mesmíssima socialite.

Por isso mesmo, só pra zuar o barraco e só porque aquele tranco do E no esôfago estava me noiando resolvi que esse sábado era um belo dia para comer o cu da madama. E talvez fosse interessante lhe dar uns tapas na cara pra motivar futuras pautas. A bacanuda pegou no meu pau e eu anunciei que estava com um puta tesão na filha dela, um dia ainda vou acabar comendo a menina. Ela riu, “queria ver sua cara se visse a gente fazendo massagem ayurvédica uma na outra”, e me levou pro seu quarto decorado por aquele frango enganador de peruas, tirou o vestido comprado em NY e ficou só de combinação roxa, pra brincar resolveu me mostrar sua prática de vinyasa yoga, o que a fez soltar docemente alguns flatos enquanto plantava bananeira debaixo duma pirâmide púrpura sobre uma espécie de pista de dança ao lado da janela de onde se descortinava uma cascata sobre a piscina, fez um giro na cama – a quarentona é super flexível – e caiu de boca em meu pau com vontade, envolvendo-me com todas as suas línguas de uma maneira que eu cheguei a pensar até em amor verdadeiro… Quando, arrumando o peitinho ainda no biquíni verde, a filha entrou no quarto e proclamou:

“você empresta aquela sua calça da Donna Karan?”

. Sem soltar meu pau, em que me dá uns beijinhos, a coroa falou, mansa: “está no closet, Maria Fernanda, mas é vai e volta, viu?”. Maria Fernanda observou por uns cinco segundos sua mãe me chupando – talvez lembrando de minha golfada em seu colo naquela festa, ou talvez comparando mentalmente sua viperina técnica lingüística com a dela – enquanto pegava a calça, e, antes de sair, mandou um “tchau”.

Tenho que admitir que a coroa mandava muito bem no trabalho de sopro. Ok, quase broxei ao ver, no criado-mudo, ao lado de uma imagem de Nossa Senhora, uma pílula de viagra – provavelmente do marido, sócio do tal ex-senador em alguns negócios no Rio de Janeiro e Bahia [o que quase me broxou não era pensar nos escrotos que haviam passado por aqueles mesmos orifícios, mas apurar que esse homem, diretor da todo-poderosa federação das indústrias de São Paulo, era impotente – e a forma como descobria esse furo de reportagem é que quase me desinflou os corpos cavernosos]. Logo a língua eficientíssima de Maria Luana Guimarães de Albuquerque Lins, que não resvalava os dentes na minha glande, me recompôs, e, aí, algumas horas e muitas técnicas sofisticadas depois, esporrando nos três buracos da coroa, Zed Stein se certificava de que tinha descolado a viagem pra fazer a tal matéria de turismo em Marrakesh. Ao sair, a biba de libré me sapeava da mesma maneira como entrei – nulo.

Quantos putos babacas como eu não teriam transposto os umbrais daqueles playboys?

Zonzo, zanzei pela cidade a pé, indo do Jardim Europa até o centro, onde me lembrei dos meus tempos de office-boy e passei horas alucinantes acelerando tudo num Space Invaders vintage escondido no fundo de um flipper. A sede enlouquecendo, uma pá de vagabundo juntou pra me ver possesso jogar e suar e matar etapas e garrafas d’água. Horas depois, recorde quebrado, saí fora, antes que me elegessem o novo Pinball Wizard, e voltei pra Vila Madalena. Por umas trinta bancas de jornal tinha passado – sem cair na tentação de olhar as manchetes. Me senti Santo Antão no deserto. Onde será que vendem gafanhotos? Um bom programa: fritar uns gafanhotos e comer eles lambuzados em mel, assistindo, no ringue aquário, aos iguanas afiarem seus dentes no couro um do outro… No que cheguei ao loft, porém, tive de encarar, jogados entre nacos de pizza, garrafas vazias de pepsi e baratas, os envelopes dos infotraficantes.

[Duas da manhã. A correspondência continua fechada. Na sala, o Agente havia tirado sua roupa, corrido as cortinas e acendido todas as luzes. “Quero dormir agarrado aos pés, como um feto numa esfera de silício”, geme ele, em voz alta, trêmulo, segurando uma convulsão. Segundo conta, está “treinando para quando ficar cego”.

Antes, porém, “antes que chegue a sétima efervescência”, o Agente revela à reportagem que “não tem mais nada a dizer”. Pretende apenas “bater uma punheta para Maria Fernanda Guimarães de Albuquerque Lins”, afirma.]

[Sol]
Sobre sua mesa repousam sete envelopes – todos fechados. Domingo é o pior dia para sua doença. O dia das revistas semanais, dos cadernos de cultura, das estréias, dos filmes, das peças de teatro, dos vem aí, dos e-mails e convites pras festas fechadas de segunda e terça. Apoteose ou derrota mútua. O Agente precisa se alimentar, ele sabe, ou terá outra convulsão – decidido, caminha até a padaria francesa. Caindo pelas pernas, as calças se alargam ao redor de sua magreza. Azul – a boca aberta, espaço para que o céu invada seus pulmões. Tenta não parar na banca de revistas. Consegue. Seu corpo se movimenta solene – ele nem pensava enquanto seus olhos pediam ao garçom um copo d’água. A padaria está lotada de fregueses que saltam de carros grandes e motocicletas brilhantes. Espectador de dejejuadores, o mendigo de sempre – um albino de longos e ensebados dreadlocks – flutua invisível na calçada. O garçom não parece familiar ao Agente Especial. Nada lhe parece familiar. Somente um particular – os velhos da casa em frente, que alimentam os pombos em seu jardim de lajotas vermelhas. Ele os havia observado durante toda a semana: tão pontuais, não era preciso olhar o relógio para saber que são duas da tarde. Pede outro copo d’água com gás, gelo e limão. Decide beber um copo d’ água a cada dez minutos. “Maldito E”, murmura, para si mesmo.

Não entende muito bem a língua dos fregueses: “O que têm tanto pra falar tão cedo? Quem são?”, sussurra. “Será que pensam o mesmo de mim?” No fundo, não se importa tanto com isso, e seus colegas de padaria seguem lendo revistas e jornais e comentando as coisas impressas uns com os outros e o albino observando a todos sustenido, ombro a ombro, buscando a notícia, a mensagem, o sinal. Os pombos voam pelo ar – após o décimo-terceiro copo d’água e o último saco de milho. Uma mulher lê uma revista com imagens de pessoas de que o Agente não se lembra. Como se fosse um livro de figuras com indicações em outra língua. O Agente se surpreende: “Em uma semana teria mudado o mundo a ponto de seus personagens serem outros, completamente novos, um novo elenco?”, cochicha. Ao lado da revista da mulher, uma quiche de queijo derretido salpicada de alho-poró. O mendigo observa que um senhor deixou o caderno de Imóveis numa cadeira e precipita-se para pegá-lo: em voz alta, surdina algo como “Três dormitórios, closet, living room, sala de jantar, copa, cozinha, área de serviço, sacada, um quarto de empregada, piscinas adulto e infantil, duas vagas na garagem, sauna, salão de festas, tenda de massagem ao ar livre, segurança 24 horas, qualidade de vida, qualidade de vida, qualidade de vida”. O garçom pergunta ao Agente se quer comer alguma coisa. O garçom repete: “Satisfeito?”. Aflito, parece o garçom. Muitas pessoas por satisfazer. A fome cresce. A sede. O Agente pede “Outro copo d’água gelada, por favor” – guarda os copos plásticos uns sobre outros; a luz do sol produz neles reflexos azuis e dourados: não há nuvens no céu. Nos fios elétricos suspensos pelos postes de luz, sete pombos se equilibram, fixas gárgulas.

“Qualidade de vida.”

De um deles parte um tolete de bosta branca, que cai no capô de uma pick-up. O próximo projeta seu produto sobre o dorso de uma honda shadow, e outro vem melar o vidro de uma cherokee 4X4, em intervalos regulares, até que o sétimo pombo manda sua pequena porção de merda direto sobre o quiche da mulher que lê a revista, distraída, o garfo no ar ainda lentamente se encaminhando para a pasta de queijo e alho-poró – esta, temperada pelo excremento do pombo, vem se unir à saliva da mulher dentro de sua graciosa boca. A garganta do Agente seca quando ele vê a garganta da mulher se mover suave e animalmente satisfeita, enquanto vira outra página e espeta com o garfo o último pedaço do quiche, “Hmmm”. Todos seguem suas atividades de leitura de jornais e revistas – nos fios, silenciosos, os pombos obram –; o mendigo albino pesca com o olhar um notícia no caderno de Esportes lido por um jovem com gel na juba. Mais primitivos, os olhos do Agente voam para o outro lado da rua. Abraçados, os velhos observam a tempestade branca, tranqüilos, mudos. A velha parece sorrir. Alguma coisa naqueles freqüentadores de vernissages faz o Agente pensar em Adão e Eva na ilha de Caras, o que lhe dá “vontade de vomitar”, segundo afirma. Desta vez, agüenta até o fim. Tira umas notas do bolso, deixa sobre a mesa e sai da boulangerie.

Sentado na calçada, o mendigo lê classificados. Vigilante, o Agente não pode deixar de observar, por cima de seus dreadlocks piolhentos, o caderno Cotidiano, aberto na seção de necrológios. O Agente gasta horas dando voltas em torno do quarteirão de seu próprio prédio antes de recolher-se. As casas de diversões eletrônicas não abrem aos domingos.

[Lua]
O orelhão da esquina tocou às 4h48. Um só toque e parou. Achei que o céu estava particularmente roxo hoje. Porém, o universo, descobriram – outra decepção horrível, eu tinha lido o mês passado no caderno de Ciência do meu jornal – era bege. Tão bege quanto as calças em que me colocariam depois de descobrir minha gloriosa infâmia. Por que fui cismar de matar o tal casal de velhinhos, a outra noite? E com uma chave de fenda? Estou tão cansado que poderia dormir por mil anos – o mesmo sono dos iguanas sem nome agora tão silenciosos enroscados um no outro – e ainda assim não teria conseguido formular um frase só que fosse posse de minha exclusiva elegância, oh, nuvens rubras, onde estais, não me abandoneis, Lúcifer, mais bela das estrelas, ouro a quem oro [oro, oras, o telefone não tocou novamente, e eu queria tanto que o cavalo alado escapasse da minha perniciosa cabeça… consigo vislumbrar, deitado na cama no meio da minha sala de espelhos, sobre todos os capachos do universo, o jornal trazendo as notícias de ontem, a revista semanal com os fatos da semana passada, os prognósticos, as expectativas em preto e branco coluna sobre coluna, cheiro da tinta nos dedos, todos os eventos do mundo nas mãos e nenhuma só vírgula com estilo: ao morrer, prometo não me transformar num epitáfio – só, antes, a ventura de um único gesto de decência].

Oooahh. Foco. Foco. Vamos… Depois que terminei de escrever isto, me senti mais entediado ainda e desci um frontal com pepsi e, por via das dúvidas, um dormonid… tá, mandei junto uma vitamina C.

Muitos acontecimentos numa só semana, e todos vãos. Fui mais forte que imaginava: todos os sete envelopes pardos fechados… Vou enfiar eles aqui entre essas páginas, como lembrança. A licença acabou. Voltar ao trabalho… Deadline: logo mais, com forças para sair da cama, finalmente vou apagar todas as luzes do apartamento. As janelas fechadas… As frestas vedadas… O gás aberto.

.

Vila Madalena [SP], verão, 1999-2003.

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Responses

  1. […] tinha escrito sobre essa parada uns 7 anos atrás. Bem fez o Galera, que vai passar um ano em um pico onde a internet é a manivela… Não […]

  2. NOSSA


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