Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

Assassinato em Matutu


This world no longer concern you, William Blake
[Fala de Nobody em Dead man, de Jim Jarmusch]

1

O corpo da menina levitando no rio, deslizando pelas corredeiras, cabelos loiros feito um eco das pernas, manchas no pescoço, curvas e pedras, rio abaixo – e os braços abertos, os olhos semicerrados, procurando talvez entre as copas das árvores uma estrela.

2

O que aquele cara está olhando? Henrique dia sim dia não se perguntava. Que porra ele olha, de tão fixo? Tara de fotógrafo: interceptava não planos e ângulos, mas era doido de curioso na mirada dos que via assim, à sua frente, perdidos de sentido e longe de qualquer definição que um diretor de cinema quarentão poderia dar. Por isso encafifado em sacar o olho do mendigo ali pousado sob a árvore na calçada em frente ao cemitério, que Henrique avizinhava todo dia com seus passos desconjuntados, passos de quem tinha perdido a precisão de caminhar e botava a culpa disso nas botas italianas. Parecia um olhar além do muro do campo santo, talvez boiando num fogo fátuo, à toa, liso entre desvãos de eternidade e dia-a-dia, que caralho, como é que nego fica assim, simples assim, olhando, feito uma árvore a um homem?

Mas logo essa preocupação idiota se dissipava na nuvem do primeiro cigarro aceso logo depois de um curto na padaria Paraíso das Delícias, o tabaco na boca batucando em cima da próxima reunião com o cliente, com a produtora, com a equipe, qualquer trampo que teria de desenvolver das 9 às 9 daquele dia lhe dando a devastadora sensação de que ele era mais escravo de sua produtora de filmes que o mais raso dos estagiários.

3

É um vício, honey, pro qual eu não saco a cura. Pro qual, acho que não tenho, também, porra, tenho que assumir isso, como se diz, estofo – mandou, observando tenso o espelho no teto, acariciando a cicatriz em forma de lua crescente sob o olho direito, um tique que tinha.

Não se garante, é isso? Olha, quer saber, vou te dar uma letra, amigô. Não tou mais pra essa historinha de estressado, quer saber? Se vira, toma viagra, faz exercício, lê um livrinho de sacanagem pra te inspirar. Porque de broxa já cansei… Beijo – e Henrique, meio espantado, meio cansado, via sair mais uma quase namorada de sua penthouse. Mexendo nas carnes flácidas entre as pernas, até sorriu em imaginar dali a uns dias as notinhas nas colunas sociais e celebrity magazines: Henrique de Mello, o Rico, de novo soltinho na marola. As modelos não queriam mais surfar na onda do morenão.

Apesar de sair bem na foto, não vinha mandando bem tinha um tempo. Crise dos 40 – outro clichê que mascava, maquininha de trocadilhos e insights. Publicitário, diretor de cinema, premiado em Cannes, um carro grande e um pau pequeno. Por que não vender tudo? A capitulação mascarada no discurso quero-viver-mais-para-mim comprado e vendido por 9 entre 10 ex-profissionais que, habituados a preencher a existência de 30 em 30 segundos, subitamente percebiam que os leões de ouro lado a lado na estante eram nada mais que uma versão superluxo do velho forte apache… Porra.

Ia sair dessa – tentava resgatar a velha autoconfiança admirando-se no espelho, as olheiras grossas da insônia 3 às 5. Mas, porra, muito safo para dar uma de hippie. Já tinha fugido de São Paulo outras vezes. Floripa, Ubatuba, Trancoso, Tanzânia… umas semanas nesses lugares e, bora, pronto pra outra. Pra outra festa outro evento outra reunião com algum cliente cretino ou novos redatores geniais, e a todos tratava com sua notória elegância, sorriso de canto, rato. Dia seguinte, tudo de novo. Quando os primeiros pássaros pousaram na varanda da cobertura, semicerrou o skyline de São Paulo em silhueta nas cortinas do quarto, e, seguro, dormiu.

4

Ele entrou nu no rio, águas leitosas, mornas, a menina loira à sua frente, estelar avançando na direção do abismo, virou-se de costas – as árvores que abraçam a moldura do seu céu enluarado, os pássaros como da primeira vez e a queda serpenteando sua cabeça – as pedras afiadas das corredeiras já lhe castigavam o corpo, adeus gravidade, até onde o levasse o rio, à deriva, encruzilhadas, choques elétricos, a rua, o rio.

5

Bom dia, Li.
O briefing, Rico?
O briefing era mais embaixo, agora. O buraco olhando do sul para ele, com uma pedra onde se inscreveria seu nome e duas datas. Passava em frente a esse buraco, a esse condomínio de buracos negros, todos os dias. Fugir… Lembrou daquele lugar de Minas Gerais, tinha ido quando era criança, como era mesmo o nome?
Matutu…
Quê, Rico?
Esquece, Li… Que horas é a reunião de casting?
Em 5 minutos, gato.
Minutos depois sua sala se preencheria de biquínis dos mais coloridos recheios, a quem ele observava lânguida e esquecidamente, uma mão alisando o pau, outra rabiscando, na folha de papel que ocupava toda a sua mesa, várias versões da palavra Matutu.

6

Deveria começar pelas digitais. Procurar um cirurgião plástico que as retirasse. Não seria difícil de encontrar um que, mesmo sem ter amizade com aquele colega famoso nas capas de revista pelos revolucionários glúteos e glândulas mamárias de nove entre dez atrizes – cafetão das indústrias de laticínio –, era bom o bastante para realizar um trabalho extraordinário, sem chamar a atenção. Um trabalho invisível: desapareceria com rugas, marcas de expressão, linhas da vida. E as digitais. Que pareciam reaparecer. Hoje, ele temia que as digitais emergissem de dentro da epiderme. Tanto quanto os dentes doíam – ele tinha retirado dois dentes e serrado parte da mandíbula, para modificar a arcada dentária –, suas mãos coçavam.

Porque queria apagar todos os vestígios. Procurou antigas escolas e pressionou tabeliães aposentados. Queimou documentos. Claro, sempre possível alguém ter uma foto sua – afinal, ele em sua breve vida tinha ganho um tipo de ex-anonimato: o de decadente colunável. Pagou para um hacker criar um software que apagasse todas as menções a ele na internet. Trabalho que durou um ano. Quando faltavam poucos dados a serem deletados – até as colunas sociais tinham se esquecido dele –, providenciou sua própria morte. Um cadáver foi fácil achar. Um morto de rosto desfigurado e com documentos: tudo o que a polícia gostaria – e deu motivo para um belo funeral, onde compareceram todos os seus inimigos íntimos. E, depois da missa de um mês, ele sentiu-se morto o suficiente para sair da toca que havia alugado, pegar o carro – e sumir. Ele ainda não sabia para onde ia. Imaginou seguir ao Rio de Janeiro, daí pegar uma estrada para Juiz de Fora, e depois, as secundárias, então as vicinais, e somente parar quando tivesse feito exatas sete horas de viagem.

7

E aí, Rico? Escolheu alguma, gato?
Alguma…? Ah, sim. A mulata…
Mulata? Para uma campanha de cerveja?
Pois é…
Mas os consumidores não se identificam…
Faça o que eu digo, honey.
Henrique, meu nego, a gente não tá falando da campanha na Suécia, que deu certo porque usamos modelos negros. Estamos falando no Brasil, o país da loura falsa e burra.
Pois então os brasileiros que engulam essa mulata, porra. De preferência, rebatida com cerveja. Eu sei do que estou falando. Você acha que eu ganhei 20 leões em Cannes trabalhando onde? No boteco?

8

Sua cobertura – na sala um aquário seco – um inferninho vazio.

Pouco antes de dormir, aspirando o odor suave que seus novos edredons de seda e plumas de ganso levitavam em suas narinas, acolhido, encolhido, tentou lembrar qualquer importante ninharia que houvesse acontecido durante o dia, algo que o fizesse se sentir mais que um administrador de leões. Lembrou-se do filho, tão pequeno no viva voz do carro, papai eu vejo uma menina vestida de branco que atravessa a minha parede e senta no pé da minha cama e fica me olhando sorrindo, uma menina muito linda e loira vestida de branco, quem ela é, papai, um fantasma? Não, filho, claro que não, foi um sonho… Ah, sim, é provavelmente uma fantasmagoria infantil – foi o que, impaciente, Henrique sugeriu à ex-mulher. O filho tinha dessas: numa temporada em Itamambuca, o garoto contou que divisava pranchas prateadas, no mar, à noite, como tubarões de vidro saindo de dentro de sua cabeça, o menino via coisas. Ele mesmo teve um amigo imaginário, quando era pequeno. Onde será que andaria o amigo imaginário? Teria virado são-paulino ou corinthiano?

O sono era um penhasco suave, um desespero lento e certeiro como o fino tubo de dramin na gaveta do criado-mudo, num abraço sexy com o gatilho de sua .765.

9

Acordou no susto. Ruídos. O rato na cozinha? Não, rondavam o rancho, sim. Na lareira, a tocha, antes que apagasse. Rompeu a porta da sala com desespero. Um cavalo. Um cavalo relinchou para ele. E trotou rápido pra direita. Aí um potro. E uma égua. E um garanhão. E outra égua. E assim os cavalos continuaram o seu carrossel das três da manhã ao redor do rancho, o único movimento em vinte e cinco quilômetros, a tocha acesa a solitária luz no centro da mata, na entrada do vale do Matutu, entre o Bico do Papagaio e a Cabeça de Leão – a não ser contadas as milhares de estrelas que avançavam esfaimadas contra o solo.

Queria não ter nenhum nome – recordava-se, cercado pelos cavalos que o circulavam, do antigo desejo – desde que viu seu próprio nome escrito pelo demônio, no meio da mata, há mais de trinta anos. Será que os cavalos o saudavam ou o fichavam? Será que estava morando em algum antigo cemitério de cavalos? Fuçando nas janelas e tocando os cascos nas portas, os cavalos circularam o rancho por longas horas, até que o sol nascesse e eles desaparecessem sob ritmos e o pó vermelho.

10

Para tentar driblar as broxadas e a insônia, o médico, depois de ter assinado uma receita com dramins, viagras e lexotans, ah, sim, um prozaquinho, aconselhou que caminhasse um pouco, hum, seria bom se você. Footing e fitness passaram, de puramente imbecis, a palavras com significado. Magro, fazer exercício era tão idiota quanto chato, nunca gostou de esporte. Andar um pouco, todo dia, já faz diferença, falou o doutor. Começou a estacionar sua Pajero blindada a 5 quarteirões da produtora. Caminhar na calçada não era muito diferente de andar na esteira de uma academia qualquer, com a diferença de que qualquer mendigo poderia atravessar a vida de suas fatigadas retinas com as rotinas transparentes de quem contempla o vôo de algum fantasma que o espírito de Henrique não conseguia apreender.

Hoje, no entanto, não havia nenhum mendigo sob a sombra da árvore na calçada oposta ao cemitério, que se impunha do outro lado da avenida.

Era assim: ele aparecia, ficava vários dias por ali, aí sumia, ficava períodos sem surgir, e então vinha novamente, os olhos pousados no nada. Isso, desde que Henrique era um homem que caminhava diariamente 10 quarteirões. Nunca vira o homem em outro lugar. E se o mendigo surgisse só para ele? Teria alguma conexão com sua vida? Procurou estabelecer, numa fórmula matemática, uma relação entre seus sucessos empresariais e as aparições do homem de dreadlocks, chapéu de papelão e roupas que semelhavam um majestático fraldão feito de estopa e jeans, circundado por sacolas plásticas misteriosas, espojos da sua guerra particular. Mas antes que pudesse fazer uma conta mínima, sua assistente já lhe dava bom-dia.

11

Hoje não, papai, hoje a menina não veio, hoje eu consegui dormir, a noite toda, hoje, pai, quando é que você aparece aqui, hoje?

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O cliente disse que não pode colocar uma mulata na campanha de cerveja. Disse que isso contraria princípios e metas estabelecidos por seu departamento de marketing baseados na última pesquisa de mercado do instituto…
Fala pro Peixoto que eu tenho 25 anos de janela.
Mas como, Rico, se você começou a trabalhar só com 22 anos?
Com 15 eu era office-boy na DPZ. Eu tenho 25 anos de janela e 20 leões em Cannes. Se ele quiser, que procure fazer esse filme na concorrente…
Mas Rico…
Pois é, honey… ele vai descobrir que não tem empresa concorrente. E se alguém me ligar, diga que não estou…

13

Matutu, Matutu, matutava ele, tamborilando os dedos na cabeça careca, cor de cobre. Diga que não estou. Ouvia essa frase em novelas e filmes e imaginava ser a instância máxima do poder. O poder era justamente não estar quando se estava, Shakespeare já tinha matado tudo, e olha que o barbudo nunca tinha feito um MBA. Por que nunca tinha escrito uma peça? Por que nunca tinha dirigido um filme de cinema, de verdade? Imaginar era tão mais fácil. Ele nem precisaria enfrentar reuniões de casting. Preferia, em seu poder de macropeão de telemarketing, como um deus de desktop, estar não estando. Pegou a .765, os protetores auriculares, entrou no cubículo de um metro de largura por dez de comprimento, mirou o alvo lá longe, onde havia uma foto sua de corpo inteiro, na cabeça.

14

[Haveria uma lenda na família de que seu corpo teria sido fechado no dia de seu batismo, quando uma cigana teria vindo pedir dinheiro na igreja e seu pai, assustado, lhe passaria uma esmola ¬– a cigana, gorda e vermelha e eterna, talvez houvesse cruzado três vezes com a moeda sobre a testa da criança, pronunciando palavras rústicas que empalideceriam o padre, um pouco enciumado, quem sabe, ao ouvi-la dizer ao menino: “está fechado para o Mal” e desapareceria da igreja, sem pegar a esmola, uma moeda deixada sobre o umbigo dele – até hoje guardada, numa pequena corrente de prata, em seu peito.]

15

Henrique, o Peixoto já ligou 5 vezes querendo falar com você.
Fala para ele tomar uma cervejinha, refrescar a cabeça…
Rico, você tá esquisito. Tá com um jeito estranho ultimamente. Quer perder a conta? Eu não estou a fim de ir procurar emprego na outra produtora. Ainda.
Quer dizer que você me abandonaria, honey? Depois de tudo?
Olha só, gato, tou contigo há 10 anos, tivemos bons e maus momentos juntos, alguns deles em cima dessa sua mesa aí, e olha que eu estou sendo boazinha e falando só dos bons. Mas não tou a fim de ficar aqui a vida inteira, como seu guarda-chuva, sua espada de Jedi.
Então você me abandonaria… Tá se achando, né? Ultimamente você só reclama. Olha, acho que você precisava era dar uma levantada no astral, malhar, tirar essa barriguinha…
Excesso de gostosura, seu trouxa. Olha só, Rico, eu visto a camisa da produtora, e, como eu disse, até já tirei a camisa, só que a produtora não é a minha vida.
E o que é sua vida?
Minha vida são meus gatinhos, minhas histórias em quadrinhos e meu fuminho no fim da noite, uns filminhos, um carinha gostoso do lado…
Tudo no diminutivo, né, Li?
Pois é. Podia também ter acrescentado à lista o seu pintinho, mas preferi sair fora antes. Não vai mesmo falar com o Peixoto?
Eu já não disse que não estou, ô carioquinha?
E já que não está, o que está fazendo aqui?
Li, mais uma dessas e você está despedida…
Oba, com justa causa eu ganho mais. Até amanhã.

16

Depois mais nada. Depois almoçar. Depois folhear os jornais. Depois ler as revistas semanais. E os últimos boletins de propaganda. Os jornais econômicos. Os e-mails dos conhecidos. Talvez comprar um presente para o filho – alguma coisa educativa, um jogo. Ou desestressar na banheira, tomando um vinhozinho seco. Ou relaxar praticando tiro. Isso. Se livrar dessa dor nas costas. Toca o telefone.

A gente tá descendo pro Guaru!, grita o Renatão na outra ponta. Qual é, meu irmão, já caiu no ratatá, que voz é essa? Vez em quando Henrique se sentia estúpido soltando essas gírias. Não podia pagar de tiozinho, porém. E os caras do outro lado da linha tinham linhas boas a oferecer.

A gente tá saindo da Bolsa daqui a uma hora. Alugamo uma van e catamo umas mina no Bahamas. Vamo cair hoje pro Guaru, e voltar amanhã cedinho! – berrava o Renatão, no meio do pregão, do celular –, aê, vamo aê, vai ser mó barato.

Uns amigos que tinha feito quando dirigiu um filme institucional para a Bolsa de Mercado Futuro – perdiam uma Ferrari num dia, ganhavam uma cobertura no seguinte, ele acabava trombando esses idiotas. Até já tinha negócios com alguns deles. Pensou na mulata. No filho. Pensou em Matutu.

Foda-se. Guaru, Guarujá, era do que ele precisava, da energia dessa galera. Mesmo que galera não fosse exatamente um termo de pessoas adultas, sorriu.

Nessa, falou pro Renatão. Cês passam aqui?

Na volta, o mendigo lá. Inescrutável. Inflexível. Infecto – moscas ao redor dos dreads a imitarem satélites, exclamações estelares. Que coisa fica pensando esse cara o tempo todo, meneou Henrique por dentro a cabeça, feito espantasse um mosquito. Tinha até medo que olhar para o mendigo acabasse se tornando como aquela obsessão que teve pela mãe de seu filho. Não sossegou até que não visse a festa de 500 convidados no Jóquei Clube – e depois não sossegou até que tivesse o divórcio. Sossego, coisa longínqua. Não é que quisesse paz. Mas qual seria o norte a habitar os olhos rasos do imperador da calçada, observando a pacificada cidade da morte do outro lado da avenida, onde elementar se esgarrafava o lettering

ESTA PORTA SE FECHARÁ ÀS 17H30

? Entrou na pick-up, ligou o som – Jorge Ben –, girou a chave, se enfiou no trânsito, a mente imersa em uma história de que ele já não detinha o domínio.

17

Enquanto as sete horas de viagem giravam, ele se sentia vivo – e escutou A Tábua de Esmeraldas de Jorge Ben umas quinze vezes. Sentia-se um Trismegistus sem nega, negativamente total. O que estava no alto era o que estava embaixo, e ele via-se como, livre de código de barras, fosse a constelação de si mesmo, seu norte embutido no mesmo livre-arbítrio, universo guiado pela iluminação de seu ego – não haveria transcendência para além dele, circundado por espelhos.

Foi quando se distraiu, saiu da estrada e acertou um poste.

As exclamações brancas na cabeça, um tiro – snif.

A testa toda cortada, sozinho na via, ele colocou sua mochila nas costas e saiu andando, sem nem se despedir de sua pick-up. A moeda em seu peito tinha sido arrancada. Muitas horas depois, lá pelas quatro da tarde, entrava o vale do Matutu. E uma semana mais tarde, circundado por cavalos, talvez às três da manhã de um dia qualquer – já conseguia dissolver os dias da semana –, ele espiava o céu e o imaginou implacavelmente imóvel, como se o tempo houvesse se detido e ele vivesse um instante além de si: afinal de contas, era uma espécie de negro nascimento.

O que lhe dava o estatuto de pai de si mesmo. Seu nome, inclusive, não era ele, mas este era o nome que seu pai-dele-próprio havia-lhe escolhido. Pensou: aqui é a última embalagem. Serenou, nego, serenou. E segura, sacode. Daqui, não emergir. Tudo sobre ele teria propriedade. Num dos canais para o interior da Terra. Havia ali cachoeiras antigas. Nascentes, brumas. Obstáculos e renúncias. Profundos maremotos para dentro das montanhas. Aquelas rochas eram habitadas por um vasto ser inominado, que se movia debaixo das copas das árvores como um músculo, um elefante cavalgando de dentro de um tigre, ebúrneo ser de si fazendo fronteira, dentro, preso, rês. Imantado, se sentia.
Talvez por isso seu esporte favorito fosse se enforcar – pendurar-se numa corda no batente da cozinha e ficar observando, ao longe, a cachoeira da Fumaça, as mãos sob o queixo, segurando o laço, e se perguntando durante horas:

– Por que não soltar as mãos agora?

18

E aí, bonitão. Charmosa essa cicatriz. Alguma briga?
Nada disso, honey. Caí da bicicleta mesmo, tinha cinco. Tá a fim?

E Henrique traçou uma linha de pó sobre a caixinha do Tábua de Esmeraldas, estendendo em seguida um dólar enrolado a Silvia, seja lá que nome tinha a baixinha cover de Danielle Winitz. Estavam na grande cobertura de Renatão na praia de Pernambuco, Guarujá, cinco homens, cinco garotas de programa, alguns comprimidos de viagra, outros de ecstasy, vários papelotes de cocaína e algumas garrafas de Johnnie Walker Black Label. A baladinha ia ser uma jaca – uma morena estilo Valentina fazia um strip em cima de “Menina mulher da pele preta”, um reclamando da cloaca em que se encontrava o Corinthians, outro xingando os juros altos do ministro, dois ali já dando um conferes numa ruiva, sorrisos de prozac.

O celular tocou novamente.

Henrique, o Peixoto não gostou da história da Incrível Mulata e Seus Vinte Leões. Disse que está pensando em fechar outra produtora com a agência.
Agora não posso falar disso, Liliane. Estou prospectando um contato importante, depois te falo. Beijo.

A garota à frente era loira e não devia ter mais que vinte anos, filezinho, toda cheia de sardas, uns ombros bons de morder, dava até pra apresentar pra mãe, pensou Rico, se ele tivesse uma.

Disse que, claro, era modelo, mas estudava jornalismo e reclamou das mensalidades da faculdade. Reclamou também do noticiário, chapa-branca demais, segundo ela. Disse que pensava em largar o jornalismo e fazer um curso de fisioterapia, com especialização em massoterapia e física quântica, sabe, curar as pessoas, eu gosto disso. Putas politizadas. Balada fina mesmo, pensava Henrique. A ereção ligou de repente e ele se sentiu ridículo como quando tinha que esconder o pau duro no ginásio, de manhã. Silvia tinha olhos de peixe abissal, austral, anal…

Quero cheirar tuas aréolas…
Minhas o quê?
Vamos ali na varanda…

Talvez não fosse muito sutil – e pra que isso, agora? O sol se punha e Vésper despontava perpendicular sobre o mar opaco do Guarujá enquanto Henrique deslizava para baixo, com a língua, o top verde-água da quase-jornalista. Ela riu quando ele tirou o papel do bolso e pôs-se a esfarinhar-lhe o mamilo em espirais, constelações de cristais em seus poros, a pele subitamente brilhante, nossa, assim você me deixa maluca – aí, o celular tocou de novo.

Agora não, Liliane, depois falo com você…
Pai? Oi? Alô?
Oi, meu filho, tá tudo bem com você..
Tá tudo bem, pai. Mas pai? Eu queria dizer um negócio!
Um negócio – Silvia ria com a voz infantilizada de Henrique, a circular-lhe com pó o outro mamilo, celular preso no ombro –, que negócio, filho?
Que a mulher de branco agora tá aparecendo de tarde!
A mulher de branco…? Ah, merda! – o celular escorregou do ombro e, antes de bater na borda da varanda, foi espatifar a voz do filho nos rochedos lá embaixo.
Hum, papai, que aconteceu?
Merda… Henrique sentiu uma pontada na cabeça ao ver o tom de verde do mar, oscilou. Não era a mesma cor do morro Bico de Papagaio?
Meu filho, ele está com umas alucinações…

Os seios de Silvia, ele salivava em flocos de neve, tinha dado dois tiros já e a garganta pegava. Sede, e os grandes mamilos, dois morros, dois picos, como naquele lugarejo em que esteve, olhos fixos, espetados numa árvore, acusadores, um rio de leite e mel entre eles, para onde olhariam? Vem cá, putinha, Henrique sussurrou, caindo de língua na cor branca, queria a mente em claro, sem fantasmas de filhos ou contas de clientes, milhares de agulhinhas nos dentes, o dedo no cu de Silvia, seus olhos nos mamilos olhos – um avião cruzava o céu, perder o controle, estava na hora de isso acontecer, por que não marcou na agenda antes.

19

Achou que deveria tramar o próprio assassinato. Enganaria seu invasor por algum tempo. Falou com o vizinho, a dez quilômetros dali, um carpinteiro, e anunciou que gostaria de contratá-lo para que o matasse. Ele até pagaria um advance. O sujeito recusou, alegando falta de tempo. Eu pago adiantado, não se preocupe, sério, tá aqui a grana. Mas o carpinteiro grunhiu que matar uma pessoa dava muito trabalho, tinha que se preocupar com a mira, com o corpo, com a arma, não ser visto, culpa, ausência de culpa, alma, a perda da alma, enfim, tudo tão complicado, se lastimava o carpinteiro, melhor era continuar fazendo cadeiras a matar gente, não, obrigado, e seguiu fumando o seu baseado.

Assim, já desiludido com essa primeira recusa, com medo de não conquistar mesmo nenhum assassino a seu soldo – que mercado és, que me abandonais quando mais de vós preciso? –, ele começou a brincar de se enforcar, e até mesmo se masturbava quando amarrava uma corda no pescoço. Anoxia, tinha lido sobre isso em algum lugar, quando se preocupava com coisas com jornais, o que eram jornais? Ali não haveria espaço para isso – anunciar que a árvore da frente de seu rancho estava mais verde do que ontem? –, viveria num tempo impublicável, quando as coisas ainda não tivessem nome.

Mas, apesar de parar de conversar sobre governo, personagens de TV, futebol, agricultura, e fosse cada vez mais genérico em suas abordagens com os vizinhos, gente que ele via às vezes somente uma vez numa semana, voltando do mercadinho na casa-sede – minha mulher está grávida, ontem machuquei o ombro, este cavalo me dá um trabalho danado, engraçado, não tem chovido –, fugira tanto e viera se reencontrar no mais puro lugar comum, um paraíso achatado, onde as pessoas andam rastejando e ele brincava de se enforcar, de noite, naturalmente, lá longe a lua tremendo no rio, peixes, pedras, desespero.

Que aquele ente sob as teias graníticas das montanhas emergisse sob sua pele – um polvo em olhos de nanquim – como se recém-nascesse de si mesmo expelida porra pela garganta, as marés da lua, maravilha, língua na terra, mandrágora. Destilar de si o seu veneno não custaria mais que sete encarnações, pensava, os olhos navegando no céu de Lúcifer, a estrela da manhã.

20

Estava na cozinha, escarrapachado feito um grande cachaço sobre uma borbulhante poça de vômito, uma dor encalacrada abaixo do ventre – era o pau, teso, a sustentar todo o peso do corpo, a bunda pra cima e o gargalo de uma garrafa de uísque enfiada no rabo. Filhos da puta, grasnou, tirando a garrafa. Ah, não – o microondas indicava seis e meia da manhã. O que tinha acontecido? Até onde se lembrava, estava rachando uma morena com o Renatão, enquanto chupava a loira. Outro vexame, caceta?

Levantou-se, achou um banheiro, enfiou a cara e a careca na torneira.

No espelho, a cicatriz em seu rosto mulato reluzia como a própria lua crescente. Uma briga de faca, no colégio público onde havia estudado, faz muito tempo. Foi logo depois dessa facada que Henrique jurou nunca mais ser um fodido perdedor, e o espelho lhe lembrava dessa promessa todo puto dia.
Mas hoje estava fudido, embora tivesse fodido a noite toda e a cabeça de cima fosse uma bigorna, a cabeça de baixo um martelo arregaçado e rubro, o ar cintilante como da vez que tinha tomado daime em Matutu – como havia sido mesmo? Não, não queria lembrar, esse lugar estava lhe tomando por dentro como um câncer, esses sonhos e as imagens, tinha que cair fora dali, na sala todos os outros estavam meio semimortos pelados em cima de algumas putas e outras garrafas, um deles até parecia que tinha se cagado, porra, é o Renatão, corno. Tentou mijar, mas com o pau duro, acabou molhando a barriga, e o jeito foi tomar um banho.

Quando saiu, Silvia apareceu chorando, passando um creme nos mamilos.

Meus seios estão coçando… acho que foi o pó.

Abraçou Silvia, por trás, lembrando-se do fantasma do filho: será que ele tinha conseguido dormir? E por que aquele pau de merda não abaixava? Passou a língua na tatuagem em suas costas, um sol branco coroado por raios, semiluas com cheiro de creme dermatológico, deu um leve engate nela. Seca.

Vou fazer um café, gemeu a baixinha, enxugando aquele olho de mel oceânico e empurrando-lhe o pau. Porra, que caralho, vocês vão acabar com o cacete podre de tanto tomar essa merda. Levantou, ficou um tempo olhando para ele. Passou as mãos no rosto, e esboçou um sorriso, e, antes de entrar na cozinha, riu: credo, Rico… Cê já viu sua cara?

21

Bom dia – do batente da porta, onde brincava de se enforcar, avistou a chegada sutil de uma menina loira, que trazia pela mão um cavalo amarelo, mascando flores também amarelas. – Posso cantar uma música, plantar bananeiras, ser sua mãe ou ler seu futuro.

Leia meu passado – ele desceu da corda, estendeu-lhe a palma branca da mão preta.

Ele depositou um joelho no gramado, a menina pegou lenta sua mão como se fosse fuligem, a pele um óleo quente. Correu o dedo indicador da mão esquerda por suas inexistentes linhas:

Tudo indica que você foi um peixe na outra vida. Talvez um tubarão. Mais pra enguia elétrica. Mas, para a próxima vida, uma dica: não brinca com cobras. Elas estão mais perto de você do que você pensa. – Passou a mão nos cabelos, estendeu os dedos abertos num sorriso: – um real.

Um real? O que era mesmo um real?
Espera aí, vou buscar lá dentro…
Entrou no rancho, sua sala vermelha, tecidos nas paredes, espelhos nos quatro cantos, atrás de um deles seu dinheiro. Voltou-se para a porta.
A menina tinha ido embora.

Buzinas, máquinas registradoras, motosserras, rotativas, relógios, furadeiras, motores, jatos, liquidificadores, cadeiras de dentistas, hélices, engrenagens, sirenes de navios… Pegou o relho e começou a castigar-se, uma pancada por sobre o ombro direito, uma pancada sobre o ombro esquerdo, até desmaiar de cansaço e uma chuva imóvel espalhar seu sangue sobre a terra.

22

MARTE APROXIMA-SE DA TERRA
das agências internacionais

Quem tem olhado para o céu noturno com certeza já reparou em Marte e sua cor alaranjada: até finais de setembro, será o objeto mais brilhante no céu, a seguir a Lua. Este aumento de brilho deve-se à aproximação da “oposição” de Marte, que ocorrerá amanhã – dia 27 de agosto de 2003.

A Terra desloca-se a 20 km/s à medida que percorre o seu circuito anual à volta do Sol. Marte, mais longe do Sol e com menor atração gravitacional por este, gira em torno da estrela a uma velocidade 20% menor do que a da Terra. Assim, a cada 780 dias [cerca de dois anos e dois meses], a Terra, que seguia no encalço de Marte, alcança o planeta vermelho; depois, ultrapassa-o, e segue à sua frente, distanciando-se progressivamente. A maior aproximação entre os dois planetas se dá quando o Sol, a Terra e Marte estão, por esta ordem, alinhados. Ou seja: visto da Terra, Marte está exatamente na direção oposta ao Sol. Nesta situação, diz-se que Marte está em oposição.

Em média, o raio da órbita da Terra é de 150 milhões de quilômetros, enquanto que o de Marte é 1,52 vezes maior. Numa oposição típica, Marte aproxima-se da Terra em 52% da distância Terra–Sol. Contudo, as órbitas da Terra e de Marte são elípticas; os planos destas órbitas não estão exatamente alinhados: assim, nenhuma oposição de Marte aproxima os dois planetas de forma igual.

A próxima oposição de Marte ocorrerá às 7h51 de 27 de agosto de 2003. Desta vez, Marte irá se encontrar a apenas 55,76 milhões de quilômetros da Terra [37% da distância Terra–Sol]. Esta é a maior aproximação desde o ano 57 537 a.C. – só será superada a 28 de agosto de 2287 d.C.

Quando Marte se encontra em oposição, seu disco aparente é maior. Nesta oposição que se avizinha, o diâmetro aparente do planeta – batizado com o nome do deus romano da guerra – será de 25,1 segundos de arco. Marte, com seu belo tom alaranjado, já se apresenta excepcionalmente brilhante. Tanto na semana anterior, como na semana posterior a 27 de agosto, seu brilho é quase igual a seu brilho máximo [magnitude –2,9]. Depois, o planeta vermelho irá diminuindo sua cintilação à medida em que a Terra se afasta dele.

Com um diâmetro de cerca de metade do da Terra, mesmo em oposição Marte é alvo difícil para ser observado em detalhe. Porém, contando com boas condições atmosféricas terrestres – e marcianas –, um bom telescópio de 70 mm deverá permitir a observação de alguns pormenores de sua superfície: as calotes polares; regiões escuras, que são áreas de rocha ou de poeira escura; e zonas amareladas, cobertas por poeira fina, as áreas de deserto.

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Após contornarem a casa-sede, ele e a menina foram andando por uma vegetação rasteira e líquida, o barro pegando. Daí passaram pela primeira ponte sobre o rio, curta como uma vírgula, e atravessada por algumas nuvens de borboletas amarelas. Poucas pessoas a cavalo surgiam a cada dez minutos, e depois de uma hora, mais ninguém. Um pasto de ovelhas, os bichos pareciam de pedra preta.

Plantações de rochas circulares –ali moravam lagartos e marimbondos. Longos bosques de árvores cujo fruto ele jamais haveria de provar, muitos sabores para uma só vida. Árvores gigantescas, sumarentas e suadas, de que ele não sabia o nome. Apeou do cavalo, ele ficou solto – a mão da menina loira firme na dele, o vento lhe grudava o suor no corpo, a calcinha, os mamilos formigas quietas. Então, após a vigésima porteira, troncos e folhas foram se avassalando de tudo, só persistindo uma ligeira trilha marrom envolta em raízes e cipós, as árvores crescendo assustadoras, o sol cada vez mais tímido, um frio humoso lambia a pele, a menina suava na mão, as linhas se comunicando em línguas invisíveis.

Virando uma curva no desfiladeiro, logo após um campo de trigo, outra trilha, tanto menor, surgiu entre duas árvores.

A menina puxou-o para ali, um caminho em que as copas das árvores estavam quase ligadas.

Pirambeiras, e, súbita, uma clareira: muitas pessoas, uma roda, alguém no centro, roupas brancas, seis homens de um lado, seis mulheres de outro, movimentos binários. O rio, sempre ele, de novo corria perto, manso, contornava, com uma curva suave, aquele lugar santo. Ele e a menina tomaram seus lugares. Uma monótona canção era entoada. E a cerimônia teve início.

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Puta situação. Permaneciam já há duas horas presos num trânsito da avenida dos Bandeirantes, se arrastando como toletes de merda para o Itaim, todos fudidos da vida dentro do carro, maldormidos, bafentos – ereções impávidas sob as calças sociais. Henrique sentia tremores, segurando o jornal que tinha comprado há pouco, que exaltava o fato de Marte estar próximo da Terra. Grande merda.

Bem que o doutor o alertara, não estava bem, tinha que praticar esporte, parar com essa maldita cheiração, vida saudável estava na moda agora, porra, não estamos mais nos anos 80, tipo, contratar um personal trainer. Meia hora depois, mais perto de sua produtora que de seu apartamento, como já eram nove e meia preferiu seguir direto pro trabalho, se alguém estranhasse seu estado fosse reclamar com a concorrência.

Vou saltar aqui, por favor, ele pediu ao motorista da van. Valeu, galera.

Ninguém respondeu.

A loira Silvia tinha colocado um cartão no bolso de sua camisa branca, toda amarfanhada.

Se cuida, honey…
Você também. E vê se não acredita nos jornais, idiota, rebateu ela.
Como acreditar em qualquer coisa, se qualquer coisa em que acreditasse poderia tomar forma? Parou num orelhão, ligou para a casa da ex-mulher.
Ele está na escola.
Sabe se ele dormiu bem?
Ele chorou um pouco antes de dormir, disse que quis falar com você, mas você não atendia o telefone.
Meu celular caiu no mar… lamentou-se Henrique.
É mesmo? E por que você não foi junto?
A ex desligou na cara dele.

Olhou para o outro lado da avenida. Não queria saber se o mendigo estava ali ou não. Não queria saber dele. Não agora. Deu a volta por trás do cemitério.

Na produtora, Liliane estava preocupada, o sotaque carioca cada vez mais no grau.
Nossa, como você está nojento, Rico. Tu tá fedendo a putaria forte, sabia?
Olha a boca, Li… Você ainda é minha funcionária.
Por isso mesmo. Alguém tem que te dar um toque. Olha, tou preocupada. Se a gente perder essa conta agora, vai ter que dar uma bela enxugada nos gastos pro segundo semestre. A coisa não anda tão boa assim.
Olha, você diz ao pessoal que hoje eu não vou trabalhar… Estou péssimo, à beira de um ataque nervoso. Vou ao médico… mas não diz isso pra ninguém.
Vai sim. Eu vou ligar para o Peixoto e dizer isso…
Não diga nada. E… Li…
O quê?
Como a gente escapa de um pesadelo?
A gente acorda.
E quando a gente não consegue acordar?
Bom, sempre tem alguém que balança a gente.
E se a gente dorme sozinho?
Aí o negócio é apelar pro anjo da guarda.
Não acredito em anjo da guarda…
Em que você acredita?
Nos meus 20 leões em Cannes.
Então por que não dorme com eles, caralho?
Saiu da produtora e deu a volta pelo quarteirão de trás. Não queria ver o mendigo. Pegou um táxi, subiu até seu flat, ficou olhando para o cartão de Silvia, só seu nome de guerra e seu celular, se enfiou sob os edredons, dormiu.

25

Ele pegou o copo e bebeu. Gosto ruim – de antes das coisas terem gosto.

26

Fosfóreas – as pranchas à luz da lua crescente. Se espatifavam nas pedras da pequena baía, logo na entrada da praia. Às vezes, eles gritam!, contou o filho, naquela vez que fora para sua casa de Itamambuca. Ouvindo essas histórias do filho, às vezes, Rico queria se transformar em um playmobil de madeira que ardesse em fogo, Judas em sábado de plástica aleluia, enxugava as lágrimas nos cabelos do menino. Neste nosso deserto, filho, não há mais gafanhotos para os santos fritarem seus sermões, pensou Rico, no escuro do quarto, na crônica insônia das 3 às 6 da manhã, quando, já era um hábito, pressentiria seu próximo sonho – nunca tinha se sentido tão possuído pela imaginação, como se tivesse uma namorada o espiando de dentro, longas pernas feitas de olhos brancos puxando-o para dentro.

27

Eles cancelaram a produção. E também cancelaram a conta, chiou Liliane. Tirando discretamente um teco de pó que tinha ficado perto da narina esquerda, e coçando sua cicatriz sob o olho, o tique, Henrique falou:
Honey, pede praquele boy novo me trazer uma cerveja. Preta.

28

Desse dia em diante resolveu não cortar mais a unha do dedo mindinho. Não cortaria mais os cabelos, também. Deixaria que uma nova barba ruiva invadisse suas caras crispadas. Uma nova vaidade? Gritava contra a Via Láctea: como me esquecer? Como agarrar a lógica pelo rabo, quando desprevenida? Hoje andaria sobre os carvões ferventes do princípio da noite, enquanto a fogueira estivesse se agitando ainda. Ficaria sem comer por uma semana. Que delícia cansar-se, palmilhar pelo vale, catar suas entranhas, ser por ele entranhado, deglutido, vomitado.

Bom dia – disse a menina loira, de novo. Ele havia dormido encostado numa árvore, na mata, a camisa lanhada e endurecida de sangue. – Você não quer ir à missa com a gente?
Missa? Eu não sou católico.
Tudo bem. Ninguém é católico lá. A gente dança e canta, toma o chá e vê o mundo.
O chá?
É. Vamos? Estendeu os dedinhos, longos, ectoplásmicos.

Ele montou no cavalo, que ela levava por um leve cabresto. De cima, sob o vestido branco da menina, ele podia ver seus mamilos, brancos. Ela toda era branca, cabelos, pele, olhos, os pés umas gotas, lírio de lodo.

29

Sangue em seu pau, quando ele arrancou do cu de Silvia, os cabelos loiros grudados nas costas, seu corpo fundo na cama – o vermelho do sangue, o bege dourado da bosta. Ele havia se enterrado ali – quanto tempo? E a luz do sol batendo nas costas loiras afundadas na cama, cortada em barras, pela luz que entrava nas frinchas da veneziana – virou aquelas bundas redondas, perfeitas, socou forte nos peitos grandes sua porra, rápidas chicotadas. A cabeça rodava – saiu rápido de cima dela, correu para o banheiro e vomitou, um longo tempo, até a garganta quase se fechar. Convulso, corpo todo tomado por olhos que caminhavam arquejantes, não sabendo em que corpo mais morava, punha o melado pau na pia, lavá-lo, o caralho sangrava ainda, porra, puta dor, lamentou, parece que rasgou o freio.

Você tá legal?, perguntou ela, lá da cama.

Ele olhou para a loira, um piercing rutilando no umbigo, no escuro. Pensou em falar algo; entanto, não queria escutar o som da própria voz – não queria saber que voz sairia. Pegou sua câmera digital, devassar aquele corpo era muito difícil, havia muitas e muitas camadas, impossível descobrir o que havia nessa loira após o advento do Photoshop. Largou a câmera cair no tapete. Jogou-se na cama, enfiou fundo os olhos pretos nos olhos amendoados de Silvia, procurou neles o espírito do Deus Zero, sorriu – boa noite, honey –, desmaiou.

30

Contaram a ele que haviam comprado toda a montanha, de cima a baixo. Somente 50 famílias. Moravam ali há uns 20 anos, detinham toda a posse do vale. Era uma perfeta comunidade autocentrada, com leis próprias, tradições do tempo em que escutavam Pink Floyd na cidade – agora trabalhavam a sua terra, faziam as suas roupas, comiam sua comida. E ainda eram conectados com a internet, assistiam tv, os cabos corriam por debaixo da terra, nunca em postes, todas as casas voltadas para o nascente, a quinhentos metros de altura, tendo no fundo do vale, à direita, a descida da cachoeira da Fumaça. E a voz do homem se espiralava como o som bovino de seus olhos tristes, estamos aqui há muito tempo, conhecemos a vida dessas raízes, a merda de nossos animais, a linguagem dos seres sem tamanho. Por que você não vem morar conosco?

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Pelo novo celular, conferiu a conta bancária, movimentou alguns investimentos, e pediu uma puta e uma pizza, para dali a duas horas, quando chegasse na penthouse. Por enquanto, jogou pó em cima do retrato do filho mesmo, contornou o rosto do menino com cocaína, cheirou, colocou um CD de Charles Mingus, buscou a “Untitled original composition take 5”, acendeu um cigarro, catou no frigobar outra cerveja preta. Assim fica difícil abandonar a vida moderna, distraía-se Rico, o dedo médio enfiado no cano da sua .765, entrando e saindo.

32

Como se ele fosse uma serpente ruminando um boi, como se fosse o boi, a língua do boi, o verme na língua, o verme e o veneno enchendo-o de enfileirados olhos em todas as camadas das tripas, num cansaço tenso como morrer, abandonar-se a nenhum nervo, sugando um seu tutano, o corpo vibrando no ventre de um avião, de um estrebuchante porco. A menina loira estava além da outra margem do rio Matutu. Sorria para ele, simples paisagem lunar contra as leitosas águas do meio-dia. Ela virou-se mais para dentro do rio, nos ermos da mata, as pernas desaparecendo no leite, e o vestido branco, molhado, tinha subido um pouco, ele pressentia ali um quarto de lua surgir prateado a prenunciar seu abismo. Deu alguns passos e cravou os dentes nesta paisagem.

33

Hoje estacionaria mais longe. Em vez dos cinco quarteirões, dez. Andar. Voltar ao normal, porra. Passou em frente à Paraíso das Delícias, entrou, pediu café, suco de laranja, croissant de queijo, na TV um desenho animado, um tiozinho tomava a terceira talagada do dia, agora mandando ver com um pururuca e o caderno esportivo. O homem pode ser deus, mas se preocupa em amarrar os sapatos – cogitou Rico, as mãos tremendo a xícara. Hoje tomaria a decisão. Antes, ir ao urologista ver esse caralho desse pau inchado. De tarde, comunicar a venda da produtora. Entregar o negócio a algum amigo – se é que tinha sobrado algum. Pagou, acendeu um cigarro, saiu. O sol, forte. Pedir Liliane em casamento. Daria leite a seus gatos, fumaria seu fuminho, e quem sabe a levaria junto com o filho na próxima viagem a Itamambuca, e ainda fizesse ver a ele que fantasmas não existem – só há a espada de Marte sobre nossas cabeças. O suor lhe caía em cascatas nas pálpebras.

O mendigo, um buda rastafari, observava um centímetro acima da cerca de arame farpado que vedava a entrada de pessoas não autorizadas naquele cemitério, do outro lado da avenida.
Um centímetro acima. Viu o mendigo, até com certa alegria aproximou-se dele, fazia tempo que não o encontrava – se o mendigo colocasse seus olhos vagos nele, talvez até lhe desse uma grana, de repente.

O que ele olhava?

Para atravessar a avenida, teria de circundá-lo, exatamente à sua frente; somente assim captaria o olhar do rei da calçada: e foi andando mais devagar, um olho no trânsito outro no mendigo, de leve pisando, para não atrapalhar seu vôo sedimentado, uma gentileza, talvez, caminhando de lado, caranguejeiro, o suor nas pálpebras, o sol vindo junto com os pára-brisas dos automóveis que se aproximavam, o metal das carcaças pulsando e derretendo e respirando e suando sob o calor, em pálidas explosões lentas, não como num filme, mas como na vida real acontece, os olhos do outro finalmente se cruzando com o dele – os olhos brilhantes de um Pajero preto arremetendo sobre seu corpo, o ferro quente de três diamantes tatuando o peito.

34

Quando você voltar da outra vida, vem me buscar – pediu ele à menina loira, sob o luar, enquanto acariciava seu pescoço, logo sob as mínimas orelhas, os polegares massageando, pressionando.
Eu não te contei? – riu ela, se espreguiçando na relva úmida, beira do rio, olhos acesos por mil partículas.
O quê? – ele vinha, e os olhos da menina cresciam.
Nós – ela dizia, acariciando os cabelos toscos que nasciam em seu crânio –, nós já estamos mortos.

35

O mendigo mergulhou no mar de metal, Moisés de terreno baldio – outros carros se engavetaram atrás do Pajero – e, respirando forte, chegou até ele, caído no meio da avenida: em sossegado espanto, a testa toda cortada, filetes de sangue escapando das orelhas e do nariz. Ajoelhou-se, estendeu a mão para a cabeça lisa de Henrique, uma carícia. Eu tentei te avisar, soprou o mendigo, limpando o suor da cicatriz sob o olho, uma lua crescente. Seus olhos olhavam só para ele, e depois não viu mais nada.

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Matutu [MG]–Vila Madalena [SP], primavera, 2001-2003.

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