Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

Jornal do caos

Já não sou mais aquele
e ainda não sou outro
Millôr Fernandes

[Lua]
O orelhão da esquina tocou às 4h48, a hora dos suicidas. Um toque só, e parou. Daí que abri meu bloco de notas e comecei a escrever isto – tentar um jornalismo do caos: a notícia, pão de cada dia, sem senso de o que, quem, quando, onde, como e porquê – e, ainda assim, as luzes do meu loft vão ficar sempre acesas, sala, mezanino, cozinha, wc, varanda. Sem acessar os eventos externos, as notícias do mundo me serão, e só porque eu quero, traficadas – isto é, me impedi de saber o que acontece, ou melhor: editei eu mesmo meu caos particular [não será deus o grande editor?]. Pra isso, desliguei o celular, cortei a linha telefônica, o interfone, a internet, a tv a cabo, a empregada, a assinatura do jornal, das revistas semanais, das mensais, das importadas, e no fim paguei pra o porteiro jogar no lixo toda a correspondência – a não ser um único envelope diário, onde tem um clipping elaborado por cinco infotraficantes de confiança.

Porque esse vício me cobrava muito alto. Juros sobre juros. É. Hoje, às nove da manhã, enquanto presenciava, por uma fresta nas venezianas, o sol flutuar entre as antenas da avenida Paulista, pensando no que inventar pra cobrir o rombo no cheque especial e nos cartões de crédito – usava o cartão C para pagar o B etc –, senti que minha ração cotidiana de jornal já se atrasava em uma hora. E salivei. No som da sala, Nico chamava as festas de amanhã. Desmaiei. E até agora não senti que precisasse tomar um banho. Sendo que, pela presente, firma-se que comecei este diário às três da tarde. Organizado. Tudo bem – agora pouco, considerei que havia falado de mim demais até, e rasguei umas páginas. Acho que hoje é segunda. Mas pelos sons que vêm da janela parece ser qualquer dia da semana, todo dia é igual nessa maldita cidade encaixotada, caixotes, caixotes, de caixotes de azulejo vagabundo emusguecido fuliginoso frágil é SP… ah, que morra toda, porra.

Daqui por diante, enquanto não parar de tremer, vou dormir com todas as luzes acesas.

Tomando uma pepsi à frente de minhas venezianas, posso ver também uma padaria francesa… Do lado oposto da rua, numa casa térrea marrom-merda, prensada entre prédios de vinte andares, moram um velho, uma velha. Não sei se são irmãos, se ele é pai dela, se ela é amante dele, se algum dia foram casados – o fato é que, pelo modo como saem metódicos depois do almoço pra sacar o movimento dos bares na rua, sem dizer lhufas um ao outro, irmanados aparentemente no poodletoy branco que acariciam no pescoço vez em quando, parecem isolados ali para sempre… Será que ainda se preocupam com a última declaração do presidente, o mais recente escândalo sexual do jogador de futebol ou o decote no vestido da modelo que abalou a festa do Jóquei Clube?

Na dúvida, portanto, caso seja irreversível minha síndrome, criei essa saída de emergência. Instruí cinco figuras a me tratarem com mínimas porções da droga. Elas foram pagas pra recortar 5 notícias ao acaso e me passar todos os dias por debaixo da porta – a idéia é que eu resista a abri-los ao máximo; se conseguir, é a cura. Não foi tão difícil encontrar cinco infotraficantes – todos analfabetos: pouco tempo atrás tinha entrevistado umas empregadas domésticas pra limpar o loft em que rabisco estas [em que rabisco estas palavras só pra afirmar que, é, impresso, eu existo. Vamos ver se este tratamento dá certo… Vai ser foda. Uma leve convulsão, logo depois de almoçar biscoitos – agora sem ver tv – me abriu o supercílio direito, naquela cabeçada nos pedais do piano].

[Marte]
Desesperadamente na festa em que estive – em que estive agora pouco já nem me lembro o por quê, talvez uma vernissage talvez o lançamento de um livro –, desesperado porque vinham falar comigo e eu não lembrava seus nomes, desesperado porque achava que todos reprovavam o jeito como segurava o cigarro ou bebia rápido demais o vinho, desesperado porque sentia de novo aqueles calafrios nos braços, desesperado porque odiava aquela muzak prozac em jamsession de branco metido a negão com muito saxofone e muito yeah, desesperado abordei uma patricinha falsa loura, que sabia ser filha da dona de uma loja fodona em SP, mandando alguma babaquice sobre os arabescos da barra de sua saia… nossa, que maravilha, me lembram um documentário que vi sobre a invasão dos mouros na Espanha, ah, você gosta do Paco de Lucia? E de Paco de Lucia emendamos para que delícia é passear pelo bairro gótico de Barcelona e as touradas e Gaudí e o último filme do Almodóvar que eu não tinha visto, como é que não tinha assistido o último filme de Gaudí, digo, de Paco Rabanne, mesmo assim, para impressioná-la, resgatei dos escombros da memória aquele poema do Hemingway sobre Ademir da Guia e os toureiros de Madri, mas o primeiro verso não me vinha, não me vinha, aquele vinho morno minha garganta regurgitava para a língua me fazendo esbugalhar os olhos catalãos, parara-tchim-bum-bum-bum, ela se assustou, riu, interessada, já, educadamente tentou contornar minha falta de destreza poético-cinematográfica qual seja minha charmosa incultura de ocasião e veio com uma historinha de almoço na casa da mãe em seguida me chamando a atenção pra um velho e uma velha que com tal langor degustavam coxinhas rançosas… você que é jornalista, olha que pauta, tá vendo aqueles dois ali, eles estão em quase todos os lançamentos de livros, vernissages e eventos culturais de São Paulo, um amigo me disse que são velhinhos pobres que caçam eventos pela cidade pra satisfazer sua fome cultural, repare como eles são humildes mas limpinhos, o paletó puído do senhor e o vestido costurado da senhora; esse meu amigo diz que sua postura de pseudointelectuais denuncia eles serem mais uns coitados que se fingem de personagens da intelligentzia paulistana, mas eu discordo, tenho pra mim que eles vêm nessas vernissages mesmo é atrás de canapés e tacinhas de vinho branco fajuto – nisso irrompeu de meu estômago em borbulhas de Pollock no vestido mourisco da moça um vomitão, wwwaaaaaarrrrrhhggg: oh meu deus desculpe desculpe desculpe, eu limpo você, eu te limpo, ai que nojo, putz, desculpe, por favor, ei, cadê os velhinhos, os velhinhos foram embora, qual seu nome mesmo, ai, desculpa, sou uma grossa, uma egoísta, você tá melhor? tou, tá tudo bem, Maria Fernanda, Zed Stein, tchau, tchau, vamos marcar, vamos sim, me manda um e-mail, olha, pega meu cartão, até mais, qualquer coisa eu tô no celular.

As vozes outra vez na minha cabeça me locutando flashes de notícias sobre homicídios Oscar Nobel gols maracutaias desastres de trem na Índia DJs do momento crises cambiais conjugais no trono inglês, tantas coisas que eu precisava saber e passar pra diante… gelado, suando, a taquicardia ressoando pras mãos em 190 bpm, a língua uma lixa, o bucho feito um tatu-bolinha e o pau virado num pastel murcho, senti que devia me cuidar, me recolher ao meu loft meu mundo meu tesouro e conseguir pagar a conta no restaurante com cheque sem fundo já que o cartão de crédito bloqueado e responder afinal pro manobrista que não tenho carro, caralho, tou parado aqui espiando o movimento, posso, porra? Saí andando, vesgo pros sinais de trânsito – achava que vermelho estava aberto e verde fechado, quase fui atropelado –, vislumbrei ao longe os tais pobres velhinhos, prosseguindo lenta e cultamente pelas ruas da Vila Madalena, hieráticos, como se indo à ópera só ao avistarem uma lata de lixo. Ir atrás deles me deu motivação pra sair do sonambulismo, ah, o bom repórter nunca morre.

Não eram tão pobres. Nem muito originais… Moravam na rua Original, justamente naquela casinha minúscula cercada por edifícios residenciais de vinte andares – semelhando banheiros em sua estética azulejo-pós-neoclássico –, sua casinha térrea sem jardim nem quintal que eu via todos os dias. E, engraçado, sem antena de tv [os tais velhinhos malignamente ilhados sob uma tempestade de white noise, ah que saudade de um poltergeist, estou bodeado de ser unheimlich de mim mesmo, quero meu alter ego de volta, nunca mais vou pra nenhuma festa que não seja o Galo da Madrugada].

[Mercúrio]
Qualquer tipo de abstinência fode os miolos, pensei, esguelhando o terceiro envelope largado na minha mesa marroquina. E todos os cretinos – vocês, que zoam dos viciados, e mesmo vocês aí, que até acham que fogem das drogas e não conseguem, os idiotas assépticos que se crêem legais e ajustados, os imbecis superiores senhores do método e da bacaneza fissurados em talkshows e pick-ups e sitcoms e resultados do futebol e modelos de celulares e cartões de afinidade em alguma puta igreja embalados em gravatas e anáguas de cor certa e música adequada, vocês, os que repudiam nos junkies um caráter fraco –, que tentem só uma vez se imaginar sem nome, sem amor, sem país, sem a tal grana, sem nem perspectiva de ressurreição ou fogo eterno: imaginem mortos não só seus nomes como a lembrança desses nomes pra outros, amigos, parentes, amores, que, claro, já devem estar também mortos, mortos, mortos – só que, ao mesmo tempo em que têm esta sensação desmaiando suas hemácias a cada segundo, vocês ainda vivem e gritam, mas desejam por todos os demônios que estivessem comendo grama pela raiz. Esta é a sensação de nostalgia de um desejo que não se preenche nunca – e essa saudade é ela mesma seu prazer.

Hoje, de manhã, pra parar de tremer, me obriguei a um lexotan e um lorax… tá, mandei também uma cibalena. Antes dessa licença médica, alguns colegas jornalistas, ao saber de minha decisão de ficar sozinho por uma semana, me sugeriram um tempo nas montanhas – ganhei uma dica dum lugar cult no sul mineiro, o vale do Matutu, e outra de um bacanésimo retiro tibetano em Itu… Ora vão tomar no cu.

Os gente-boa da hora soltaram que até seria interessante tomar sol em Jericoacoara… Uma amiga me convidou pra uma rave que prometia ser ultramegahiperhypada, em Maresias… Puta que pariu, merda!, não entendem, não estou viciado em nenhuma droga em particular: estou viciado é na idéia do vício; eu preciso saber, não tem como driblar dessa curiosidade que me alimenta e me concebe. Pior que isso, percebi que não sou o único: todos estão viciados nisto; meu único problema é que só eu estou – penso que – informado de que vício é este: se eu cobrisse minhas retinas com navalhas, testemunharia afinal tudo em branco, inferno particular, exclusivo universo, o grito do momento, a última estação? Quando todas as certezas se forem, o que restará deste enviado ao Hades light – uma legenda, uma manchete, um crédito, um boa-noite, um comprimido, um pôr-do-sol, uma receita de bolo, um pentelho entredentes, olhos revirados pra dentro na caça dum desejo sem nome adquirido em doze vezes sem juros? As sirenes da polícia girando ainda por todos os meus labirintos, busco meu pai Pac-Man… é, comi todas as pílulas graais de realidade que me foram ofertadas por estranhos – ao contrário do que mamãe me aconselhava –, um estágio cada vez mais rápido que o outro, labirinto labirinto labirinto, rápida solene deliciosa do dedo médio ao pescoço progressiva a tendinite fustigando 24 horas por dia montada no joystick fuçando o último degrau do jogo, a fuga, olhos em esbugalho num sistema de tiques anfetaminados em que me tornei, eu, o maior parque de diversões de mim mesmo, este esqueleto dançando drum’n’bass titerado por uma fome de consciência fora de controle [fora de controle. Como foi mesmo o sonho?

Tentava tocar no piano da sala uma música nunca antes ouvida – como quem embala no berço um fantasma –: uma música de cabaré. O gigolô. Tinha um gigolô em meu sonho. Eu tocava piano num puteiro e observava uma puta que cantava, pensando em que música tocar pra comer ela de graça. O gigolô espancava a prostituta e lhe tatuava no princípio do rego, na brasa de cigarro, o número 666.

Ele me bateu de novo… gemia a prostituta sem nome, pouco antes de me submergir, a ele, o outro eu, entre todas as línguas de sua língua… o supremo tabu quebrado. Eu sonhava como quem vai a um set de filmagem, dirigindo as cenas em que eu mesmo atuava. Ele, digo, eu, me bateu, ela, digo, eu, grogolava. De fora de mim eu nos via, e nosso rosto não era o meu – era um mix de Kurt Cobain com Samuel Beckett. De modo que matei ele, não a mim, mas ao gigolô – que, no fim das contas, era eu mesmo – com minha chave de fenda, a fenda em seu pescoço se abrindo desgarrando cardumes de linotipos: substância mais nojenta que água benta quente… Corri a noite toda, os músculos das pernas embrutecidos, não poderia voltar para minha casa, eu deveria estar atrás de mim, a chave de fenda no bolso provando o delito, não sou dos que deixam a arma do crime no local do crime, embora, no sonho, não soubesse muito bem onde é que tinha matado o gigolô, e já nem me lembrasse mais da prostituta: exaurido de cansaço e angústia, entrei na redação do jornal, onde todos meus colegas me esperavam consternados, apontando-me a manchete da página Cotidiano –

JORNALISTA MATA GIGOLÔ POR AMOR A DOSTOIÉVSKI

. Tristes, todos vêm me cumprimentar – você conseguiu, mudou de editoria, pulou do caderno de cultura para as páginas policiais, é uma pena, gemeu a estagiária lambisgóia que eu intencionava lamber, mas pense bem, veio o subeditor, amistoso, você agora vai ter muito tempo para escrever suas memórias do cárcere, quando o diretor de redação chegou com uma piadinha infame, nunca pensei que fosse perder você para a concorrência, olha, é melhor você se apressar, a polícia está logo aí… O que era verdade, as sirenes não mentiam, as sirenes nunca mentem – as sirenes que me despertaram, por exemplo, eram de carros de bombeiro que haviam chegado no meu prédio para investigar um princípio de incêndio que despontava no apartamento 161. Eu moro no 171. Literalmente].

Não chegou a ser incêndio, mas durou umas duas horas a operação. O sujeito que mora embaixo de mim, um velho advogado alcoólatra, dormiu fumando e o cigarro caiu no lençol. Foi levado pro PS com queimaduras de segundo grau, me disse o porteiro [não agüentei e desci pra ter acesso à notícia in loco, não me perdoaria ser furado debaixo do nariz]. Aí lembrei da Clarice Lispector e me deu um puta cagaço, medo de de repente perder meu belo salário de repórter especial e acabar louco e legendeiro de revista de fofoca como ela, e não dormir nunca mais… é, devia ser mais uma armação contra mim.

Logo após saber todos os detalhes idiotas do incêndio, subi – tem uma câmera no elevador, é, eu sei – e resolvi estourar vários sacos de pipocas; misturei com a ração pros iguanas, abri outra pepsi 2 litros, despejei meio valium, trouxe tudo pro mezanino, acendi as luzes e cá estou, debaixo da cama, segurando este diário contra o peito. Pânico do fantasma mongol da voz de Clarice vir me puxar os pés.

E se meus sonhos fossem reportagens?

Observando minhas veias saltarem desembestadas sob a epiderme, noto que minha pele é tão fina quanto papel: pra quem deixar este diário? Pra quem escrevo? Pra mim mesmo, daqui a uns anos, olhar pra trás e descobrir o quanto sou ridículo? Pra que, afinal, as pessoas escrevem diários, que não seja pra moto-perpetuamente alimentar sua sede por más notícias? Por favor, será que alguém consegue desligar da minha cabeça o narrador off?

[Júpiter]
 Desde cedo, resolvi também não sair hoje. Meus braços doíam pra caralho, principalmente o esquerdo, de tanto escrever. E rasgar. Empilhei o quarto envelope de notícias sem o abrir – gravidade, órbita, força de vontade, seus débeis mentais –, acendi um back, enfiei um frontal pela goela, espiei por detrás da veneziana e saquei, do outro lado da janela do prédio oposto ao meu, dois caras observando atentos meu loft. Tinha reparado pela manhã, ao voltar da padaria, que os caras conversavam com os vigias do meu prédio, alguns dias antes. Conversavam também com o taxista que eu costumava pegar.

Estariam me vigiando? Cerro as cortinas, brusco. Sempre há repórteres investigando fatos. Alguma relação com o incêndio? Serão do jornal em que trabalho? Da festa em que fui outra noite? Volto às venezianas: os espiões deram o pinote. Terão existido?

[Pare. Não leia mais nada. Esqueça as palavras. Não interprete mais nada. Feche este diário. Por favor.]

DA REPORTAGEM LOCAL – O Agente Especial, 25, paulistano, esperou até ficar muito tarde. Às duas da manhã, foi à rua Original armado de uma chave de fenda e de uma faca de cozinha. O casal estava na cama. O Agente Especial cravou a chave de fenda no coração de F. S, 79, e estuprou I.R.S., 60, enquanto lhe apontava a faca. Chegou ao orgasmo cerca de quinze minutos depois. Durante o ato, F.G.I. ao lado “ainda sangrava”, segundo o Agente contou a este jornal.

Ele cortou fora a cabeça de I.R.S., e da garganta “da mulher escapou um cavalo alado”, relatou.

Enquanto vagava, “obtuso”, pela pequena casa, o Agente descobriu um porão onde haveria um presépio dentro de uma estufa – um porco, uma vaca, um boi. Num carrinho de supermercado, um poodletoy branco. Achou melhor ir embora: “afinal, em breve chegariam os reis magos”, disse. Então, correu de volta para casa, as mãos ensangüentadas, com medo de ser encontrado por uma viatura policial.

BATISMO – São três da manhã e o Agente Especial ainda não consegue apagar as luzes de seu apartamento: “talvez, as apague amanhã”, diz. Toma um comprimido de zoloft, pega a ração para os iguanas e a come, enquanto observa seus animais cada vez mais magros no aquário. “Preciso levá-los amanhã à igreja”, declara, em voz alta. “Não posso mantê-los pagãos, devo batizá-los logo”, afirma.

[Vênus]
O dia azul… pensei em pão com manteiga. Mas a chuva caiu de repente, eu vi as pessoas lá embaixo se morcegando, pequenininhas, um soluço… Choveu o dia inteiro. Outra vez não saí de casa. Me lembro às vezes – flashbacks ou déjàvus – da emoção que tive a primeira vez que vi uma manchete. Era minha irmã, me acordando aos berros na casa de nossos tios: –

NOSSA CASA PEGOU FOGO, NOSSOS PAIS MORRERAM

. Eu voltei de dentro dos meus sonhos pra cima da cama mijada como Prometeu que roubava o fogo: na sua histeria de fofoqueira de aldeia saqueada, minha irmã me dava minha primeira noção de um fato absoluto. Um fato nada mais é que uma ação que muda irremediavelmente o futuro – aí, de vez o mundo dos não-fatos se perdeu de mim, e portanto, a causalidade dominaria todo o meu tempo, não haveria mais saída de emergência para o dois mais dois. De dentro dos meus sonhos, me foi comunicado que meu mundo de sonhos desconexos havia terminado… Dali para a frente, meu cotidiano sucumbiria à voragem dos acontecimentos com causa e efeito e lugar e época e personagens e um sentimento de irrestrita verdade [verdade: meus pais sempre me falavam que preferiam, a serem sepultados, o crematório da Vila Alpina, então tudo bem, beleza.]

Tenho parado de acreditar nisso a cada manhã que vejo o casal de velhos na casa em frente à padaria francesa alimentar os pombos da rua. Eles deveriam me ensinar alguma coisa – ah, mais uma, eu, esse infatigável viciado em aprender e esquecer. Tive uma pequena alegria – me dei conta de que era sexta-feira –, e resolvi dar uma festa, pra qual não convidei ninguém, exceto o motoboy, que saiu do elevador com a roupa toda molhada e uma pizza de rúcula e mussarela de búfala e tomate seco e um guaraná; mas ele não disse que não podia me acompanhar, daí comi a pizza enquanto lia as palavras impressas no disco de papelão delivery como quem solfeja um mantra tibetano. Ainda não consigo dormir com as luzes apagadas.

À tarde, pela primeira vez desde que me formei em jornalismo, há quinze anos, consegui escrever uns versos… Lendo o poema agora, não tenho total certeza de tê-lo escrito eu mesmo ou um outro. Melhor acender mais um, tomar um, deixa ver, dramin, e contar as gotas escorrendo pela janela enquanto o poema de que eu jamais me lembrarei arde no cinzeiro, em chamas [em chamas meu rosto – palor, luzes sombrias – refletido no vidro da janela, oculto do exterior pelas venezianas; janela de onde não virá nenhuma verdade… Não desisto de procurar ser surpreendido por um milagre.]

[Saturno]
Logo que acordei, resolvi traçar aquele ecstasy que tinha guardado pra tal megarave na finalidade de observar a dança de meus esquálidos e nervosos iguanas ao som dos socos em meu piano num samba meio árabe. Porém, licença médica à parte, entre uma melodia e outra me lembrei de que sou só no mundo e preciso pagar meu aluguel e minhas roupas bacanas e que ainda estou no bico do corvo financeiro – preso por estelionato, eu? Deixei no ar meu solo de autodub e fui à luta. Abri as venezianas e as janelas e gritei para a rua: –

SOU UM PROFISSIONAL

. Enquanto tomava banho, sentia a primeira efervescência e me lembrava de novo do que tinha acontecido à velhinha e meu pau subia. Retornava minha mente pras coxas da estagiária de redação, de meias amarelas, trancinhas e peitos transbordantes, mas, como devia fugir o pensamento do trabalho, tentava me lembrar daquela garota no lançamento ou na vernissage, a menina em quem vomitara, e gozei, no chuveiro, me recordando do meu jorro de vinho branco sobre seus seios.

Foi difícil – taquicardia: esse elevador é uma solitária vigiada, não é? Hein? Diz pra mim – mas saí do prédio. Um breve telefonema no orelhão e já temos um dia de negócios. Aquela garota poderia salvar minha vida… O cavalo branco na esquina me conduziu aos Jardins afundado no banco de trás fechando os olhos para não ver outdoors painéis de mídia e cale a boca e desligue a porra desse rádio, estou pagando.

No fim do almoço na casa da tal coroa carioca loira milionária, o lacaio biba de libré me trouxe uma bandeja. Imaginei que tivesse ali dentro uma cabeça, a de São João Batista no mínimo. Imaginei que o mundo é uma. Logo me recordei que minha cabeça está gravemente ferida e retornei à realidade do almoço à beira da piscina. Apocalíptico engano. A biba de libré levantou a bandeja de prata: me oferecia uma pílula. Logo saquei – era um xenical. Um remédio para. Bem, você sabe. Controlar o intestino. Sorri para o lacaio recusando, sussurrando “mais tarde, obrigado, tem algo doce, tipo uma mousse de limão?”.

Maria Luana Guimarães de Albuquerque Lins engoliu seu xenical e prosseguiu em seu carioquês aprendido em novela da Globo a história presenciada ontem à tarde: um ex-senador baiano, “amigo nosso, que perdeu o mandato naquela armação que fizeram contra ele, coitado”, havia visitado sua loja de roupas de prêt-à-porter. Tinha permanecido duas horas sentado numa poltrona especial Luís XIV, de um lado a neta, vendedora da loja, “uma gatinha meio axé, e um lacaio do outro. Vinha uma modelo rebolando, os seios pra cima, o senador olhava fixo, doidão – bolinhas, meu bem –, e, pior, você sabe, ele é broxa. A modelo passava, fazendo a voltinha, ele olhava a bunda da moça. A tar-de in-tei-ra: peitão, bundão, peitão, bundão, peitão, bundão. Um dos homens mais importantes da República passou três horas na minha loja olhando o rabo das minhas meninas – até meu próprio rabo o filho da puta deve ter olhado. Comprou sabe o quê? Um par de sapatos Zegna para ele e um vestidinho Dolce & Gabbana pra xumbreguinha. E ainda parcelou em três vezes no cartão de crédito. Ah, olha, Zed, licença. Vou ali dentro e volto já”.

Será que foi efeito do xenical? Eu olhava o sol se refletindo nas águas da piscina e pressentia a segunda efervescência. Ainda fingindo que não me reconhecia da outra noite – eu idem; etiqueta moderna –, a vomitada filha da perua carioca ensolarava a tez galega. Era morena, pêlos pretos, mas tingia o cabelo de loiro. Havia aberto o biquíni de lado e, mesmo da mesa de onde eu estava, podia ver que tingia também os pelinhos do púbis, por sinal bem aparadinhos, acho que ela curte raspar estilo bigodinho de Hitler. Será que a perua ia ficar muito tempo cagando? Como é que funciona essa porra de remédio? Ela toma um e em quinze minutos, plin plin, já sai um cocozinho?

E aí o que é que ela faz com o cocozinho, será que o embrulha num papel alumínio prateado, faz um lacinho e dá de presente pro marido, tipo um mimo – como as freirinhas do século XVII na Bahia [provavelmente tataratataravós dessa tipinha cagona retrocitada] faziam pra conquistar a coqueteria dos freiráticos, aqueles donos de armazéns em Salvador que, sem comer ninguém, paqueravam as meninas que iam dar um tempo nos conventos depois de aprontarem e ficarem grávidas, entregavam o filho pruns padres viados e ficavam uns dois anos por ali, se chupando umas às outras até que surgisse algum fidalgo de boteco querendo se casar com elas e lhe fizessem a corte com presentes, ao que as freirinhas, mimosas, respondiam com florzinhas, sabonetinhos perfumados, ou, pra sacanear algum desses filhos de porra nenhuma, com bostinhas embaladas em rendinhas –, será que essa perua de merda faz isso pro marido também?

Oooahh. Foco. Foco. Muita calma nessas horas. Vamos desligar a central de informações. Voltar pra piscina, pensei, quando, duma porrada, senti o MDMA reverberar num tuiiimmm, inspirado nos reflexos do sol nas águas azuis da piscina refletidas de novo na pele dourada da menina filha da perua e seus pelinhos alvos, os pelinhos atrás da nuca, os pelinhos sobre o lábio, os pelinhos em volta do umbigo, em volta da xoxotinha, imaginei que até mesmo seu cuzinho se blondeie, a imaginei num instituto de depilação com uma gorda aplicadora negra a tingi-la trigueira na mais profunda bunda e ela gemendo de dor – então, toda vontade que tinha no mundo é de me transformar num gorila e fodê-la como um gorila retardado fode sua mulher gorila; e eis que ela pareceu perceber isso, pois se virou de barriga para baixo me olhando fixa empinando aquela bunda maravilhosa, o biquíni frouxo revelando o início do rego, do rego em que algo está tatuado, um número, parece ser um número, e, sentindo a terceira efervescência invadir minha epiderme, me levantei, pau em riste – quando chegou a tipinha perua, recém-bosteada e devidamente perfumada com talco importado no rabo, insinuando um cafezinho na salinha de dentro. Ou seja, justamente a deixa pra que eu a comesse em seguida, já que afinal de contas era pra isso que o gigolô jornalista aqui tinha vindo… imaginei que aquela tipa podia me descolar umas passagens pro Marrocos, assunto duma reportagem que tenciono vender à revista patrocinada pela loja dessa mesmíssima socialite.

Por isso mesmo, só pra zuar o barraco e só porque aquele tranco do E no esôfago estava me noiando resolvi que esse sábado era um belo dia para comer o cu da madama. E talvez fosse interessante lhe dar uns tapas na cara pra motivar futuras pautas. A bacanuda pegou no meu pau e eu anunciei que estava com um puta tesão na filha dela, um dia ainda vou acabar comendo a menina. Ela riu, “queria ver sua cara se visse a gente fazendo massagem ayurvédica uma na outra”, e me levou pro seu quarto decorado por aquele frango enganador de peruas, tirou o vestido comprado em NY e ficou só de combinação roxa, pra brincar resolveu me mostrar sua prática de vinyasa yoga, o que a fez soltar docemente alguns flatos enquanto plantava bananeira debaixo duma pirâmide púrpura sobre uma espécie de pista de dança ao lado da janela de onde se descortinava uma cascata sobre a piscina, fez um giro na cama – a quarentona é super flexível – e caiu de boca em meu pau com vontade, envolvendo-me com todas as suas línguas de uma maneira que eu cheguei a pensar até em amor verdadeiro… Quando, arrumando o peitinho ainda no biquíni verde, a filha entrou no quarto e proclamou:

“você empresta aquela sua calça da Donna Karan?”

. Sem soltar meu pau, em que me dá uns beijinhos, a coroa falou, mansa: “está no closet, Maria Fernanda, mas é vai e volta, viu?”. Maria Fernanda observou por uns cinco segundos sua mãe me chupando – talvez lembrando de minha golfada em seu colo naquela festa, ou talvez comparando mentalmente sua viperina técnica lingüística com a dela – enquanto pegava a calça, e, antes de sair, mandou um “tchau”.

Tenho que admitir que a coroa mandava muito bem no trabalho de sopro. Ok, quase broxei ao ver, no criado-mudo, ao lado de uma imagem de Nossa Senhora, uma pílula de viagra – provavelmente do marido, sócio do tal ex-senador em alguns negócios no Rio de Janeiro e Bahia [o que quase me broxou não era pensar nos escrotos que haviam passado por aqueles mesmos orifícios, mas apurar que esse homem, diretor da todo-poderosa federação das indústrias de São Paulo, era impotente – e a forma como descobria esse furo de reportagem é que quase me desinflou os corpos cavernosos]. Logo a língua eficientíssima de Maria Luana Guimarães de Albuquerque Lins, que não resvalava os dentes na minha glande, me recompôs, e, aí, algumas horas e muitas técnicas sofisticadas depois, esporrando nos três buracos da coroa, Zed Stein se certificava de que tinha descolado a viagem pra fazer a tal matéria de turismo em Marrakesh. Ao sair, a biba de libré me sapeava da mesma maneira como entrei – nulo.

Quantos putos babacas como eu não teriam transposto os umbrais daqueles playboys?

Zonzo, zanzei pela cidade a pé, indo do Jardim Europa até o centro, onde me lembrei dos meus tempos de office-boy e passei horas alucinantes acelerando tudo num Space Invaders vintage escondido no fundo de um flipper. A sede enlouquecendo, uma pá de vagabundo juntou pra me ver possesso jogar e suar e matar etapas e garrafas d’água. Horas depois, recorde quebrado, saí fora, antes que me elegessem o novo Pinball Wizard, e voltei pra Vila Madalena. Por umas trinta bancas de jornal tinha passado – sem cair na tentação de olhar as manchetes. Me senti Santo Antão no deserto. Onde será que vendem gafanhotos? Um bom programa: fritar uns gafanhotos e comer eles lambuzados em mel, assistindo, no ringue aquário, aos iguanas afiarem seus dentes no couro um do outro… No que cheguei ao loft, porém, tive de encarar, jogados entre nacos de pizza, garrafas vazias de pepsi e baratas, os envelopes dos infotraficantes.

[Duas da manhã. A correspondência continua fechada. Na sala, o Agente havia tirado sua roupa, corrido as cortinas e acendido todas as luzes. “Quero dormir agarrado aos pés, como um feto numa esfera de silício”, geme ele, em voz alta, trêmulo, segurando uma convulsão. Segundo conta, está “treinando para quando ficar cego”.

Antes, porém, “antes que chegue a sétima efervescência”, o Agente revela à reportagem que “não tem mais nada a dizer”. Pretende apenas “bater uma punheta para Maria Fernanda Guimarães de Albuquerque Lins”, afirma.]

[Sol]
Sobre sua mesa repousam sete envelopes – todos fechados. Domingo é o pior dia para sua doença. O dia das revistas semanais, dos cadernos de cultura, das estréias, dos filmes, das peças de teatro, dos vem aí, dos e-mails e convites pras festas fechadas de segunda e terça. Apoteose ou derrota mútua. O Agente precisa se alimentar, ele sabe, ou terá outra convulsão – decidido, caminha até a padaria francesa. Caindo pelas pernas, as calças se alargam ao redor de sua magreza. Azul – a boca aberta, espaço para que o céu invada seus pulmões. Tenta não parar na banca de revistas. Consegue. Seu corpo se movimenta solene – ele nem pensava enquanto seus olhos pediam ao garçom um copo d’água. A padaria está lotada de fregueses que saltam de carros grandes e motocicletas brilhantes. Espectador de dejejuadores, o mendigo de sempre – um albino de longos e ensebados dreadlocks – flutua invisível na calçada. O garçom não parece familiar ao Agente Especial. Nada lhe parece familiar. Somente um particular – os velhos da casa em frente, que alimentam os pombos em seu jardim de lajotas vermelhas. Ele os havia observado durante toda a semana: tão pontuais, não era preciso olhar o relógio para saber que são duas da tarde. Pede outro copo d’água com gás, gelo e limão. Decide beber um copo d’ água a cada dez minutos. “Maldito E”, murmura, para si mesmo.

Não entende muito bem a língua dos fregueses: “O que têm tanto pra falar tão cedo? Quem são?”, sussurra. “Será que pensam o mesmo de mim?” No fundo, não se importa tanto com isso, e seus colegas de padaria seguem lendo revistas e jornais e comentando as coisas impressas uns com os outros e o albino observando a todos sustenido, ombro a ombro, buscando a notícia, a mensagem, o sinal. Os pombos voam pelo ar – após o décimo-terceiro copo d’água e o último saco de milho. Uma mulher lê uma revista com imagens de pessoas de que o Agente não se lembra. Como se fosse um livro de figuras com indicações em outra língua. O Agente se surpreende: “Em uma semana teria mudado o mundo a ponto de seus personagens serem outros, completamente novos, um novo elenco?”, cochicha. Ao lado da revista da mulher, uma quiche de queijo derretido salpicada de alho-poró. O mendigo observa que um senhor deixou o caderno de Imóveis numa cadeira e precipita-se para pegá-lo: em voz alta, surdina algo como “Três dormitórios, closet, living room, sala de jantar, copa, cozinha, área de serviço, sacada, um quarto de empregada, piscinas adulto e infantil, duas vagas na garagem, sauna, salão de festas, tenda de massagem ao ar livre, segurança 24 horas, qualidade de vida, qualidade de vida, qualidade de vida”. O garçom pergunta ao Agente se quer comer alguma coisa. O garçom repete: “Satisfeito?”. Aflito, parece o garçom. Muitas pessoas por satisfazer. A fome cresce. A sede. O Agente pede “Outro copo d’água gelada, por favor” – guarda os copos plásticos uns sobre outros; a luz do sol produz neles reflexos azuis e dourados: não há nuvens no céu. Nos fios elétricos suspensos pelos postes de luz, sete pombos se equilibram, fixas gárgulas.

“Qualidade de vida.”

De um deles parte um tolete de bosta branca, que cai no capô de uma pick-up. O próximo projeta seu produto sobre o dorso de uma honda shadow, e outro vem melar o vidro de uma cherokee 4X4, em intervalos regulares, até que o sétimo pombo manda sua pequena porção de merda direto sobre o quiche da mulher que lê a revista, distraída, o garfo no ar ainda lentamente se encaminhando para a pasta de queijo e alho-poró – esta, temperada pelo excremento do pombo, vem se unir à saliva da mulher dentro de sua graciosa boca. A garganta do Agente seca quando ele vê a garganta da mulher se mover suave e animalmente satisfeita, enquanto vira outra página e espeta com o garfo o último pedaço do quiche, “Hmmm”. Todos seguem suas atividades de leitura de jornais e revistas – nos fios, silenciosos, os pombos obram –; o mendigo albino pesca com o olhar um notícia no caderno de Esportes lido por um jovem com gel na juba. Mais primitivos, os olhos do Agente voam para o outro lado da rua. Abraçados, os velhos observam a tempestade branca, tranqüilos, mudos. A velha parece sorrir. Alguma coisa naqueles freqüentadores de vernissages faz o Agente pensar em Adão e Eva na ilha de Caras, o que lhe dá “vontade de vomitar”, segundo afirma. Desta vez, agüenta até o fim. Tira umas notas do bolso, deixa sobre a mesa e sai da boulangerie.

Sentado na calçada, o mendigo lê classificados. Vigilante, o Agente não pode deixar de observar, por cima de seus dreadlocks piolhentos, o caderno Cotidiano, aberto na seção de necrológios. O Agente gasta horas dando voltas em torno do quarteirão de seu próprio prédio antes de recolher-se. As casas de diversões eletrônicas não abrem aos domingos.

[Lua]
O orelhão da esquina tocou às 4h48. Um só toque e parou. Achei que o céu estava particularmente roxo hoje. Porém, o universo, descobriram – outra decepção horrível, eu tinha lido o mês passado no caderno de Ciência do meu jornal – era bege. Tão bege quanto as calças em que me colocariam depois de descobrir minha gloriosa infâmia. Por que fui cismar de matar o tal casal de velhinhos, a outra noite? E com uma chave de fenda? Estou tão cansado que poderia dormir por mil anos – o mesmo sono dos iguanas sem nome agora tão silenciosos enroscados um no outro – e ainda assim não teria conseguido formular um frase só que fosse posse de minha exclusiva elegância, oh, nuvens rubras, onde estais, não me abandoneis, Lúcifer, mais bela das estrelas, ouro a quem oro [oro, oras, o telefone não tocou novamente, e eu queria tanto que o cavalo alado escapasse da minha perniciosa cabeça… consigo vislumbrar, deitado na cama no meio da minha sala de espelhos, sobre todos os capachos do universo, o jornal trazendo as notícias de ontem, a revista semanal com os fatos da semana passada, os prognósticos, as expectativas em preto e branco coluna sobre coluna, cheiro da tinta nos dedos, todos os eventos do mundo nas mãos e nenhuma só vírgula com estilo: ao morrer, prometo não me transformar num epitáfio – só, antes, a ventura de um único gesto de decência].

Oooahh. Foco. Foco. Vamos… Depois que terminei de escrever isto, me senti mais entediado ainda e desci um frontal com pepsi e, por via das dúvidas, um dormonid… tá, mandei junto uma vitamina C.

Muitos acontecimentos numa só semana, e todos vãos. Fui mais forte que imaginava: todos os sete envelopes pardos fechados… Vou enfiar eles aqui entre essas páginas, como lembrança. A licença acabou. Voltar ao trabalho… Deadline: logo mais, com forças para sair da cama, finalmente vou apagar todas as luzes do apartamento. As janelas fechadas… As frestas vedadas… O gás aberto.

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Vila Madalena [SP], verão, 1999-2003.

Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

O quarto dos ventos

05h55min55s: estou aqui, estou aqui, agora mesmo, sou eu quem o percebe mas não é possível estabelecer uma conexão: sei que antes disso houve pessoas, gente que mergulhava no mar azul de Maracaípe, pranchas se espatifando na areia e no entanto agora tem só essas porradas na porta, porradas na porta, por que será que não atendo a esta porta, estarei por acaso dormindo? se durmo, por que não acordo para atender e desligar esses ventiladores? não é possível, devo estar acordado, sim, é claro que estou acordado e posso ouvir lá fora o mar dourado de Maracaípe se entrelaçando felino nos troncos dos coqueiros, posso ouvir suas águas cruzando com as do rio Ipojuca, isso é real, apesar de todos os ventos que me circundam, embora todos os ventiladores do quarto na pousada vazia ligados sei que isso acontece aqui neste instante, e apesar de todos os ventiladores tremo de febre, tesão e êxtase, como se levitasse, ou como se me eliminasse o como se – é o que é – no que não haveria o menor problema não continuassem batendo à porta, batendo à porta, à porta, à porta do quarto em que vim calmamente dormir após contemplar a lua amarela um olho de fogo nascendo cheia do fundo do mar vermelho de Maracaípe; noutro tempo, no tempo como se, no tempo antes e depois, agora não, agora somente agora, agora batem e batem e batem à porta e as hélices giram jogando meu suor pra todos os sentidos cardeais e o pior é que estou lúcido, com certeza, já tenho certeza de que estou acordado, meu corpo é este mesmo e estou deitado na cama do quarto da pousada onde ninguém me conhece, nesta praia pra onde nunca um conhecido saberá que vim e jamais me alcançará nessa despedida do universo – era o que pensava antes de notar o zumbido dos ventiladores nos pêlos do meu saco e sentisse saliva na língua e meu corpo uma tocha humana em sagração a excusos pecados trespassado por chamas e coceiras e nervos úmidos de rio a penetrar aos mangues o mar banhado pelo olho de fogo de um ciclope, um dragão, uma supernova engolindo deliciosa as espumas expostas por minha pele em levitação pra além do bem e do mal, acima do universo diário medido e cortado na fria lupa dos caracteres conectos a fatos, nojento universo de animal de zoológico, universo como se, como se interrompido pelas porradas na porta, pelas porradas na porta que me invocam os demônios combustíveis da dúvida e do medo e da vontade, aqui agora entregue ao êxtase das línguas hélices a estraçalharem doces som e sentido de meus pensamentos mortos no encontro das águas doces com as salgadas, êxtase a que nem mesmo Deus foi convidado, êxtase completo de solidão hóspede que desconhece pra onde vai e donde vem, expulso pra dentro do próprio paraíso a sobrevoar retumbante o país do corpo, como se houvesse um microfone ligado nalgum lugar e pudesse dizer a alguém o que rola justamente neste momento mas não posso – quem me acudiria agora nesta parte do mundo trazendo um conforto? morrerei e ninguém saberá, mero viajante num quarto de ventiladores que zumbem – tudo tão fácil não batessem à porta, batessem à porta, à porta trancada com as chaves contidas na fria caixa preta do meu medo de ser atingido pelo universo como se, o universo das coisas possíveis e não no universo deste quarto em que me é comunicada a essência das coisas em levitação antes de nascer – não importa, aqui sou tão mínimo no êxtase que me consome, êxtase sem aeroportos ou salas de estar, paraíso nem inferno nem condenação nem prêmio, espaço de matéria tão absoluta em que poderia até ouvir o coração da areia quente sob o rio enluarado não fossem os ventos que me circundam e as batidas, as batidas, batidas incessantes à porta me lembrando de que existe um outro lado além deste único instante total, onde antes que pense já saiba o que pensarei em seguida e já me esqueça daquilo em que pensava como uma onda a engolir outra onda e outra onda e outra onda vomitada pelo olho de fogo mas não é isso, não estou neste universo como se e sim no universo em que sucumbem incêndios e afogamentos, e me pergunto – quem estaria batendo à porta? alguém que conheço ou o óbvio desconhecido? a noite a me dar um último beijo antes do universo como se invadisse as dobras do meu mundo secreto? – este mundo secreto atingido sem que o possa justificar num vulgar êxodo de fim de semana, pois não há mais semana, não há mais tempo concreto pra onde volte, tempo em que possa mastigar o café da manhã com o jornal; se apenas conseguisse apagar o olho de fogo e desligasse o êxtase que suicida meu corpo num nascer da lua cheia sobre o negro mar de Maracaípe vomitando ondas sobre ondas com a força dos ventos deste quarto em suspensão interrompida pelas batidas à porta me implorando – há quanto tempo batem? – uma resposta, um empurrão de um universo pra dentro do outro, um corpo dentro do outro, maré penetrando corrente, tormenta de pensamentos tesamente se enlaçando quando me lembro, ou vislumbro, ou pressinto – é justo pra isso que vim aqui, justo atrás desse céu, exato, isso, nunca poderia ter sonhado este espelho refletindo a si mesmo até seu mais obscuro poço de luz, a mais profunda caverna solar em que me escondia antes que viessem bater à porta e eu me levantasse do leito para abrir, ou nascer, ou morrer – agora, exatamente agora: 05h55min55s

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Maracaípe [PE], outono, 2001.

Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

WTC/NY


I feel my luck could change
Thom Yorke

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Com ele foi o tempo de um êxtase.
– Beware.

BREAKING NEWS:
A gente se despediu na noite do 10 de setembro, no meu táxi. Meu batom deixava roxa sua barba. Lembrava dele inteiro: compacto, alto, noturno. Curioso – só havíamos nos encontrado de noite. Mas agora… minúsculos fragmentos de estrelas. Seu corpo dissolvido, se reordenando a outros. Solto de sismo. E não seriam minhas próprias mandíbulas resíduos de crimes do Velho Testamento?
– Look below that sheet of steel. Beware.

JUST DO BIN
– Beatriz, if I had not a leg, do you still love me?
– Sim.
– And if I had not an arm?
– Te amaria.
– And if had my eyes entirely white?
– Claro que te amaria.
– If I had not my cock?
– Bom, aí mandaria você tomar no cu.

Uma semana antes, tínhamos subido aquela mais alta torre. Clandestinos. Eu sonhava com Áfricas. Já tinha ido muito longe como taxigirl em Manhattan, mas, pense, carregando dez quilos de ouro na cintura, na Etiópia? O mundo é grande e é pequeno. A gente imagina que é a evolução; mas se esquece que sobreviveu ao que foi, os projetos, sobras, sombras de babel… Me pendurava na última janela de ponta-cabeça – as estrelas nos pés distraídos – num tapete pra voar ao fim do mundo, até o início do rastejar da mente-camaleão, e pensava no bronco breu e me lembrava que eu, Beatriz, era só uma brasileira rastejando num carro amarelo nessa merda de labirinto, labirintite. Mas como esquecer de, quando, com 17, tonta, sacerdotisa da Ordem Rosacruz, obtive acesso a mistérios ocultos pelos Cavaleiros Templários na Loja da Vila Mariana, em São Paulo, e passei uma tarde sentada na escadaria do colégio Objetivo, na Paulista, meditando convictamente para fazer levitar a sede da Fiesp?

Tudo bem. O passado peca e ele também tinha uns vícios. “Horse, horses, mares and nightmares.” Coisas que pegou e não pagou. Problemas com o bookmaker. Preso passando pot. Nenhum pecado maior que escrever poemas neocaligráficos, criados por um software que desenvolveu, quando ainda estudava no MIT, juntando escrita árabe, teoria dos fractais e ASCII art; nenhum pecado maior que se travestir de Maomé enquanto me fodia quente e lentamente a bunda, a barba me roçando a nuca, nossos braços sangravam… e os edifícios lá embaixo, as avenidas, os automóveis, os hidrantes, os rappers, os mórmons, os yuppies, os paquistaneses, os chicanos, as mammas, os gays e os judeus nos conformes dos Orixás: não precisávamos de nada, cercados por nuvens de sabão em pó e pipocas no microondas e a TV falando dum novo aparelho pra tornar o abdome mais duro, com sete gomos, feito as barrigas dos capoeiristas, no Brasil… o Brasil que se fodesse.

– Beware of the ruins. It’s dangerous running here. Beware of the ruins.

LOVE IS A VIRUS
A serpente se engolia… e nunca as frutas caem longe da árvore… e o Super-Homem não pode girar o mundo ao contrário…

E as garotas que eu transava não tinham a pica que ele tinha. Isso parece óbvio – mas pra uma chupadora de xoxotas como tinha sido durante meus 25 anos, o pau dele emitia raios gama e açúcar do Peloponeso e tinha sido interpretado diretamente dos Cânticos dos Cânticos… embora ele me lambesse o cu como se o Apocalipse batesse à porta.

Nós não sabíamos ainda, mas o Apocalipse já tinha chegado: tomava um chá na ante-sala.
– Beware of the ruins.

AL QAEDA KNOWS THE WAY
Os clientes tão simpáticos quando eu vestia aquela camisa canarinho de merda – era o jeito de ganhar eles. Logo eu, que sempre detestei o Ronaldo: nunca vou entender o porquê de os clientes associarem a Seleção com alguma espécie de hospitalidade. Ser brasileiro no Brasil e imaginar que ser brasileiro fora é lindo, porque todo mundo gosta de brasileiro, é uma idiotice. Ser uma filha da puta que rala dez horas por dia fugindo de todo tipo de tarado por uma cidade de ruas numeradas é uma merda bem mais angustiante. Mas me divertia – ia aos clubes noturnos atrás de deep jungle e encontrava umas nucas tatuadas, uns mamilinhos com piercings…

Ele me contava dos Budas que haviam explodido no Afeganistão. Por aqui, ninguém mora em seu próprio corpo, eu cavilava.

NOTHING IS REAL\NOTHING IS FORBIDDEN
Me chupou os mamilos aí me deu um beijo na boca e eu senti gosto de leite.
– Estou grávida – sorri.
Virou-se, acendeu o narguilé novamente e tragou profundo o haxixe afegão.
– Osama will be the name of the boy.

Insuportável, charmoso, ele só gostava de histórias e música árabe… Acabei pegando costume de ouvir música árabe no táxi. Os clientes estranhavam, uns gostavam, uma ou outra ex-namorada a quem dava carona ria. Sim, seguia sentindo tesão por menininhas de dezoito – perdidinhas, buscando proteção e uma língua inteligente. As mais belas fêmeas souberam da minha fértil buceta. Êxtase de antenas grudadas, horas… Seus pezinhos se enrolando um no outro enquanto suas mãos e línguas quase me faziam provocar um acidente na Times Square às quatro da manhã. E os alto-falantes tremiam o alaúde de Abou-Khalil em conta-gotas às minhas virgens…

Tempo. Tempo. Mandei:
– Como devia ser o céu, antes da queda de Lúcifer?
Seus olhos pretos súbito abertos num relâmpago. Tempo. Olhou a janela e nublou:
–Tomorrow Evil will scream like a pig being rapped.
Levantou, trouxe a seringa, quase cheia.
– A little more tonight ‘cause tomorrow I’ll climb the Great Building – gemeu, voz de puto marroquino, me mostrando seus lindos poemas. Ideogramas alienígenas: nós, um para o outro.
A picada dupla tão sexy quanto um avião aterrisar na tua veia.
– I’ll climb the Great Building, Inshallah – dublou-se.

AMERICA UNDER ATTACK
– There’s a corpse below that sheet of steel.
De tanto andar pelos escombros do WTC, acabei entrando como voluntária para o grupo de resgate. Três meses de busca e reconheci seus poemas – dilacerada tatuagem – num ombro. Em semanas, tenho seu corpo quase completo. Juntei pernas, braços, tronco, cabeça. Falta o pau.

Vai ser uma menina, li, os olhos no rio Hudson, as mãos no ventre, a face vermelha como uma estrela morta.

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Vila Madalena [SP], verão, 2002.

Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

O cemitério aéreo

Fazendo piada com a perna
que pode ser amputada
Fabio Weintraub

Pensei que, de certa forma, estava à sua espera, embora, claro, ele não viesse, e pedi um chope, que veio aguado e quente. Tomava o vento na cara em baldes. Uma mulher se insinuou em frente, de costas a mim, se encostou morna no poste enferrujado, enchendo a cara do sol que se banharia no rio, beira do cais. Seu vestido velho vermelho, atravessado pela luz do dia que caía, e vi suas grossas coxas morenas nos intervalos aos banhos de vento. Vez em quando, a curva de um seio. Uma mulher, enfim. De que eu precisava? Nada poderia fazer. Talvez nem tentar algo coisa com ela, pois, afinal, não foi pra isso que tinha vindo. Esta não é uma viagem de férias, embora no céu os pássaros cantem. O chope termina e peço outro, enquanto caio os olhos nos pés da mulher se cruzando no chão, sandálias chutadas. O ar agitado, me fixo à espiral das minhas memórias. Tantas que nem saberia por onde. Penso em comer peixe. Empinar papagaio. Dirigir. Fumar cachimbo. Ganhar ovo de Páscoa. Vestir paletó. Mas já visto um, negro, elegante como os que ele tinha. Pássaros. Procuro um cigarro no bolso, enquanto a mulher acende o dela. A fumaça sobe, junto meu olhar – minúsculos pontos negros no céu se aglutinam, pequenas nuvens.

Tinha chegado quase no fim da tarde deste domingo de Páscoa à cidade donde ele já havia se ausentado, e desde então procurava nela algum símbolo de sua passagem. As ruas eram as mesmas, os vendedores de tranqueiras, os mototáxis, aquela gente parda sem rosto nem ressurreição. Casarões de tempos quase gloriosos – a cidade um cárcere de lembranças esburacadas. Sempre tinha pensado nessa cidade como uma prisão para ele, pois assim a sentia para mim. E a gente era muito parecido.

Caminhei tropeçando em pedregulhos e me sujando de suor e pó vermelho e não podia deixar de pensar em como ele deveria ter se sentido um traste num lugar desses. Por isso mesmo, não poderia fazer nada que estivesse à sua altura. Nascera pra reinar – mas nunca adivinhara que jamais houvesse sido, realmente, um rei. Seu rei estava na barriga – e o câncer nela lhe comera todo, das veias aos cabelos. Nem bonita essa cidade era. Terra de mísera passagem. Próxima demais dos limites do paraíso. Nada em suas alamedas enlameadas lhe lembrava as rugas aristocráticas. Assim, do lado do rio Paraguai, vim me sentar debaixo dum guarda-sol vulgar – até o céu deste lugar se imprimia grosseiro. Um azul insuportável, brotava brotoejas da testa, pássaros do ar.

Em volta de mim muitas pessoas se sentam, todas de frente pro ocaso, laranja, rubi, violeta, bola de fogo dois passos do caos. O céu escurece rápido, embora se pressinta uma claridade profusa. O sol, vuduzado por alfinetes pretos – mínimas névoas se movem. Pássaros. Pássaros. Milhares. É: não conheço seus nomes. Ele conhecia – todos os pássaros, plantas, flores, animais. Por isso nunca me preocupei em saber seus nomes: já havia quem o fizesse por mim. Então todos os nomes dos pássaros, plantas, flores, animais, se perderam no nada – é isso que quer dizer? É assim? As pessoas falando cada vez mais alto. Como é linda a maneira como ela segura o cigarro e estica seu queixo para cima, de lado se sugerindo seu perfil de cacau, fumaça ao alto, um recado aos pássaros do Sol. Como se os chamasse.

O que ele teria visto, na hora final? Qual a última mensagem?

Ele amava os pássaros. Talvez já nem pensasse mais neles. Quando tudo ao redor ruía doloroso, se cavando devagar – e neste céu, cavam-se abismos ondulantes em forma de v –, ele só pensaria mesmo em amar o fim: estaria já apaixonado pela própria morte. Murmúrios e risos. A morna morena desliza, devagar, pelo poste, até se sentar no chão, suave, uma perna sobre a outra, aninhada – uma mão pensa no tronco de madeira, o braço circulando o poste aos poucos. Seus cabelos pretos, longos, refletem as luzes da noite. E logo as vozes do alto se agitam – asas, asas, gritos: são milhares, milhares de pássaros, aos bandos, despencando desde a estratosfera em volutas suicidas até chegar ao rio, às vezes mergulhando e emergindo, um peixe no bico, algumas voltam aos céus, temerosas da terra firme, vêm se largando duma árvore a outra, as árvores se desmanchando, balanços criando fúria entre galhos e folhas, árvores vergadas pelo peso da leveza que eram tantos – tudo pássaros, todos os lados, nos guarda-sóis, telhados, carros, balaustradas, sacadas, postes, muros, portões, calçadas, nas copas das árvores desta praça, pássaros pássaros pássaros, absolutos reis desta cidade-ave do esquecido Oeste, reis distantes e famintos por um lugar, extenuados da viagem antiga, apenas guiados pelo desejo de permanência, enchendo a cidade de canto, agitação e cheiro de merda, a cidade inteira está cagada, chove, as ruas estão brancas, neva. Névoas. A mulher sumiu.

Peço outro chope, nervoso, coração apertado, fascinado pelo medo, surpresa, falta de sentido. Espantos, pântanos adentro. Para isso eu tinha vindo? A mulher foi na fumaça, mas deve ser assim, todos vêm a esta cidade para se tornar fantasmas, os pássaros já estarão mortos noutro continente, todos estão mortos nesta cidade e este é um cemitério de pássaros. O garçom, tropicando nas aves que vagueiam, leva uma cagada bem no cocuruto, e sorri sem graça para mim: – dá sorte. Maldito o lugar em que as pessoas abençoam uma cagada na cabeça. Você nunca tinha visto isso, né? uma voz me diz.

É a mulher, morena ao meu lado, de dentro da fumaça de seu cigarro surgindo. Se sentara perto sem que eu percebesse. Nunca, não, tento articular. Como se chamam?, pergunto, achando um pouco de graça nessa aproximação, um pouco de graça em seu jeito delicado de ave, mas um olhar tenso, de gavião. Vêm pra cá nessa época, ela desenvolve, voz mole de lacunas, vêm dos Estados Unidos, atravessam o continente até o Pantanal, sempre em março e abril. Vêm em busca do verão, que aqui é eterno. Não sei como voltam… tudo que vem pra cá não volta nunca, ela derramou, sorri triste, olhos no rio. O chope queimava na garganta, o sol uma mancha marrom. Você não é daqui, não é?

Sim – só poderia ser por esta razão que ele quis que eu viesse. Para ver isto. E nem você, devolvo. Você sabe o nome destes pássaros?, quero saber, preciso. Nas orelhas, pequenas argolas de prata. Você tem um cigarro?, pede ela. Acendo dois cigarros. Nós também não temos nomes, como os pássaros. Ele queria que eu visse isto. Um último jogo, último presente de Páscoa. O pai agora está sob a grande sombra dum ipê-roxo, envolvido numa manta alada. E em todas árvores os pássaros se aquietam, e o sol se afunda no rio. Vou te contar uma história sobre pássaros, a mulher sopra, junto da fumaça azul.

No céu escuro, cicatriz de luz, a lua ganhava a forma da espada.

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Cáceres [MT], outono, 1996.

Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

Psicotrópico

Sábado, em flagrante cena de falta de objetividade jornalística, o repórter, dando uma de roadie e na brodagem levando um case lotado de vinis para a Subadream, invade o palco flutuante onde acontece o show do axezento Boi Sound System e é atropelado pelos popôs das popozudas da banda, que frenéticas abundam pra lá e pra cá. Perdidaço, o repórter tropeça em fios, desliga microfones, paga mico sob holofotes.

Pra onde eles foram? Moon moon moon moon. Embaço demais. Assim, disperso na floresta, amazônica, só guiado pelos sons, o repórter procura o paraíso perdido. O DJ Soul Slinger, mentor do festival Ecosystem, manda “Aquarius” – engraçado como certas coisas até fazem sentido. Tem fogo? Interpor a página branca feito um escudo àquela lógica tão complexa: antes de entrar no palco e detonar as bases recém-enviadas por Apolo 9 para seu próximo Condomblack, Otto afirmou que viu uma coruja sobrevoar o palco e teve medo. Como reportar isso? Afinal, aqui há quem pense que a voz do MC é a voz de Deus.

Amazônia psicotrópica vingada em caverna africana. Nação Zumbi chama TC Izlam para cantar – é o encontro com a Zulu Nation. Os gringos não acreditam que o drum’n’bass nasceu no Recife há uns dez anos. Os gringos não acreditam na percussão da Nação. “O paraíso desta vez vem logo/ como um lugar sem nome” é o mantra de Jorge dü Peixe. Difícil crer em milagres, como o drumba e o samba em iorubá em “Tocaia”. E em bobagens – BNegão rebola o pancadão da dança do patinho. Tem fogo? O paraíso sempre foi artificial, desde o tempo do inferno: o maná de Manaus se chama Dom Pablito, homenagem a Picasso – um quadrilátero de cinco por cinco milímetros cuja forma lembra outro catalão, Miró, e de efeito mais pra outro catalão, Dalí. Oferenda trazida dos céus químicos pelos Hell’s Angels, executivos bicudões ao lado das latas de lixo vermelhas, azuis, verdes, amarelas [metal, papel, plástico, lata, não jogue lixo na floresta]. O repórter ouve que alguns podem esconder mortes atrás dos logotipos de águias e caveiras. Mas não é hora pra apurações – e sim, negócios.

DJ Krush e seu trip-hop samurai. A reportagem escapa do palco flutuante e se dirige à grande missa dos autistas que rola na maloca tecno. Tem fogo? Comunhão orgânica através da música – não converse com ninguém dentro do espiritual estrobo enquanto pick-ups came down: você sabe, aqui os cães latem na igreja. Tem fogo? Numa corrida sem fim, musique never stops – nibelüngen kraftwerk.

Encostada numa coluna, a garota de óculos parece um pouco entediada da rave. E o repórter perde o prumo. Não se esquecer da porra da lua cheia por sobre toda a floresta escura, densa, granítica, sedosa. E não esquecer da mensagem. Não esquecer – esta é a mensagem.

[Na área vip, o garçom índio, colonizado há quinhentos anos, não tem mais espelhinhos pra trocar pelos vinis que giram nas carrapetas: só mosca e masca a realidade ao redor feito um universo paralelo a que ele só enviesadamente tivesse acesso – alguns até dançam, sem graça: um índio no meio da maloca, no exato centro do círculo de areia, camisa vermelha de bar de beira de estrada, uma cerveja em cada mão, gira e gira e gira e grita continuamente a mesma vogal, até que seus ouvidos se entopem de texturas supersônicas a 200 bpm e ele desaba sobre si mesmo.]

D’n’b by the pool do hotel Tropical. Otto, Subadream, Slinger, garotas tatuadas no rego e hóspedes perdidos [se hospedaram um congresso com 299 otorrinos chamado ESPIRRA BRASIL 2001 e 799 coreanos de camisas floridas que vieram fazer compras e comer jacaré e só andam em grupo, condição que, quando se topa com eles num dos corredores alla Iluminado do hotel, os transforma de imediato em milhares de sedentos jack nicholsons orientais]. O no-eating-guy de sunguinha e sári florido cai dramático na piscina – passou uma tarde lendo as mãos dos seguranças que mal sabiam português, murmurando coisas como “take care of your estomach” ou “eat less, my dear”: é um tanzaniano que mora em NY e jura não comer há seis anos [sua casta, de seis mil pessoas, é chamada de breatheaterian, os comedores de vento]. Esse hotel parece saído de um filme B. E não é preciso ser muito esperto para sacar qual é a dessas garotas fantasiadas de índias na recepção. Tem fogo?

Felizmente, os pássaros chegam às cinco da tarde. O repórter não agüenta mais certo discursinho ecológico que às vezes aparece num evento patrocinado pelo governo estadual, e, afinal, não se deve esquecer que o governador Amazonino pretende se reeleger em 2002 e precisa do apoio dos “jovens”.

Mas isso são especulações políticas. A coisa toda é sobre química – imagine a quantidade de alucinógenos que não deve existir oculta nas desconhecidas plantas amazônicas? Aqui é o coração das drogas, compay.

Que som pauleira dos infernos, reclama a índia que trabalha na coleta seletiva de lixo. Uma loira gira extática sobre sua cabeça uma bolandeira e periodistas colombianos locos: amigo, esto es muy mejor que la rumba!

– O drum’n’bass tem um pequeno atraso da segunda batida para a primeira, percebeu?
– Quem vai tocar?
– E esse ácido, que não bate?
– Não sabe quem está tocando?
“O line-up está na cabeça do Slinger” – uma das frases mais ouvidas durante o festival.
– Esse DJ é aquele ainda?
– Não, porra, você não percebeu que mudou?
– Não!
– Esse DJ é careca, pô!

O que todos procuram? E de repente, para onde eles foram? Tem fogo? O repórter pensa em transmigração de almas [a voz do TC Izlam – yo, yo – parece a de um padre rezando; melhor desligar o narrador off]. E apesar de todo o esforço do Greenpeace, há quem jogue lixo no chão. Água água água água água água.

Tem fogo? Palmas se aquietam, como asas de anjos aleijados. No silêncio, o sol na água parada, os animais espreitam – os ritmos gozam. Tem os que dormem cedo e perdem essas coisas. Assim como o povo entrunfado atrás daquele mato. No chill out, o dub e o bode dos bêbados. As estrelas anunciam o sol. E de manhã, crianças nuas riem ao pé do igarapé. Samba drumba denso de novo. “Whatever – mas sempre assim classe A”, é o comentário da gordinha. O loco fotógrafo cucaracha descolou umas minas pros manos do Aphrodite mas na sua vez o segurança do hotel mandou sua garota clandestina embora.

Foda. Marcelo Mirisola ficou com medo de vir e mandou: esporte radical é comer puta sem camisinha. E há quem diga que Manaus se equilibre no tripé pinga, pó e puta.

No Woodstick, a trilha é o Sítio do Pica-Pau Amarelo e o primeiro back do dia. E o sol nascente. Uma mulher de cabelos brancos, óculos rosa, meias pretas e minissaia roxa vem correndo pela ponte seguida por um cão branco. Tudo tão câmera lenta que parece tão rápido. Não esquecer das loiras acrobáticas em roupas de ginástica amarela laranja azul verde e suas pernas elásticas. Cada RG, uma história, reflete BO. Muitas pessoas camufladas com roupas do exército [Otto, um deles]. Acelerou, Maria acelerou, acelerou, Maria acelerou, toca o vinil, enquanto o fotógrafo, queixo travado de ecstasy, chora: – não sei mais para onde apontar a câmera, cara. Tem fogo? Pífaros à contraluz. Mas do outro lado do rio, a tenda tecno never stops. E os bichos todos, nascendo.

Por todo o canto se vêem despedidas pra daqui a pouco. Subadream: o repórter refugia-se dentro da parede de caixas de som, bloco e caneta em riste. Parangolés de abelhas vestem a banda. Como descrever um som? A palavra é corrupta – prega certo alien sound generator. A cada partícula de semifusa, a cada miligrama, um compasso, uma batida, uma cadência modal: medidas pra estudar alturas. Tem fogo? E a desanoitecida loira cujos olhos eram da mesma cor da lata de lixo reciclável de papel? E sempre os mesmos hippies mochileiros, eternamente indo e vindo de festivais de música pelo mundo, vendendo seus anéis de prata e suas maricas de durepox? E um suspeito DJ índio com uma camisa do Sepultura? E quebras súbitas no ritmo? E flashbacks? O repórter procura o centro profundo da narrativa, contido nos olhos daquela menina careca que balança os pés tão descalços quantos seus seios, seus lábios, seu abandono.

– O que você tomou?

Na ponta da flecha. Não esquecer do cachorro que veio falar com a reportagem no exato momento em que o sol brilhava nas palhas amarelas mixadas a Villa-Lobos e índios do Xingu e o tecno alucinava do outro lado do rio – como se lá ainda fosse noite, e aqui, já o dia; na mente do repórter uma zona intermediária, plena de possibilidades. “Necessário é criar”, afirmaria Pessoa. A reportagem é inútil para remixar em cada exato canal dados de macumba, Drummond soterrado por camadas de neblina como se só ficasse soletrando números infinitos que sempre aumentassem, sempre mais – musique never stops. Neurônios fritando frios no corredor iluminado do hotel, às dez da manhã. O televisivo Gugu Liberato, cercado de garotinhos bombados, cortados pelo vôo do patinete do DJ rastafari – outra alucinação do ácido? As semifusas da caixa de lata da bateria eletrônica cada vez mais rápidas, virando umas sobre as outras, enquanto levadas de rontonton vão se sucedendo como ondas numa praia de arrecifes.

Fora com a objetividade do jornalismo. Culto à DJ loira cujo nome se perdeu, mandando um drumba de freqüências subsônicas que começavam nos pés e terminavam em vibrações a implodirem o crânio. Isso é o verdadeiro rock’n’roll, em seu simulacro sintético. Os índios ticuna ficaram esperando que o som se aquietasse pra que pudessem encenar seu incendiário ritual. Mas o cacique se irritou e mandou todos para casa. Pra onde eles foram? Tem fogo?

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Manaus [AM], inverno, 2001.

Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

Uma forma de oração


Deus dai-me o ventre de Maria e as coxas de Pietra nesta hora inglória Senhor dai-me competência para recortar com meus dedos trêmulos a pele de Ellen e colar com meus olhos turvos os olhos de Jenifer e multiplicar os lábios de Ira para copiar de meu pranto a dor no riso de Juliana dai-me Deus todas as teclas para clipar de Diana a nuca e escanear de Luna a vulva e amamentar os mamilos magenta cem por cento de Luana para deletar os defeitos nos pés de Claudia neste estéril Éden ó Onipotente dai-me forças para arrancar de minhas dores lombares o traço que rotunde a bunda plana de Lara para que seja em todas as camadas sangue do meu sangue a espessura sem gordura da panturrilha de Priscilla governai minhas mãos ao retocar os pêlos de Piera no pulsar de minhas glândulas para que seja d’Ela em minha tela a essência de mim mesmo aqui derrotado sobre o mouse sem jamais esperança de céus para envolvê-La nem pau para fodê-La e pelo sagrado programa que excide rugas e celulites e estrias queira Deus que eu faça desta Eva a Nossa Senhora do Último Dígito e que Ela apareça nesta mísera cela Bendita entre as capas de revista para salvar as almas elétricas de todos os homens antes que o sexagésimo café esfrie sobre a renitente tendinite deste solitário gigolô de imagens e expire o prazo para criar outro pôster de borracharia agora na hora de nossa morte amém.

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Vila Madalena [SP], inverno, 2002.

Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

Sator arepo tenet opera rotas

Próximo do fim da fila, volto a salivar. Detesto, mas sempre acontece. As mesmas caras dissimuladas e a reticente angústia e a fome financeira e a infantil expectativa de ganhar. Um presente. Faz 50 minutos espio o caixa gordo suarento de gravata listada – breve nos encontraremos, mediados por um guichê, ele meu Papai Noel. O segurança de olho. Granito. Já estou entre os topfive! Por um minuto trocaremos informações e ficarei despreocupado. Por pouco tempo. Eu e meu incrível número de equilibrista, caminhando sobre o abismo com os olhos vendados – e a conta bancária bloqueada. Troco o peso do corpo do pé direito pro esquerdo e lembro: sempre venho a bancos como quem vai ao juízo… Ama ao próximo como a ti mesmo, pede o Cristo, crucificado ao lado do relógio: 13h35. Coço a barba. Unhas, palavras cruzadas, o jornal vizinho lido por sobre o ombro, o decote da atendente – táticas escusas para driblar a linha reta. Reta? Fome. Me lembro do desenho. Quase. Não; mantenho-me cordato, ego no bolso. Furado. Qualquer velho ou grávida olhados com ódio – a fila aumenta. Será que não existe gente que aluga o neto ou o vovô para nego furar a linha? Tem filho da puta pra tudo. Granito. O segurança de olho em mim… Coço o saco. Sou forte, sou bonito, sou estratégico – mas aqui sou tão pequeno que eu mesmo não me vejo; desprezível, escravo: devia lamber o chão. Vil. Documentos, papéis, carimbos. Que situação! Por que o boy à frente – sou já o 3o colocado, é, já estou no pódio – não pára de balançar de um lado para o outro? Por que a mulher às minhas costas insiste em conversar – eu fosse uma cartola e de mim surgissem coelhos em forma de não foi gol, hoje vai chover ou presidente filho da puta? Quase babando. Outro otário, é – encoleirado pela hipótese de ter o nome incluído na lista de losers do Banco Central! Coço o sovaco. O segurança acaricia o berro. Queria tanto uma granada! Ama ao próximo como a ti mesmo, é, pede o Cristo, crucificado ao lado do relógio: 14h. O tempo cada vez mais de mim distante. Crachás – uniformes – importâncias… Granito. Faixas amarelas. Odeio-me! Troco o peso do corpo do pé esquerdo pro direito e ouço: absurdo esse horário só um caixa, viu o juro, entrei no cheque especial e não consigo sair, aquela mocinha ali passou na minha frente, lambisgóia, desculpe, foi mal, obrigado você, obrigado eu. Me lembro do desenho em que o homem. Na fila ao lado, um cara troncho remexe nos papéis tais segredos. De guerra. O segurança me espreita. Coço a orelha. Quase babando na gravata. Me financiam uma metralhadora? Meus papéis suados; me avalio. Quanto custo? Já o número 2! Troco o peso do corpo do pé direito pro esquerdo… e conto 25 pessoas atrás de mim, invejosas de meu status. Fome. Granito. Não, que droga é esta – em seus interstícios o conceito de recompensa; não em ganhar, mas em perder –, quando me viciei em extratos e senhas? Como cancelar minha mente – meu desejo? Uma agência de banco é um salão de fantasias no carnaval. Dos monomaníacos. E estou em primeiro lugar. Merda! Logo, somarei ao tempo gasto o dinheiro que vou inadimplir em contas. Invencíveis. Vencedor? Coço a boca: o próximo, chama o caixa. Ama ao próximo como a ti mesmo, pede o Cristo, crucificado ao lado do relógio: 14h25… E quando tudo parece se desvencilhar, me atiro por sobre o guichê, encosto minha gravata listada na gravata listada do gordo suarento, afundo-lhe os dedos no pescoço, te amo – sussurro, choro, coro, oro –, te amo, te amo. O segurança vem, me arranca, eleva-me, daí ao chão, papéis caem, filas dissipam comentários – tem filho da puta pra tudo –, sou algemado, me empurram por escadas até esta sala escura onde no chão – granito, granito – há uma faixa amarela. Tem outros aqui, mas não vejo. Os rostos. Me lembro do desenho em que o homem entrava no próprio bolso: os braços, a cabeça, o tronco, as pernas, e o buraco negro se fechando detrás de uma vagina dentada… O segurança me joga no fundo – aguarda a tua vez. Volto a salivar.

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Lapa de Baixo [SP], verão, 2002.

Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

O mundo é um moinho

Olhodrops! Fortunádio sim, esse um cara de sorte, não eu. Aquele ali, ó, o fita no fiteiro doutro lado da rua, sentadinho no caixote, largando cigarro solto e bilhete de loteria. Rolou uma treta pra ele que faz ele vender mais que todos os malas daqui. É o que tem a voz mais nervosa, saca que berro alto. Ganh’dinheiro, compr’carnero! Pode ver, té no nome do tiozinho, tá ligado? Fortunádio! Nome bonito, grande, cê num acha? Então, eu chamo o cara de sortudo porque ele tem tudo de bom, mano. Té olho azul. Mulher dele, nega distinta, mina de responsa, ajuda em casa, cria os pirralho, lava roupa, num zoa com os malaco da área, na delíssima, véio. Eu é que queria descolar um nega boa assim, mas só cato é as perversa. Vai a ficha teleufônica! Que que eu tava falano mesmo? Ah, o Fortunádio, ele vende mais pela goela, pelo nome e pelas lenda que diz que quem compra nele tem sorte. Cigarrmetadopreç! Cigarrgring! Um dia passou um bacana desses da Bolsa, eu já gritava é a borboleta: ele nem tchum. Foi o Fortunádio berrar é a sorte do seu ládio, é o bilhete do Fortunádio e o boy parou e comprou. Dias depois o bacana volta todo todo: meu amigo, ganhei na loteria, te trouxe uma presença, aí, valeu mesmo. Fortunádio nunca disse o que levou, só que ia empatar numa casinha que tava fazeno no Jardim Ângela. Eu dizia pros outros camelo, esse aí tem tanto rabo que um dia inda fatura loteria tamém. Ganh’dinheiro, compr’carnero! E eu sem vender uma pinóia, penano, ralano, se fudeno, mano. Mas depois que rolou aquela parada com o Fortunádio, aí que zuou, não vendi nada mais memo. Ó só, ele quase não tem mercadoria, morou? Vai a ficha teleufônica! Então: ano atrás, ele travessava a rua meio loco das idéia, distraidão, uma merça veio no gás, não teve acordo: bumba. Nas perna, mano. Véio, ficou migalha, os osso passado num ralador de pimenta, papo cabuloso. O motorista, mó playboy, num quis saber de treta pro lado dele, indenizou bonito. O Fortunádio nem precisava trampar mais na vida. Mas quer tirar o sustento de nóis. Presepada. É pior agora, a pessoa passa, e de pena, pára e paga mais, pra ajudar o porra do aleijadinho. Cigarrmetadopreç! Cigarrgring! Ele vende tudo, tudinho, num dá cinco da tarde o fita sai fora, nem precisa catar buso lotado. O cara tá no céu, vende tudo mesmo, ó as canjica do cara escancarada, se abrindo todo, saca só, só o tempo que cê tá aqui quanto neguinho não fez jogo no sem-perna? Té tive de mudar de calçada, mano. Dá licença. Coisa de Deus, tem quem nasce com o cu pra lua, fala sério. Fosse eu catado por um carro, morria atropelado, cagado que sou, morou? Foda. Bom, cada um com seus pobremas. Firmou? Olhodrops!

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Praça da Sé [SP]–Cordisburgo [MG], verão, 1994-7.

Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

Quando eu morrer


Para o Ferreirinho e Rosa, o Noel

Ô sapateia, sapateia. Hermínio Dutra abria a Voz de Jacutinga sempre com esse samba de Noel. Estranho, chiavam: sintonizar a rádio boca da noite ao som de Quando eu morrer…? Não parecia, assim, estímulo à boemia. Lacônico, corpo comido – fio solitário na alta careca –, rendia homenagem à namorada, mulata como a da Fita amarela. Na esquisitice, Hermínio Dutra acabou que fez sucesso. E fama entre os pinguços do pagode. Locutor loquático daquele lugar ocre: Jacutinga, Minas Gerais. Quando estava quente era muito quente; se frio, era frio pior. Tudo exagero – cacta, lã de fel, atucanada, a cidade não cabia em si. Anunciantes de cachaçarias, termas e malharias invadiam o éter.

Viver, o que era? Hermínio, caladão, só sussurrava no programa diário – Sambas de Todos os Tempos – do samba o nome e o sobrenome. Um erudito do cavaquinho na paróquia de 20 mil almas, João Gilberto do dial. Não à toa que Hermínio Dutra se sentisse do mundo o ponto e vírgula; sincopado.

História matada do começo.

Virando o vinil, Curimbaba. O lóqui local tinha tesão na infeliz Adalgiza. Sim. A própria Adalgiza sósia da mulata do samba, a caixa do mercado, concubinada de nata com o loquático Hermínio. Tara notória. Babava Curimbaba e se masturbava descarado, a turba ria: ninguém cria coragem de expulsar o louco sagrado da província, tirando o curinga da calça – muquiado pelas gôndolas do mercadinho –, socando-o urgente. O pai na cola, cuidando do filho não apanhar; cego dum olho, o outro vesgo, o velho esguelhava o abilolado a cidade toda. Adalgiza nada. Mulher de gala, Adalgiza era de uma melancolia sem fim. Mulataça safa, tudo psicologizava: aqui todo quinto tem segundo, deus não há, tudo tem preço – mas nada paga ver um tonto bater punheta pra você o dia inteiro. Um dia o português proprietário Ari varria o chão do secos e molhados e, desfadado, tacou o cabo nos costados de Curimbaba: vai-te pro diabo na praça. Curimbaba foi, no caminho sacou da calça seu amigo; e bala. Na rua. O pai longe. Veio a polícia – e bala e bala, o levou. Aí, o lóqui sumiu uns tempos.

Adalgiza ficou meio assim com o vapor do único fã. Logo esqueceu a telha numa rádio que tocava música de crente. Pirraça – pois que Hermínio só queria saber de samba. Mas de sambar, nada. E Adalgiza dando o trampo no mercado. O tlintlin da máquina a endoidava. Sem dindim. Sem carinho. Só pantim. Sozinha em casa, toda noite – o programa do mala, das dez à uma; e ele voltava ainda mais tarde, catingando da maldita. O tlintlin da máquina e entre as coxas o dedinho. O rádio gospel, ela irada. Pra curar os calores, um banho na fonte São Clemente, todo sábado. Pensava até ir na igreja. Terreiro, que fosse. O careca devia ter encosto. Por bosta! Viver, onde se encontra? Um dia, mercadinho deu seis; e tipo artista de novela, Curimbaba ressurgiu todo galante pra Adalgiza. Numa beca preta, polida, o cabelo repartido. Tinha virado bíblia: mudei, li o Livro três vezes, só a mode compensar a vergonha feita. Vinha do nada o diabo no corpo. Agora: era um novo. A mulata, muito psicológica. Curimbaba voltou uma. Duas vezes. Três. Uma hora subiu o sistema nelvoso.

Outra tarde o ex-lóqui chegou na dela, da fonte até em casa. A virilha assando. O quadril da nega assando. A batata de Hermínio assando. Longo, o caminho pra casa. Perto, um parque de diversões. Curimbaba convida Adalgiza: – passear no trem-fantasma? Hermínio Dutra chamava a primeira música. Se existe alma, se há outra encarnação – toda mulher tem direito a uma maçã do amor envenenada –; Curimbaba mostrou a Bíblia de dentro do casaco preto – não fosse, e eu não saía do fundo do poço: Cristo me tirou – Curimbaba mostrou a língua; agora, via a luz – e na luz do fim do túnel do trenzinho Curimbaba de língua nas coxas de Adalgiza: eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão. O programa durava três horas. Ao vivo. À vontade na casa da mulata, Curimbaba fez o da cruz antes de folhear o vestido de Adalgiza. Mostrou a ela os furos de bala. Fissura. Vem, ela miou, foda-se ligado no último. Ou é calça de veludo ou é bunda de fora: viver, quanto custa? Ligou o rádio na Voz de Jacutinga. Veio samba e mais samba e outro. Uma chave de coxa sem desmastreio. E um forrobodó evangélico – onde o nexo entre apoteose e apocalipse? De vez em quando o marido no ouvido; como um sonho. Adalgiza deu trabalho a Curimbaba. A tristeza teve breque. Água benta dentro. Luz. Graças a deus. Ou à psicologia.

O diabo foi a tecnologia: o advento do gravador. No primeiro programa, feito de surpresa, Hermínio voltou pra casa só pra ouvir o tape com a patroa – pegou o Curimbaba traçando a amásia. Arranhou o disco. De surdo a cuíca num repique, o loquático saltou por trás de sua neblina, sacou de uma faca de cozinha: capou o lóqui. Cega do alto das maravilhas, puta de tesão, na loucura, Adalgiza lhe catou a faca – Hermínio furado nas costas. Muito psicológica, pelo choque, a mulata – fissura – ficou muda. Tragédia única em Jacutinga, nem deu polícia: mas, pra sempre, notícia na Gazeta – O SAMBA DA CRIOULA DOUDA. Hoje o ex-bíblia prega desconexo em frente à casa de Adalgiza: pensa em inventar religião, os Capados Místicos. Novo ramo islâmico. Não dizem do azar em ler três vezes a Bíblia?

Terrorista é o cavaquinho.

Já Hermínio Dutra paralítico. Mesmo assim, jurou perdoar a mulata. Só exigiu de Adalgiza, das dez à uma, botá-lo na sala, num caixão com tampo de vidro. A mulata saca a calcinha no repique do salto agulha sobre o cristal: tlintlin; tlintlin; tlintlin, tlintlintlin, tlintlin. Hermínio Dutra canta baixinho. Junta gente pra espiar da janela; o casal estuda cobrar ingresso. Da rua, Curimbaba ouve extático, pega da garrafa sob a beca – e tome. O céu é um lugar estranho pra morar. A vida seja. E Adalgiza sapateia. Ô sapateia, sapateia.

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Vila Madalena [SP], inverno, 2002.

Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

Assassinato em Matutu


This world no longer concern you, William Blake
[Fala de Nobody em Dead man, de Jim Jarmusch]

1

O corpo da menina levitando no rio, deslizando pelas corredeiras, cabelos loiros feito um eco das pernas, manchas no pescoço, curvas e pedras, rio abaixo – e os braços abertos, os olhos semicerrados, procurando talvez entre as copas das árvores uma estrela.

2

O que aquele cara está olhando? Henrique dia sim dia não se perguntava. Que porra ele olha, de tão fixo? Tara de fotógrafo: interceptava não planos e ângulos, mas era doido de curioso na mirada dos que via assim, à sua frente, perdidos de sentido e longe de qualquer definição que um diretor de cinema quarentão poderia dar. Por isso encafifado em sacar o olho do mendigo ali pousado sob a árvore na calçada em frente ao cemitério, que Henrique avizinhava todo dia com seus passos desconjuntados, passos de quem tinha perdido a precisão de caminhar e botava a culpa disso nas botas italianas. Parecia um olhar além do muro do campo santo, talvez boiando num fogo fátuo, à toa, liso entre desvãos de eternidade e dia-a-dia, que caralho, como é que nego fica assim, simples assim, olhando, feito uma árvore a um homem?

Mas logo essa preocupação idiota se dissipava na nuvem do primeiro cigarro aceso logo depois de um curto na padaria Paraíso das Delícias, o tabaco na boca batucando em cima da próxima reunião com o cliente, com a produtora, com a equipe, qualquer trampo que teria de desenvolver das 9 às 9 daquele dia lhe dando a devastadora sensação de que ele era mais escravo de sua produtora de filmes que o mais raso dos estagiários.

3

É um vício, honey, pro qual eu não saco a cura. Pro qual, acho que não tenho, também, porra, tenho que assumir isso, como se diz, estofo – mandou, observando tenso o espelho no teto, acariciando a cicatriz em forma de lua crescente sob o olho direito, um tique que tinha.

Não se garante, é isso? Olha, quer saber, vou te dar uma letra, amigô. Não tou mais pra essa historinha de estressado, quer saber? Se vira, toma viagra, faz exercício, lê um livrinho de sacanagem pra te inspirar. Porque de broxa já cansei… Beijo – e Henrique, meio espantado, meio cansado, via sair mais uma quase namorada de sua penthouse. Mexendo nas carnes flácidas entre as pernas, até sorriu em imaginar dali a uns dias as notinhas nas colunas sociais e celebrity magazines: Henrique de Mello, o Rico, de novo soltinho na marola. As modelos não queriam mais surfar na onda do morenão.

Apesar de sair bem na foto, não vinha mandando bem tinha um tempo. Crise dos 40 – outro clichê que mascava, maquininha de trocadilhos e insights. Publicitário, diretor de cinema, premiado em Cannes, um carro grande e um pau pequeno. Por que não vender tudo? A capitulação mascarada no discurso quero-viver-mais-para-mim comprado e vendido por 9 entre 10 ex-profissionais que, habituados a preencher a existência de 30 em 30 segundos, subitamente percebiam que os leões de ouro lado a lado na estante eram nada mais que uma versão superluxo do velho forte apache… Porra.

Ia sair dessa – tentava resgatar a velha autoconfiança admirando-se no espelho, as olheiras grossas da insônia 3 às 5. Mas, porra, muito safo para dar uma de hippie. Já tinha fugido de São Paulo outras vezes. Floripa, Ubatuba, Trancoso, Tanzânia… umas semanas nesses lugares e, bora, pronto pra outra. Pra outra festa outro evento outra reunião com algum cliente cretino ou novos redatores geniais, e a todos tratava com sua notória elegância, sorriso de canto, rato. Dia seguinte, tudo de novo. Quando os primeiros pássaros pousaram na varanda da cobertura, semicerrou o skyline de São Paulo em silhueta nas cortinas do quarto, e, seguro, dormiu.

4

Ele entrou nu no rio, águas leitosas, mornas, a menina loira à sua frente, estelar avançando na direção do abismo, virou-se de costas – as árvores que abraçam a moldura do seu céu enluarado, os pássaros como da primeira vez e a queda serpenteando sua cabeça – as pedras afiadas das corredeiras já lhe castigavam o corpo, adeus gravidade, até onde o levasse o rio, à deriva, encruzilhadas, choques elétricos, a rua, o rio.

5

Bom dia, Li.
O briefing, Rico?
O briefing era mais embaixo, agora. O buraco olhando do sul para ele, com uma pedra onde se inscreveria seu nome e duas datas. Passava em frente a esse buraco, a esse condomínio de buracos negros, todos os dias. Fugir… Lembrou daquele lugar de Minas Gerais, tinha ido quando era criança, como era mesmo o nome?
Matutu…
Quê, Rico?
Esquece, Li… Que horas é a reunião de casting?
Em 5 minutos, gato.
Minutos depois sua sala se preencheria de biquínis dos mais coloridos recheios, a quem ele observava lânguida e esquecidamente, uma mão alisando o pau, outra rabiscando, na folha de papel que ocupava toda a sua mesa, várias versões da palavra Matutu.

6

Deveria começar pelas digitais. Procurar um cirurgião plástico que as retirasse. Não seria difícil de encontrar um que, mesmo sem ter amizade com aquele colega famoso nas capas de revista pelos revolucionários glúteos e glândulas mamárias de nove entre dez atrizes – cafetão das indústrias de laticínio –, era bom o bastante para realizar um trabalho extraordinário, sem chamar a atenção. Um trabalho invisível: desapareceria com rugas, marcas de expressão, linhas da vida. E as digitais. Que pareciam reaparecer. Hoje, ele temia que as digitais emergissem de dentro da epiderme. Tanto quanto os dentes doíam – ele tinha retirado dois dentes e serrado parte da mandíbula, para modificar a arcada dentária –, suas mãos coçavam.

Porque queria apagar todos os vestígios. Procurou antigas escolas e pressionou tabeliães aposentados. Queimou documentos. Claro, sempre possível alguém ter uma foto sua – afinal, ele em sua breve vida tinha ganho um tipo de ex-anonimato: o de decadente colunável. Pagou para um hacker criar um software que apagasse todas as menções a ele na internet. Trabalho que durou um ano. Quando faltavam poucos dados a serem deletados – até as colunas sociais tinham se esquecido dele –, providenciou sua própria morte. Um cadáver foi fácil achar. Um morto de rosto desfigurado e com documentos: tudo o que a polícia gostaria – e deu motivo para um belo funeral, onde compareceram todos os seus inimigos íntimos. E, depois da missa de um mês, ele sentiu-se morto o suficiente para sair da toca que havia alugado, pegar o carro – e sumir. Ele ainda não sabia para onde ia. Imaginou seguir ao Rio de Janeiro, daí pegar uma estrada para Juiz de Fora, e depois, as secundárias, então as vicinais, e somente parar quando tivesse feito exatas sete horas de viagem.

7

E aí, Rico? Escolheu alguma, gato?
Alguma…? Ah, sim. A mulata…
Mulata? Para uma campanha de cerveja?
Pois é…
Mas os consumidores não se identificam…
Faça o que eu digo, honey.
Henrique, meu nego, a gente não tá falando da campanha na Suécia, que deu certo porque usamos modelos negros. Estamos falando no Brasil, o país da loura falsa e burra.
Pois então os brasileiros que engulam essa mulata, porra. De preferência, rebatida com cerveja. Eu sei do que estou falando. Você acha que eu ganhei 20 leões em Cannes trabalhando onde? No boteco?

8

Sua cobertura – na sala um aquário seco – um inferninho vazio.

Pouco antes de dormir, aspirando o odor suave que seus novos edredons de seda e plumas de ganso levitavam em suas narinas, acolhido, encolhido, tentou lembrar qualquer importante ninharia que houvesse acontecido durante o dia, algo que o fizesse se sentir mais que um administrador de leões. Lembrou-se do filho, tão pequeno no viva voz do carro, papai eu vejo uma menina vestida de branco que atravessa a minha parede e senta no pé da minha cama e fica me olhando sorrindo, uma menina muito linda e loira vestida de branco, quem ela é, papai, um fantasma? Não, filho, claro que não, foi um sonho… Ah, sim, é provavelmente uma fantasmagoria infantil – foi o que, impaciente, Henrique sugeriu à ex-mulher. O filho tinha dessas: numa temporada em Itamambuca, o garoto contou que divisava pranchas prateadas, no mar, à noite, como tubarões de vidro saindo de dentro de sua cabeça, o menino via coisas. Ele mesmo teve um amigo imaginário, quando era pequeno. Onde será que andaria o amigo imaginário? Teria virado são-paulino ou corinthiano?

O sono era um penhasco suave, um desespero lento e certeiro como o fino tubo de dramin na gaveta do criado-mudo, num abraço sexy com o gatilho de sua .765.

9

Acordou no susto. Ruídos. O rato na cozinha? Não, rondavam o rancho, sim. Na lareira, a tocha, antes que apagasse. Rompeu a porta da sala com desespero. Um cavalo. Um cavalo relinchou para ele. E trotou rápido pra direita. Aí um potro. E uma égua. E um garanhão. E outra égua. E assim os cavalos continuaram o seu carrossel das três da manhã ao redor do rancho, o único movimento em vinte e cinco quilômetros, a tocha acesa a solitária luz no centro da mata, na entrada do vale do Matutu, entre o Bico do Papagaio e a Cabeça de Leão – a não ser contadas as milhares de estrelas que avançavam esfaimadas contra o solo.

Queria não ter nenhum nome – recordava-se, cercado pelos cavalos que o circulavam, do antigo desejo – desde que viu seu próprio nome escrito pelo demônio, no meio da mata, há mais de trinta anos. Será que os cavalos o saudavam ou o fichavam? Será que estava morando em algum antigo cemitério de cavalos? Fuçando nas janelas e tocando os cascos nas portas, os cavalos circularam o rancho por longas horas, até que o sol nascesse e eles desaparecessem sob ritmos e o pó vermelho.

10

Para tentar driblar as broxadas e a insônia, o médico, depois de ter assinado uma receita com dramins, viagras e lexotans, ah, sim, um prozaquinho, aconselhou que caminhasse um pouco, hum, seria bom se você. Footing e fitness passaram, de puramente imbecis, a palavras com significado. Magro, fazer exercício era tão idiota quanto chato, nunca gostou de esporte. Andar um pouco, todo dia, já faz diferença, falou o doutor. Começou a estacionar sua Pajero blindada a 5 quarteirões da produtora. Caminhar na calçada não era muito diferente de andar na esteira de uma academia qualquer, com a diferença de que qualquer mendigo poderia atravessar a vida de suas fatigadas retinas com as rotinas transparentes de quem contempla o vôo de algum fantasma que o espírito de Henrique não conseguia apreender.

Hoje, no entanto, não havia nenhum mendigo sob a sombra da árvore na calçada oposta ao cemitério, que se impunha do outro lado da avenida.

Era assim: ele aparecia, ficava vários dias por ali, aí sumia, ficava períodos sem surgir, e então vinha novamente, os olhos pousados no nada. Isso, desde que Henrique era um homem que caminhava diariamente 10 quarteirões. Nunca vira o homem em outro lugar. E se o mendigo surgisse só para ele? Teria alguma conexão com sua vida? Procurou estabelecer, numa fórmula matemática, uma relação entre seus sucessos empresariais e as aparições do homem de dreadlocks, chapéu de papelão e roupas que semelhavam um majestático fraldão feito de estopa e jeans, circundado por sacolas plásticas misteriosas, espojos da sua guerra particular. Mas antes que pudesse fazer uma conta mínima, sua assistente já lhe dava bom-dia.

11

Hoje não, papai, hoje a menina não veio, hoje eu consegui dormir, a noite toda, hoje, pai, quando é que você aparece aqui, hoje?

12

O cliente disse que não pode colocar uma mulata na campanha de cerveja. Disse que isso contraria princípios e metas estabelecidos por seu departamento de marketing baseados na última pesquisa de mercado do instituto…
Fala pro Peixoto que eu tenho 25 anos de janela.
Mas como, Rico, se você começou a trabalhar só com 22 anos?
Com 15 eu era office-boy na DPZ. Eu tenho 25 anos de janela e 20 leões em Cannes. Se ele quiser, que procure fazer esse filme na concorrente…
Mas Rico…
Pois é, honey… ele vai descobrir que não tem empresa concorrente. E se alguém me ligar, diga que não estou…

13

Matutu, Matutu, matutava ele, tamborilando os dedos na cabeça careca, cor de cobre. Diga que não estou. Ouvia essa frase em novelas e filmes e imaginava ser a instância máxima do poder. O poder era justamente não estar quando se estava, Shakespeare já tinha matado tudo, e olha que o barbudo nunca tinha feito um MBA. Por que nunca tinha escrito uma peça? Por que nunca tinha dirigido um filme de cinema, de verdade? Imaginar era tão mais fácil. Ele nem precisaria enfrentar reuniões de casting. Preferia, em seu poder de macropeão de telemarketing, como um deus de desktop, estar não estando. Pegou a .765, os protetores auriculares, entrou no cubículo de um metro de largura por dez de comprimento, mirou o alvo lá longe, onde havia uma foto sua de corpo inteiro, na cabeça.

14

[Haveria uma lenda na família de que seu corpo teria sido fechado no dia de seu batismo, quando uma cigana teria vindo pedir dinheiro na igreja e seu pai, assustado, lhe passaria uma esmola ¬– a cigana, gorda e vermelha e eterna, talvez houvesse cruzado três vezes com a moeda sobre a testa da criança, pronunciando palavras rústicas que empalideceriam o padre, um pouco enciumado, quem sabe, ao ouvi-la dizer ao menino: “está fechado para o Mal” e desapareceria da igreja, sem pegar a esmola, uma moeda deixada sobre o umbigo dele – até hoje guardada, numa pequena corrente de prata, em seu peito.]

15

Henrique, o Peixoto já ligou 5 vezes querendo falar com você.
Fala para ele tomar uma cervejinha, refrescar a cabeça…
Rico, você tá esquisito. Tá com um jeito estranho ultimamente. Quer perder a conta? Eu não estou a fim de ir procurar emprego na outra produtora. Ainda.
Quer dizer que você me abandonaria, honey? Depois de tudo?
Olha só, gato, tou contigo há 10 anos, tivemos bons e maus momentos juntos, alguns deles em cima dessa sua mesa aí, e olha que eu estou sendo boazinha e falando só dos bons. Mas não tou a fim de ficar aqui a vida inteira, como seu guarda-chuva, sua espada de Jedi.
Então você me abandonaria… Tá se achando, né? Ultimamente você só reclama. Olha, acho que você precisava era dar uma levantada no astral, malhar, tirar essa barriguinha…
Excesso de gostosura, seu trouxa. Olha só, Rico, eu visto a camisa da produtora, e, como eu disse, até já tirei a camisa, só que a produtora não é a minha vida.
E o que é sua vida?
Minha vida são meus gatinhos, minhas histórias em quadrinhos e meu fuminho no fim da noite, uns filminhos, um carinha gostoso do lado…
Tudo no diminutivo, né, Li?
Pois é. Podia também ter acrescentado à lista o seu pintinho, mas preferi sair fora antes. Não vai mesmo falar com o Peixoto?
Eu já não disse que não estou, ô carioquinha?
E já que não está, o que está fazendo aqui?
Li, mais uma dessas e você está despedida…
Oba, com justa causa eu ganho mais. Até amanhã.

16

Depois mais nada. Depois almoçar. Depois folhear os jornais. Depois ler as revistas semanais. E os últimos boletins de propaganda. Os jornais econômicos. Os e-mails dos conhecidos. Talvez comprar um presente para o filho – alguma coisa educativa, um jogo. Ou desestressar na banheira, tomando um vinhozinho seco. Ou relaxar praticando tiro. Isso. Se livrar dessa dor nas costas. Toca o telefone.

A gente tá descendo pro Guaru!, grita o Renatão na outra ponta. Qual é, meu irmão, já caiu no ratatá, que voz é essa? Vez em quando Henrique se sentia estúpido soltando essas gírias. Não podia pagar de tiozinho, porém. E os caras do outro lado da linha tinham linhas boas a oferecer.

A gente tá saindo da Bolsa daqui a uma hora. Alugamo uma van e catamo umas mina no Bahamas. Vamo cair hoje pro Guaru, e voltar amanhã cedinho! – berrava o Renatão, no meio do pregão, do celular –, aê, vamo aê, vai ser mó barato.

Uns amigos que tinha feito quando dirigiu um filme institucional para a Bolsa de Mercado Futuro – perdiam uma Ferrari num dia, ganhavam uma cobertura no seguinte, ele acabava trombando esses idiotas. Até já tinha negócios com alguns deles. Pensou na mulata. No filho. Pensou em Matutu.

Foda-se. Guaru, Guarujá, era do que ele precisava, da energia dessa galera. Mesmo que galera não fosse exatamente um termo de pessoas adultas, sorriu.

Nessa, falou pro Renatão. Cês passam aqui?

Na volta, o mendigo lá. Inescrutável. Inflexível. Infecto – moscas ao redor dos dreads a imitarem satélites, exclamações estelares. Que coisa fica pensando esse cara o tempo todo, meneou Henrique por dentro a cabeça, feito espantasse um mosquito. Tinha até medo que olhar para o mendigo acabasse se tornando como aquela obsessão que teve pela mãe de seu filho. Não sossegou até que não visse a festa de 500 convidados no Jóquei Clube – e depois não sossegou até que tivesse o divórcio. Sossego, coisa longínqua. Não é que quisesse paz. Mas qual seria o norte a habitar os olhos rasos do imperador da calçada, observando a pacificada cidade da morte do outro lado da avenida, onde elementar se esgarrafava o lettering

ESTA PORTA SE FECHARÁ ÀS 17H30

? Entrou na pick-up, ligou o som – Jorge Ben –, girou a chave, se enfiou no trânsito, a mente imersa em uma história de que ele já não detinha o domínio.

17

Enquanto as sete horas de viagem giravam, ele se sentia vivo – e escutou A Tábua de Esmeraldas de Jorge Ben umas quinze vezes. Sentia-se um Trismegistus sem nega, negativamente total. O que estava no alto era o que estava embaixo, e ele via-se como, livre de código de barras, fosse a constelação de si mesmo, seu norte embutido no mesmo livre-arbítrio, universo guiado pela iluminação de seu ego – não haveria transcendência para além dele, circundado por espelhos.

Foi quando se distraiu, saiu da estrada e acertou um poste.

As exclamações brancas na cabeça, um tiro – snif.

A testa toda cortada, sozinho na via, ele colocou sua mochila nas costas e saiu andando, sem nem se despedir de sua pick-up. A moeda em seu peito tinha sido arrancada. Muitas horas depois, lá pelas quatro da tarde, entrava o vale do Matutu. E uma semana mais tarde, circundado por cavalos, talvez às três da manhã de um dia qualquer – já conseguia dissolver os dias da semana –, ele espiava o céu e o imaginou implacavelmente imóvel, como se o tempo houvesse se detido e ele vivesse um instante além de si: afinal de contas, era uma espécie de negro nascimento.

O que lhe dava o estatuto de pai de si mesmo. Seu nome, inclusive, não era ele, mas este era o nome que seu pai-dele-próprio havia-lhe escolhido. Pensou: aqui é a última embalagem. Serenou, nego, serenou. E segura, sacode. Daqui, não emergir. Tudo sobre ele teria propriedade. Num dos canais para o interior da Terra. Havia ali cachoeiras antigas. Nascentes, brumas. Obstáculos e renúncias. Profundos maremotos para dentro das montanhas. Aquelas rochas eram habitadas por um vasto ser inominado, que se movia debaixo das copas das árvores como um músculo, um elefante cavalgando de dentro de um tigre, ebúrneo ser de si fazendo fronteira, dentro, preso, rês. Imantado, se sentia.
Talvez por isso seu esporte favorito fosse se enforcar – pendurar-se numa corda no batente da cozinha e ficar observando, ao longe, a cachoeira da Fumaça, as mãos sob o queixo, segurando o laço, e se perguntando durante horas:

– Por que não soltar as mãos agora?

18

E aí, bonitão. Charmosa essa cicatriz. Alguma briga?
Nada disso, honey. Caí da bicicleta mesmo, tinha cinco. Tá a fim?

E Henrique traçou uma linha de pó sobre a caixinha do Tábua de Esmeraldas, estendendo em seguida um dólar enrolado a Silvia, seja lá que nome tinha a baixinha cover de Danielle Winitz. Estavam na grande cobertura de Renatão na praia de Pernambuco, Guarujá, cinco homens, cinco garotas de programa, alguns comprimidos de viagra, outros de ecstasy, vários papelotes de cocaína e algumas garrafas de Johnnie Walker Black Label. A baladinha ia ser uma jaca – uma morena estilo Valentina fazia um strip em cima de “Menina mulher da pele preta”, um reclamando da cloaca em que se encontrava o Corinthians, outro xingando os juros altos do ministro, dois ali já dando um conferes numa ruiva, sorrisos de prozac.

O celular tocou novamente.

Henrique, o Peixoto não gostou da história da Incrível Mulata e Seus Vinte Leões. Disse que está pensando em fechar outra produtora com a agência.
Agora não posso falar disso, Liliane. Estou prospectando um contato importante, depois te falo. Beijo.

A garota à frente era loira e não devia ter mais que vinte anos, filezinho, toda cheia de sardas, uns ombros bons de morder, dava até pra apresentar pra mãe, pensou Rico, se ele tivesse uma.

Disse que, claro, era modelo, mas estudava jornalismo e reclamou das mensalidades da faculdade. Reclamou também do noticiário, chapa-branca demais, segundo ela. Disse que pensava em largar o jornalismo e fazer um curso de fisioterapia, com especialização em massoterapia e física quântica, sabe, curar as pessoas, eu gosto disso. Putas politizadas. Balada fina mesmo, pensava Henrique. A ereção ligou de repente e ele se sentiu ridículo como quando tinha que esconder o pau duro no ginásio, de manhã. Silvia tinha olhos de peixe abissal, austral, anal…

Quero cheirar tuas aréolas…
Minhas o quê?
Vamos ali na varanda…

Talvez não fosse muito sutil – e pra que isso, agora? O sol se punha e Vésper despontava perpendicular sobre o mar opaco do Guarujá enquanto Henrique deslizava para baixo, com a língua, o top verde-água da quase-jornalista. Ela riu quando ele tirou o papel do bolso e pôs-se a esfarinhar-lhe o mamilo em espirais, constelações de cristais em seus poros, a pele subitamente brilhante, nossa, assim você me deixa maluca – aí, o celular tocou de novo.

Agora não, Liliane, depois falo com você…
Pai? Oi? Alô?
Oi, meu filho, tá tudo bem com você..
Tá tudo bem, pai. Mas pai? Eu queria dizer um negócio!
Um negócio – Silvia ria com a voz infantilizada de Henrique, a circular-lhe com pó o outro mamilo, celular preso no ombro –, que negócio, filho?
Que a mulher de branco agora tá aparecendo de tarde!
A mulher de branco…? Ah, merda! – o celular escorregou do ombro e, antes de bater na borda da varanda, foi espatifar a voz do filho nos rochedos lá embaixo.
Hum, papai, que aconteceu?
Merda… Henrique sentiu uma pontada na cabeça ao ver o tom de verde do mar, oscilou. Não era a mesma cor do morro Bico de Papagaio?
Meu filho, ele está com umas alucinações…

Os seios de Silvia, ele salivava em flocos de neve, tinha dado dois tiros já e a garganta pegava. Sede, e os grandes mamilos, dois morros, dois picos, como naquele lugarejo em que esteve, olhos fixos, espetados numa árvore, acusadores, um rio de leite e mel entre eles, para onde olhariam? Vem cá, putinha, Henrique sussurrou, caindo de língua na cor branca, queria a mente em claro, sem fantasmas de filhos ou contas de clientes, milhares de agulhinhas nos dentes, o dedo no cu de Silvia, seus olhos nos mamilos olhos – um avião cruzava o céu, perder o controle, estava na hora de isso acontecer, por que não marcou na agenda antes.

19

Achou que deveria tramar o próprio assassinato. Enganaria seu invasor por algum tempo. Falou com o vizinho, a dez quilômetros dali, um carpinteiro, e anunciou que gostaria de contratá-lo para que o matasse. Ele até pagaria um advance. O sujeito recusou, alegando falta de tempo. Eu pago adiantado, não se preocupe, sério, tá aqui a grana. Mas o carpinteiro grunhiu que matar uma pessoa dava muito trabalho, tinha que se preocupar com a mira, com o corpo, com a arma, não ser visto, culpa, ausência de culpa, alma, a perda da alma, enfim, tudo tão complicado, se lastimava o carpinteiro, melhor era continuar fazendo cadeiras a matar gente, não, obrigado, e seguiu fumando o seu baseado.

Assim, já desiludido com essa primeira recusa, com medo de não conquistar mesmo nenhum assassino a seu soldo – que mercado és, que me abandonais quando mais de vós preciso? –, ele começou a brincar de se enforcar, e até mesmo se masturbava quando amarrava uma corda no pescoço. Anoxia, tinha lido sobre isso em algum lugar, quando se preocupava com coisas com jornais, o que eram jornais? Ali não haveria espaço para isso – anunciar que a árvore da frente de seu rancho estava mais verde do que ontem? –, viveria num tempo impublicável, quando as coisas ainda não tivessem nome.

Mas, apesar de parar de conversar sobre governo, personagens de TV, futebol, agricultura, e fosse cada vez mais genérico em suas abordagens com os vizinhos, gente que ele via às vezes somente uma vez numa semana, voltando do mercadinho na casa-sede – minha mulher está grávida, ontem machuquei o ombro, este cavalo me dá um trabalho danado, engraçado, não tem chovido –, fugira tanto e viera se reencontrar no mais puro lugar comum, um paraíso achatado, onde as pessoas andam rastejando e ele brincava de se enforcar, de noite, naturalmente, lá longe a lua tremendo no rio, peixes, pedras, desespero.

Que aquele ente sob as teias graníticas das montanhas emergisse sob sua pele – um polvo em olhos de nanquim – como se recém-nascesse de si mesmo expelida porra pela garganta, as marés da lua, maravilha, língua na terra, mandrágora. Destilar de si o seu veneno não custaria mais que sete encarnações, pensava, os olhos navegando no céu de Lúcifer, a estrela da manhã.

20

Estava na cozinha, escarrapachado feito um grande cachaço sobre uma borbulhante poça de vômito, uma dor encalacrada abaixo do ventre – era o pau, teso, a sustentar todo o peso do corpo, a bunda pra cima e o gargalo de uma garrafa de uísque enfiada no rabo. Filhos da puta, grasnou, tirando a garrafa. Ah, não – o microondas indicava seis e meia da manhã. O que tinha acontecido? Até onde se lembrava, estava rachando uma morena com o Renatão, enquanto chupava a loira. Outro vexame, caceta?

Levantou-se, achou um banheiro, enfiou a cara e a careca na torneira.

No espelho, a cicatriz em seu rosto mulato reluzia como a própria lua crescente. Uma briga de faca, no colégio público onde havia estudado, faz muito tempo. Foi logo depois dessa facada que Henrique jurou nunca mais ser um fodido perdedor, e o espelho lhe lembrava dessa promessa todo puto dia.
Mas hoje estava fudido, embora tivesse fodido a noite toda e a cabeça de cima fosse uma bigorna, a cabeça de baixo um martelo arregaçado e rubro, o ar cintilante como da vez que tinha tomado daime em Matutu – como havia sido mesmo? Não, não queria lembrar, esse lugar estava lhe tomando por dentro como um câncer, esses sonhos e as imagens, tinha que cair fora dali, na sala todos os outros estavam meio semimortos pelados em cima de algumas putas e outras garrafas, um deles até parecia que tinha se cagado, porra, é o Renatão, corno. Tentou mijar, mas com o pau duro, acabou molhando a barriga, e o jeito foi tomar um banho.

Quando saiu, Silvia apareceu chorando, passando um creme nos mamilos.

Meus seios estão coçando… acho que foi o pó.

Abraçou Silvia, por trás, lembrando-se do fantasma do filho: será que ele tinha conseguido dormir? E por que aquele pau de merda não abaixava? Passou a língua na tatuagem em suas costas, um sol branco coroado por raios, semiluas com cheiro de creme dermatológico, deu um leve engate nela. Seca.

Vou fazer um café, gemeu a baixinha, enxugando aquele olho de mel oceânico e empurrando-lhe o pau. Porra, que caralho, vocês vão acabar com o cacete podre de tanto tomar essa merda. Levantou, ficou um tempo olhando para ele. Passou as mãos no rosto, e esboçou um sorriso, e, antes de entrar na cozinha, riu: credo, Rico… Cê já viu sua cara?

21

Bom dia – do batente da porta, onde brincava de se enforcar, avistou a chegada sutil de uma menina loira, que trazia pela mão um cavalo amarelo, mascando flores também amarelas. – Posso cantar uma música, plantar bananeiras, ser sua mãe ou ler seu futuro.

Leia meu passado – ele desceu da corda, estendeu-lhe a palma branca da mão preta.

Ele depositou um joelho no gramado, a menina pegou lenta sua mão como se fosse fuligem, a pele um óleo quente. Correu o dedo indicador da mão esquerda por suas inexistentes linhas:

Tudo indica que você foi um peixe na outra vida. Talvez um tubarão. Mais pra enguia elétrica. Mas, para a próxima vida, uma dica: não brinca com cobras. Elas estão mais perto de você do que você pensa. – Passou a mão nos cabelos, estendeu os dedos abertos num sorriso: – um real.

Um real? O que era mesmo um real?
Espera aí, vou buscar lá dentro…
Entrou no rancho, sua sala vermelha, tecidos nas paredes, espelhos nos quatro cantos, atrás de um deles seu dinheiro. Voltou-se para a porta.
A menina tinha ido embora.

Buzinas, máquinas registradoras, motosserras, rotativas, relógios, furadeiras, motores, jatos, liquidificadores, cadeiras de dentistas, hélices, engrenagens, sirenes de navios… Pegou o relho e começou a castigar-se, uma pancada por sobre o ombro direito, uma pancada sobre o ombro esquerdo, até desmaiar de cansaço e uma chuva imóvel espalhar seu sangue sobre a terra.

22

MARTE APROXIMA-SE DA TERRA
das agências internacionais

Quem tem olhado para o céu noturno com certeza já reparou em Marte e sua cor alaranjada: até finais de setembro, será o objeto mais brilhante no céu, a seguir a Lua. Este aumento de brilho deve-se à aproximação da “oposição” de Marte, que ocorrerá amanhã – dia 27 de agosto de 2003.

A Terra desloca-se a 20 km/s à medida que percorre o seu circuito anual à volta do Sol. Marte, mais longe do Sol e com menor atração gravitacional por este, gira em torno da estrela a uma velocidade 20% menor do que a da Terra. Assim, a cada 780 dias [cerca de dois anos e dois meses], a Terra, que seguia no encalço de Marte, alcança o planeta vermelho; depois, ultrapassa-o, e segue à sua frente, distanciando-se progressivamente. A maior aproximação entre os dois planetas se dá quando o Sol, a Terra e Marte estão, por esta ordem, alinhados. Ou seja: visto da Terra, Marte está exatamente na direção oposta ao Sol. Nesta situação, diz-se que Marte está em oposição.

Em média, o raio da órbita da Terra é de 150 milhões de quilômetros, enquanto que o de Marte é 1,52 vezes maior. Numa oposição típica, Marte aproxima-se da Terra em 52% da distância Terra–Sol. Contudo, as órbitas da Terra e de Marte são elípticas; os planos destas órbitas não estão exatamente alinhados: assim, nenhuma oposição de Marte aproxima os dois planetas de forma igual.

A próxima oposição de Marte ocorrerá às 7h51 de 27 de agosto de 2003. Desta vez, Marte irá se encontrar a apenas 55,76 milhões de quilômetros da Terra [37% da distância Terra–Sol]. Esta é a maior aproximação desde o ano 57 537 a.C. – só será superada a 28 de agosto de 2287 d.C.

Quando Marte se encontra em oposição, seu disco aparente é maior. Nesta oposição que se avizinha, o diâmetro aparente do planeta – batizado com o nome do deus romano da guerra – será de 25,1 segundos de arco. Marte, com seu belo tom alaranjado, já se apresenta excepcionalmente brilhante. Tanto na semana anterior, como na semana posterior a 27 de agosto, seu brilho é quase igual a seu brilho máximo [magnitude –2,9]. Depois, o planeta vermelho irá diminuindo sua cintilação à medida em que a Terra se afasta dele.

Com um diâmetro de cerca de metade do da Terra, mesmo em oposição Marte é alvo difícil para ser observado em detalhe. Porém, contando com boas condições atmosféricas terrestres – e marcianas –, um bom telescópio de 70 mm deverá permitir a observação de alguns pormenores de sua superfície: as calotes polares; regiões escuras, que são áreas de rocha ou de poeira escura; e zonas amareladas, cobertas por poeira fina, as áreas de deserto.

23

Após contornarem a casa-sede, ele e a menina foram andando por uma vegetação rasteira e líquida, o barro pegando. Daí passaram pela primeira ponte sobre o rio, curta como uma vírgula, e atravessada por algumas nuvens de borboletas amarelas. Poucas pessoas a cavalo surgiam a cada dez minutos, e depois de uma hora, mais ninguém. Um pasto de ovelhas, os bichos pareciam de pedra preta.

Plantações de rochas circulares –ali moravam lagartos e marimbondos. Longos bosques de árvores cujo fruto ele jamais haveria de provar, muitos sabores para uma só vida. Árvores gigantescas, sumarentas e suadas, de que ele não sabia o nome. Apeou do cavalo, ele ficou solto – a mão da menina loira firme na dele, o vento lhe grudava o suor no corpo, a calcinha, os mamilos formigas quietas. Então, após a vigésima porteira, troncos e folhas foram se avassalando de tudo, só persistindo uma ligeira trilha marrom envolta em raízes e cipós, as árvores crescendo assustadoras, o sol cada vez mais tímido, um frio humoso lambia a pele, a menina suava na mão, as linhas se comunicando em línguas invisíveis.

Virando uma curva no desfiladeiro, logo após um campo de trigo, outra trilha, tanto menor, surgiu entre duas árvores.

A menina puxou-o para ali, um caminho em que as copas das árvores estavam quase ligadas.

Pirambeiras, e, súbita, uma clareira: muitas pessoas, uma roda, alguém no centro, roupas brancas, seis homens de um lado, seis mulheres de outro, movimentos binários. O rio, sempre ele, de novo corria perto, manso, contornava, com uma curva suave, aquele lugar santo. Ele e a menina tomaram seus lugares. Uma monótona canção era entoada. E a cerimônia teve início.

24

Puta situação. Permaneciam já há duas horas presos num trânsito da avenida dos Bandeirantes, se arrastando como toletes de merda para o Itaim, todos fudidos da vida dentro do carro, maldormidos, bafentos – ereções impávidas sob as calças sociais. Henrique sentia tremores, segurando o jornal que tinha comprado há pouco, que exaltava o fato de Marte estar próximo da Terra. Grande merda.

Bem que o doutor o alertara, não estava bem, tinha que praticar esporte, parar com essa maldita cheiração, vida saudável estava na moda agora, porra, não estamos mais nos anos 80, tipo, contratar um personal trainer. Meia hora depois, mais perto de sua produtora que de seu apartamento, como já eram nove e meia preferiu seguir direto pro trabalho, se alguém estranhasse seu estado fosse reclamar com a concorrência.

Vou saltar aqui, por favor, ele pediu ao motorista da van. Valeu, galera.

Ninguém respondeu.

A loira Silvia tinha colocado um cartão no bolso de sua camisa branca, toda amarfanhada.

Se cuida, honey…
Você também. E vê se não acredita nos jornais, idiota, rebateu ela.
Como acreditar em qualquer coisa, se qualquer coisa em que acreditasse poderia tomar forma? Parou num orelhão, ligou para a casa da ex-mulher.
Ele está na escola.
Sabe se ele dormiu bem?
Ele chorou um pouco antes de dormir, disse que quis falar com você, mas você não atendia o telefone.
Meu celular caiu no mar… lamentou-se Henrique.
É mesmo? E por que você não foi junto?
A ex desligou na cara dele.

Olhou para o outro lado da avenida. Não queria saber se o mendigo estava ali ou não. Não queria saber dele. Não agora. Deu a volta por trás do cemitério.

Na produtora, Liliane estava preocupada, o sotaque carioca cada vez mais no grau.
Nossa, como você está nojento, Rico. Tu tá fedendo a putaria forte, sabia?
Olha a boca, Li… Você ainda é minha funcionária.
Por isso mesmo. Alguém tem que te dar um toque. Olha, tou preocupada. Se a gente perder essa conta agora, vai ter que dar uma bela enxugada nos gastos pro segundo semestre. A coisa não anda tão boa assim.
Olha, você diz ao pessoal que hoje eu não vou trabalhar… Estou péssimo, à beira de um ataque nervoso. Vou ao médico… mas não diz isso pra ninguém.
Vai sim. Eu vou ligar para o Peixoto e dizer isso…
Não diga nada. E… Li…
O quê?
Como a gente escapa de um pesadelo?
A gente acorda.
E quando a gente não consegue acordar?
Bom, sempre tem alguém que balança a gente.
E se a gente dorme sozinho?
Aí o negócio é apelar pro anjo da guarda.
Não acredito em anjo da guarda…
Em que você acredita?
Nos meus 20 leões em Cannes.
Então por que não dorme com eles, caralho?
Saiu da produtora e deu a volta pelo quarteirão de trás. Não queria ver o mendigo. Pegou um táxi, subiu até seu flat, ficou olhando para o cartão de Silvia, só seu nome de guerra e seu celular, se enfiou sob os edredons, dormiu.

25

Ele pegou o copo e bebeu. Gosto ruim – de antes das coisas terem gosto.

26

Fosfóreas – as pranchas à luz da lua crescente. Se espatifavam nas pedras da pequena baía, logo na entrada da praia. Às vezes, eles gritam!, contou o filho, naquela vez que fora para sua casa de Itamambuca. Ouvindo essas histórias do filho, às vezes, Rico queria se transformar em um playmobil de madeira que ardesse em fogo, Judas em sábado de plástica aleluia, enxugava as lágrimas nos cabelos do menino. Neste nosso deserto, filho, não há mais gafanhotos para os santos fritarem seus sermões, pensou Rico, no escuro do quarto, na crônica insônia das 3 às 6 da manhã, quando, já era um hábito, pressentiria seu próximo sonho – nunca tinha se sentido tão possuído pela imaginação, como se tivesse uma namorada o espiando de dentro, longas pernas feitas de olhos brancos puxando-o para dentro.

27

Eles cancelaram a produção. E também cancelaram a conta, chiou Liliane. Tirando discretamente um teco de pó que tinha ficado perto da narina esquerda, e coçando sua cicatriz sob o olho, o tique, Henrique falou:
Honey, pede praquele boy novo me trazer uma cerveja. Preta.

28

Desse dia em diante resolveu não cortar mais a unha do dedo mindinho. Não cortaria mais os cabelos, também. Deixaria que uma nova barba ruiva invadisse suas caras crispadas. Uma nova vaidade? Gritava contra a Via Láctea: como me esquecer? Como agarrar a lógica pelo rabo, quando desprevenida? Hoje andaria sobre os carvões ferventes do princípio da noite, enquanto a fogueira estivesse se agitando ainda. Ficaria sem comer por uma semana. Que delícia cansar-se, palmilhar pelo vale, catar suas entranhas, ser por ele entranhado, deglutido, vomitado.

Bom dia – disse a menina loira, de novo. Ele havia dormido encostado numa árvore, na mata, a camisa lanhada e endurecida de sangue. – Você não quer ir à missa com a gente?
Missa? Eu não sou católico.
Tudo bem. Ninguém é católico lá. A gente dança e canta, toma o chá e vê o mundo.
O chá?
É. Vamos? Estendeu os dedinhos, longos, ectoplásmicos.

Ele montou no cavalo, que ela levava por um leve cabresto. De cima, sob o vestido branco da menina, ele podia ver seus mamilos, brancos. Ela toda era branca, cabelos, pele, olhos, os pés umas gotas, lírio de lodo.

29

Sangue em seu pau, quando ele arrancou do cu de Silvia, os cabelos loiros grudados nas costas, seu corpo fundo na cama – o vermelho do sangue, o bege dourado da bosta. Ele havia se enterrado ali – quanto tempo? E a luz do sol batendo nas costas loiras afundadas na cama, cortada em barras, pela luz que entrava nas frinchas da veneziana – virou aquelas bundas redondas, perfeitas, socou forte nos peitos grandes sua porra, rápidas chicotadas. A cabeça rodava – saiu rápido de cima dela, correu para o banheiro e vomitou, um longo tempo, até a garganta quase se fechar. Convulso, corpo todo tomado por olhos que caminhavam arquejantes, não sabendo em que corpo mais morava, punha o melado pau na pia, lavá-lo, o caralho sangrava ainda, porra, puta dor, lamentou, parece que rasgou o freio.

Você tá legal?, perguntou ela, lá da cama.

Ele olhou para a loira, um piercing rutilando no umbigo, no escuro. Pensou em falar algo; entanto, não queria escutar o som da própria voz – não queria saber que voz sairia. Pegou sua câmera digital, devassar aquele corpo era muito difícil, havia muitas e muitas camadas, impossível descobrir o que havia nessa loira após o advento do Photoshop. Largou a câmera cair no tapete. Jogou-se na cama, enfiou fundo os olhos pretos nos olhos amendoados de Silvia, procurou neles o espírito do Deus Zero, sorriu – boa noite, honey –, desmaiou.

30

Contaram a ele que haviam comprado toda a montanha, de cima a baixo. Somente 50 famílias. Moravam ali há uns 20 anos, detinham toda a posse do vale. Era uma perfeta comunidade autocentrada, com leis próprias, tradições do tempo em que escutavam Pink Floyd na cidade – agora trabalhavam a sua terra, faziam as suas roupas, comiam sua comida. E ainda eram conectados com a internet, assistiam tv, os cabos corriam por debaixo da terra, nunca em postes, todas as casas voltadas para o nascente, a quinhentos metros de altura, tendo no fundo do vale, à direita, a descida da cachoeira da Fumaça. E a voz do homem se espiralava como o som bovino de seus olhos tristes, estamos aqui há muito tempo, conhecemos a vida dessas raízes, a merda de nossos animais, a linguagem dos seres sem tamanho. Por que você não vem morar conosco?

31

Pelo novo celular, conferiu a conta bancária, movimentou alguns investimentos, e pediu uma puta e uma pizza, para dali a duas horas, quando chegasse na penthouse. Por enquanto, jogou pó em cima do retrato do filho mesmo, contornou o rosto do menino com cocaína, cheirou, colocou um CD de Charles Mingus, buscou a “Untitled original composition take 5”, acendeu um cigarro, catou no frigobar outra cerveja preta. Assim fica difícil abandonar a vida moderna, distraía-se Rico, o dedo médio enfiado no cano da sua .765, entrando e saindo.

32

Como se ele fosse uma serpente ruminando um boi, como se fosse o boi, a língua do boi, o verme na língua, o verme e o veneno enchendo-o de enfileirados olhos em todas as camadas das tripas, num cansaço tenso como morrer, abandonar-se a nenhum nervo, sugando um seu tutano, o corpo vibrando no ventre de um avião, de um estrebuchante porco. A menina loira estava além da outra margem do rio Matutu. Sorria para ele, simples paisagem lunar contra as leitosas águas do meio-dia. Ela virou-se mais para dentro do rio, nos ermos da mata, as pernas desaparecendo no leite, e o vestido branco, molhado, tinha subido um pouco, ele pressentia ali um quarto de lua surgir prateado a prenunciar seu abismo. Deu alguns passos e cravou os dentes nesta paisagem.

33

Hoje estacionaria mais longe. Em vez dos cinco quarteirões, dez. Andar. Voltar ao normal, porra. Passou em frente à Paraíso das Delícias, entrou, pediu café, suco de laranja, croissant de queijo, na TV um desenho animado, um tiozinho tomava a terceira talagada do dia, agora mandando ver com um pururuca e o caderno esportivo. O homem pode ser deus, mas se preocupa em amarrar os sapatos – cogitou Rico, as mãos tremendo a xícara. Hoje tomaria a decisão. Antes, ir ao urologista ver esse caralho desse pau inchado. De tarde, comunicar a venda da produtora. Entregar o negócio a algum amigo – se é que tinha sobrado algum. Pagou, acendeu um cigarro, saiu. O sol, forte. Pedir Liliane em casamento. Daria leite a seus gatos, fumaria seu fuminho, e quem sabe a levaria junto com o filho na próxima viagem a Itamambuca, e ainda fizesse ver a ele que fantasmas não existem – só há a espada de Marte sobre nossas cabeças. O suor lhe caía em cascatas nas pálpebras.

O mendigo, um buda rastafari, observava um centímetro acima da cerca de arame farpado que vedava a entrada de pessoas não autorizadas naquele cemitério, do outro lado da avenida.
Um centímetro acima. Viu o mendigo, até com certa alegria aproximou-se dele, fazia tempo que não o encontrava – se o mendigo colocasse seus olhos vagos nele, talvez até lhe desse uma grana, de repente.

O que ele olhava?

Para atravessar a avenida, teria de circundá-lo, exatamente à sua frente; somente assim captaria o olhar do rei da calçada: e foi andando mais devagar, um olho no trânsito outro no mendigo, de leve pisando, para não atrapalhar seu vôo sedimentado, uma gentileza, talvez, caminhando de lado, caranguejeiro, o suor nas pálpebras, o sol vindo junto com os pára-brisas dos automóveis que se aproximavam, o metal das carcaças pulsando e derretendo e respirando e suando sob o calor, em pálidas explosões lentas, não como num filme, mas como na vida real acontece, os olhos do outro finalmente se cruzando com o dele – os olhos brilhantes de um Pajero preto arremetendo sobre seu corpo, o ferro quente de três diamantes tatuando o peito.

34

Quando você voltar da outra vida, vem me buscar – pediu ele à menina loira, sob o luar, enquanto acariciava seu pescoço, logo sob as mínimas orelhas, os polegares massageando, pressionando.
Eu não te contei? – riu ela, se espreguiçando na relva úmida, beira do rio, olhos acesos por mil partículas.
O quê? – ele vinha, e os olhos da menina cresciam.
Nós – ela dizia, acariciando os cabelos toscos que nasciam em seu crânio –, nós já estamos mortos.

35

O mendigo mergulhou no mar de metal, Moisés de terreno baldio – outros carros se engavetaram atrás do Pajero – e, respirando forte, chegou até ele, caído no meio da avenida: em sossegado espanto, a testa toda cortada, filetes de sangue escapando das orelhas e do nariz. Ajoelhou-se, estendeu a mão para a cabeça lisa de Henrique, uma carícia. Eu tentei te avisar, soprou o mendigo, limpando o suor da cicatriz sob o olho, uma lua crescente. Seus olhos olhavam só para ele, e depois não viu mais nada.

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Matutu [MG]–Vila Madalena [SP], primavera, 2001-2003.

Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

Mind the gap


Lay down all thoughts, surrender to the void
It is shining, it is shining
John Lennon

Uma simples parada em Covent Garden poderia render uma história de amor. Uma simples garota com quem se come batatas fritas numa lanchonete. Uma simples garçonete num pub. O Agente Especial, 25, paulistano, sabia que tinha outra garota presa dentro da garota, mas não sabia se isso era um déjà vu ou uma premonição – o velho problema. Táxis pequenos, comida vietnamita e uma saudade idiota de correr os olhos pelo capim-gordura de uma fazenda em Minas Gerais. O embaço não era o Brasil: era simplesmente ir embora. Embora do quê, forasteiro? Há poucas situações na vida. Comemos, amamos, cagamos, morremos. Inútil esgotar o tema pra além desses quatro pontos cardeais. Exatamente agora tinha uma conjunção de dois sentidos, numa esquina: e o gosto da batata no dente seria o sabor das batatas fritas nos dentes dela, french fries em qualquer lugar do mundo, comunhão tubércula em massa – ele só queria ser uma batata numa fazenda de Minas Gerais, plantada pra sempre.

Tens haxixe?, Cleo sorriu torta, flores vermelhas no bolso do casaco, os cabelos hiperpretos pela testa, ketchup a boca vazava. Ele passou um guardanapo pra ela:

Não… Mas acho que eu tenho algo importante pra te falar. Você não é você. Tem alguém aí dentro.

Don’t be a fool… we all have another persons inside… Se tu não sabias disso… é porque tu és doente e unidimensional… não deve ter ninguém aí dentro… Another selfish man… égoïste… Deve ser por isso que tu és branco… feito papel sulfite…

Tá bom. Então me preencha.

Sorry… I can’t… Tu bem poderias cobrir-me… numa noite de frio… como os homeless… e seus jornais…

Eu não posso ser um jornal. Mas – gostaria muito de ser um embrulho pra presente.

Que seja… um embrulho para presente… And I’ll be… your pretty cadeau…

A primeira vez que se abraçaram ela tremeu como uma gatinha friorenta. Seus cabelos eram negros, longos, olhos de um azul gris, a cabeça uma efígie de moeda, e ainda tinha uma pintinha pulando no canto do lábio. Mas, o Agente intuía, haveria mais alguém dentro daquela francesa com sotaque português.

Disse Cleo coisas como seu pai ser maçom e que a cicatriz na testa tinha se criado numa queda da bicicleta aos sete anos e que tinha vindo duma aldeia tramontana e que sonhava ser dançarina árabe e que dividia o apartamento com uma amiga, num subúrbio do subúrbio, pra lá da Chelsea Bridge… O táxi seria caro – tudo bem: a Divisão paga tudo. O discman dela foi povoar os ouvidos dele com uma canção dos Beatles: ele tinha ido a Abbey Road de manhã, especialmente pra atravessar a mesma calçada da capa do disco e pedir ao lambe-lambe que o clicasse. Por causa da foto, mancava – tinha tirado os sapatos pra encarnar Paul McCartney antes da senilidade e pisou num pedaço pontiagudo de lata; os ingleses sabem ser porcos.

Feed me – ela pedia, enquanto chupava seu pau. Rape me – ela pediu, antes.

Não, mas bem antes de matarem essa fome e a anterior, num fast food idiota, ela e o Agente jogaram sinuca num pub, cada um numa mesa. Fritz the Cat Pub – na parede sobre o balcão, um gato preto pintado. Ele se lembrou – observando, espanto morno sob as lâmpadas frias do bar, que suas mãos não deitavam sombra sobre o feltro verde –: tinha sonhado, a noite passada, que um gato preto deduraria um segredo. Solitário, passou rodadas inteiras mandando sinuca solo e sacando a morena Cleo, que tinha visto numa livraria – ela fazia um bico de vendedora –, uma das garçonetes do pub, esta noite de folga, jogando snooker na mesa doutro lado com mais umas três pessoas, e fingindo que não o conhecia. Nublada como a boa menina inglesa que fingia ser.

Certo momento ela deixou o giz azul cair no chão e se abaixou sem nem flexionar as pernas. A saia cereja e preta subiu – sua calcinha branca, uma última luz. Ela logo percebeu que alguém a enquadrava e rapidamente girou o pescoço pra trás, bem na hora em que ele pretendia que não a estava sacando e mirava a caçapa do meio – o resultado foi que espancou a bola com uma força fudida e ela voou de sua mesa até pousar na mesa de Cleo, batendo na preta e, após uma, duas tabelas, matando a redonda na caçapa do fundo.

Quatro olhares revoltados se fincaram. Um insulto ao Império Britânico. Bloody brasilians, chiou o barman.

O Agente foi andando de lado, envergonhado da façanha besta, pegou a bola, voltou, a depositou na mesa. Fez um v da vitória para o garçom – hey, respect, remember two-thousand-two –, mas, antes que os dândis virassem hooligans e sua pistola queimasse sob o sovaco, resolveu ir até o banheiro.

Dentro do reservado, em cima da privada, estava o gato Fred Astaire. Uma mancha preta que gingou de um lado para o outro e avisou:

Fica esperto que logo vai te procurar um cara chamado Mark Sandman. Ouvi dizer que tem uma conspiração ou coisa assim e ele está meio que acobertando aquela mina na mesa de snooker que você estava olhando. Recebi uma ordem da Divisão dos Não-Lineares pra que você saque qual é a jogada. Conversei com o Agente Sorall e ele falou que tem a ver com Mark Chapman. Ou com o Santo Agostinho, não me liguei bem. Soltou um miado curto. Ah, outra coisa. Você saiu de casa sem sombra. Pega mal.

O gato disse isso e escapuliu por debaixo da porta do reservado. Durante quase cinco minutos o Agente mijou, até ficar exausto – não aliviado, porém. Caçou as cápsulas de anfetamina e encaçapou pra baixo, enquanto alisava a água nos cabelos, pra trás. Quantos meses – anfetaminas ecstasys ácidos – ele não dormia? Mais de ano? Não se lembrava de como era no tempo em que dormia. E seu rosto nunca tinha se parecido tanto com ele como hoje. Mu, ele mugiu pro espelho. Muuuu. Um dia, vou parar essa merda de trabalho e ter um sítio em Minas, refletiu. Mesmo que Minas Gerais fique em Papua, mascou, e saiu fora. Bem na hora em que a garota chegava no toilette.

Precisa de ajuda? ofereceu ele, estupidamente.

Course not… acho que sei trocar meu tampax sozinha, mandou ela.

Estava mesmo pensando em tomar um vinho, devolveu o Agente, de volta pra sua mesa. Depois de invadir outra mesa com uma bolada, pedir um Beaujolais naquele pub metido especializado em cerveja preta era pedir para apanhar, mas o Agente estava só e melancólico. Precisaria de mais umas missões pra conseguir o dinheiro pro sítio, e não matava ninguém tinha semanas. Por enquanto, o a fazer era investigar a conexão entre o reverendo Sandman, o assassino Chapman e a menina. Pensou: que bom jogar isso para o alto e ler alguma notícia do São Paulo. Notícias do seu time do coração…

Mas lembrou: não tinha nenhum time do coração. Na verdade, detestava futebol. Achava que, ao se imaginar torcendo pralgum time – e, pra ele, que detestava bola, o melhor time devia ser mesmo o São Paulo, o time dos vencedores metidos a besta –, pertenceria a alguma coisa, ainda que algum tipo de farsa em que seria, em vez de protagonista, figurante, pois todo homem precisa ser parte duma torcida: o credo brasileiro.

Tinha um tempo que já não era brasileiro. A última vez que se sentiu assim foi num terreiro de macumba, quando mesmo? Sem querer, sem acreditar, tinha incorporado Ogum. Pra ele contaram depois, o baque surdo no peito: ôôôôôôôô! Dois litros de cana escadas abaixo, uma garrafa cheia de pimenta no estambo – tu não lembra nada, mas tomou e comeu tudo isso aí, deve dar pra coisa, riram os colegas de Divisão que o tinham levado lá. Por que não vira pai de santo, véi? Nada disso, muito trabalho. Nem tinha saco pra ficar preso num quartinho 30 dias só comendo lixo. Um dia, quem sabe – viajou, procurando no peito o patuá. Melhor continuar com esse emprego. Um emprego que ele não sabia exatamente o que era – pagava os remédios, entretanto. Girou o dedo indicador na pedra preta, em seguida a deslizou na testa, depois nos lábios, e aí, na manha, no próprio pau.

Pegou o jornal e escaneou os resultados do turfe. Cold Turkey estava ganhando demais, pensou. Tomando algum aditivo? Dia desses catou um papo na internet sobre o primeiro emprego de Mark Sandman, antes de se tornar filósofo-reverendo: ele tinha sido bookmaker, ali mesmo em Londres. Em seguida, foi trampar como pescador no Rio de Janeiro. Pra certas pessoas, o passado nunca passa – se fragmenta em múltiplas possibilidades. Pro Agente, tudo passava, nada ficava nele – ele era um rio em que nada se banhava duas vezes. O porvir, o que interessava: seu corpo seria devastado pelas novidades, sua cabeça doía demais e ele tinha se acostumado a viver como quem foge duma conspiração.

Your wine, sir, veio o garçom. Aquela menina disse que é por conta dela. By the way, o futebol foi uma invenção nossa, assim como o snooker.

You’re right, Rudolf. Mas, até onde eu sei, o cara que inventou a roda nunca conheceu Steve MacQueen. Testou o vinho. Cheers.

Seqüência 3: entrando no prédio de Cleo, sentiu um cheiro estranho e familiar. O cheiro familiar era de repolho. Puta que pariu. Como os ingleses gostam de repolho. Não podem mesmo entender de comida, se comem o próprio peido, veio na cabeça. O cheiro estranho parecia ser incenso, sândalo – cigarro de cravo, quem sabe. Subiram pela escada de incêndio – o Agente olhou pros lados, a mão no sovaco: não, não tinha nenhum vietcong esperando pra fazer ele. Anotou no miolo: preciso caçar aquele psicanalista e curar duma vez essa paranóia de ver vietcongs fumando gudang garangs atrás da escada – não pegava bem ter uma psicose oriunda de imaginário colonizado; certo era ter alucinações com Sacis Pererês e Mulas Sem Cabeça e Cumadres Fulôzinhas. Caíram pra dentro. Na sala, um sofá rarefeito, um tapete roto, almofadas furadas. Ela tirou o cd do discman e o colocou no cdplayer – I’m not a superficial girl… Tenho poucos cds… e estou numa fase Rubber Soul… Se não te importas em ouvir de novo… Um narguilé, um quadro de Ganesh, uma janela prum fundo infinito de janelas – um apartamento de fundos. Pelo menos tinha calefação. Na seqüência, um banheiro, um quarto dividido por um biombo. Meu quarto não tem nada de mais… nem vou te mostrar… To the kitchen, get something to drink… Ela sorriu, dentes tomando conta da epiderme – huh… preciso avisar-te… tenho um submarino no meu quintal… Excusez-moi… Não tenho como explicar…

Na mesinha da cozinha, retangular, um pote com pot e uma Dazed & Confused velha, sedas soltas, um laptop aberto, um vaso com lírios, um baralho, um prato enquadrando uma baratona morta. Cleo pegou o prato, o virou na sacada na área de serviço, um corredor mínimo saindo pela porta dando para um terreno baldio – o tal quintal –, e o jogou na pia. Não o convidou a se sentar – só tinha mesmo uma cadeira. Tirou dum armário de fórmica uma garrafa de absinto: trouxe de minha última viagem a Praga… Conheces Praga?

Sim, morei em Praga há uns dois anos. Praga… Cheers. O absinto pegando na garganta. Foi em Praga que eu entendi que sou troncho e não me entendo com as pessoas… Esbugalhou-se para o tubo-periscópio: uma sombra? Nessa época, trabalhava como redator de manuais para automóveis que o Brasil importava da Tchecoslováquia, morava num estúdio às margens do Vitava… Não, foi só um relâmpago. Bebeu de novo o líquido verde. Sorrindo meio dura, ela abriu a palma da mão e esfregou-a com força no púbis do Agente. Suave, aguda, esperta.

Uma garota que tem um submarino no quintal não pode gostar de safe sex… It’s ok for ya?

Por que será que vocês, inglesas, têm tantas nuvens nos olhos?, ele provocou.

Tomorrow never knows – murmurou, se jogando úmida no peito dele, deslizando de lado, mole, até ficar de costas, lã xadrez em jeans –, take it or leave it…

Sobre amanhã ainda nem pensei… respondeu ele.

Foi como encher a boca de raiz forte, bem ali, no batente da porta entre a cozinha e a sacada da área de serviço, sacando a chaminé em forma de periscópio prateado hastear sua bandeira branca e vaporosa.

Foi bem ali, suas calças arriadas, a calcinha rasgada, o pau dele doendo, doendo, não era possível mergulhar no maelstrom sem doer – ele e ela doíam. Foi bem ali, abraçados ao batente, na nuca da menina uma estrela de fogo celta e os dentes dele tão morenos. Foi bem ali que ele deixou de novo de pensar e desligou seu narrador off e abriu braçadas pra dentro do único abismo em que se reconhecia como num espelho, não ser, não mais existir, e assim querer casa, lá onde as coisas não têm mais nome, nem explicações, um soldado olhando fixo no olho do inimigo, vento, solidão, solidão nenhuma, céu dissoluto, movimento e movimento, céu dissolvido, túnel pro susto: bem ali, do nada, de fora do azul, pro sul, o sul – o sul. Antes de gozar, os dedos flexionando-se em seu clitóris, passeando por deliciosas dobras magnéticas e resvalando pelo barbantinho do absorvente, ele lembrou de um velho bangue-bangue: quem vai atirar primeiro?

Amor verdadeiro só existe pros perfeitos estranhos.

Nisso a porta se abriu e surgiu outra garota, ventando. Sorriu pra eles e se atirou sobre a pia: Estou morta de sede… Wow! Vocês são uns loucos, transando com essa porta aberta…

Meio sem graça, o Agente se diminuía de dentro de Cleo, que abraçava suas pernas, rindo devagar, um sininho entre as coxas. A outra menina, loira, alta, esguia engoliu a água, jogou o copo na pia, girou nos calcanhares, tirou da bolsa uma minipolaroid e fotografou o casal se desacoplando: Como vocês são lindos, estão tão lindos, que pele linda…

This is Zed, Cleo apontou pro Agente. And this is Lara, soltou, passando a mão no seu queixo. Depois do flash, Lara veio, abraçou os dois, um selinho leve nos lábios deles. Well… gonna take a shower… preciso ir dormir logo hoje… acho que amanhã vou pegar aquele trabalho bem cedo… E ainda tenho o ensaio do espetáculo de bellydancing… don’t you forget, huh… Excusez-moi…

Sumiu da cozinha do mesmo jeito que entrou. Cleo se virou de frente e deu um beijo nele – não o tinha beijado até então, a boca bem aberta, a língua passeando por todos os dentes, dentro da gengiva, se enrolando na língua dele como uma cascata de facas sabor morango. O Agente conseguiu se abandonar no beijo sem perguntas, ocupado em exercitar suas técnicas, de bicicleta numa reta para o abismo, que bom seria se não tivesse um beijo depois – se este fosse o último estaria redimido de todas as suas mancadas. Ela se insinuou lenta pra orelha dele, depois o pescoço, daí descendo pelo peito até chegar ao pau horizontal, lambendo devagar, respirando fundo pra captar o cheiro dos dois impresso naquela pele avermelhada, vertical, envolvida em saliva quente, devagar, até que o Agente se excitasse de novo… Sou uma sarça ardente nua no deserto – ele imaginava –, estamos trancados neste deserto celta e eu perdi minha passagem pro último submarino. O chuveiro trazia notícias do banho de eucalipto envolvendo a pele de Lara e os dedos dele abriam as senhas da garota que pedia, a língua dando voltas:

Me alimenta… me alimenta…

A pele de Lara, cerveja solar, múltiplas gotas de pinho. A nuca de Lara, lua tatuada. Queria que seu corpo fosse corrompido por sensações sem nome, sobrenome, pseudônimo… e a cada dose, tudo o que tinha era uma mentira da primeira, uma lembrança: da primeira foi melhor. Da primeira tudo foi free, a amostra grátis que o viciava sempre, sempre dessa sensação que queria se recordar quando de dentro pra fora – aquele escape possível de si mesmo, atravessando pra outra face; mas impossível, na novidade o germe não vingado, seu desejo arruinado, montanhas de cristal gelando as veias, flecha parada… No alvo. Quando abriu os olhos, os olhos azuis de Lara o observavam pelo tempo de uma maçã envenenada. Passou a língua pelos lábios finos, violinos cítricos, trazendo a porra pra boca, à última gota. Inteira, num sorriso, soprou-lhe o odor de seu sumo na cara, feliz: merci beaucoup.

Ela se levantou, terna, o abraçou. A primeira vez que se abraçaram ela tremeu como uma gatinha friorenta. Seus cabelos eram curtos, loiros, seus olhos de um gris azul, sua cabeça uma efígie de moeda, e ainda tinha uma pintinha pulando no canto do lábios.

Olha… me desculpa por te falar isso… but you gotta go…

Mas… e a Cleo?, ele espantou-se.

Que Cleo? Não conheço nenhuma Cleo… Suspirou. Olha… me desculpa mesmo… mas é que tenho aula de dança do ventre amanhã bem cedo… tinha te avisado… O beijou no peito, filou um cigarro da bolsa – mulheres são mesmo clichês ambulantes, pensou o Agente. Talvez… sábado vou ter que trabalhar de manhã… a gente podia ir ao Museu Britânico de tarde… fica ali perto…

Ah essas inglesas e seu fog peculiar pós fogo. Ainda se perguntando de Cleo, o Agente olhou fundo nos olhos azuis de Lara, os cabelos curtos de Lara, as saboneteiras angulosas de Lara, trampolim pra um perfeito suicídio. Virou pro lado, o submarino ainda fumegava, sua pele arrepiava. Frio. Boca seca. Os pés se moveram sozinhos, o corte nos dedos latejando. As calças subiram, zíper fechado, mãos nos cabelos: posso ir ao banheiro?

Antes de entrar no aposento minúsculo, olhou pro quarto – alguém por trás do biombo?

Ainda muito vapor no lavabo. Espelhos baços, algo fora do lugar. Logo percebeu que era Fred Astaire, o gato.

Isso sempre te acontece fácil, hein?

E o que é que você tem com isso?

Essa aí não era aquela louca que comia livros no Hyde Park?

Não, véi, essa foi no verão passado. Essa aqui era aquela menina que trabalhava na livraria especializada em roteiros, ali perto do Museu Britânico, tá ligado?

Você olhou por trás do biombo, no quarto?

Não.

Besta. Assim, nunca vai sair da Divisão dos Não-Lineares. Do your job man.

Não lavou as mãos, queria ficar com o cheiro de Lara nos dedos, queria guardar aquele perfume pra sempre, numa garrafinha mágica. Marchou decidido e silencioso pro quarto, em dois passos estava atrás do biombo. Frente a frente com Mark Sandman.

Sente-se, ele disse, grave.

O Agente puxou um banquinho e se reclinou devagar, fascinado pela luz que emanava do velho filósofo com cara de peixe morto. Mark Sandman era O Incrível Homem Que Não Doía. Uma lenda na Divisão: diziam que adorava comer gafanhotos pela manhã, e que isso ajudava em sua auto-anestesia, lembravam que estudou técnicas avançadas de acupuntura na China quando foi correspondente na Ásia – mas, na real, o Agente só o tinha visto uma vez antes, numa festinha de fim de ano da Divisão, quando Sandman subiu no palco pra tocar um blues safardana. Tocava baixo dum jeito esquisito. E, porra, pecado dos pecados, usava a camisa para dentro da calça, com cinto.

Preste atenção: há rumores de que Mark Chapman escapou da cadeia trocando de lugar com um guarda. Este homem é uma verdadeira bomba – foi instruído por Charles Mason para terminar seu trabalho. Sua nova missão é ir para Aix-en-Provence encontrar-se com O Escritor Recluso.

Como assim? Salinger saiu dos EUA?

Foi enviado pela Divisão de Não-Lineares especialmente para deter um massacre. Se Chapman chegar ao esconderijo de John Lennon na Provença, fatalmente irá encontrar Elvis, Jim Morrison e Raul Seixas no Heartbreak Hotel. Somente Salinger tem a chave do estabelecimento. Mas você sabe como ele é chato. Salinger precisa de provas para agir. Está esperando por isso. É para isso que você vai lhe entregar este envelope.

Oh Deus.

Pare com essa mania, Zed. Já te disse que Deus existe, só que é ateu.

Oh God.

Apertar a tecla sap não adianta. Está anotando o que eu digo? Não se esqueça de relatar detidamente os fatos: Salinger só nos ajudará se vir a foto da filha de John Lennon. Em breve, você receberá novas instruções. E não se esqueça das pílulas antes, durante e depois das refeições, meu filho. Tome este envelope e guarde-o. Você já sabe onde.

O reverendo apontou pro chão. O Agente ficou fascinado ao ver novamente sua sombra, sua velha amiga. Mas, quando levantou a cabeça após se delinear nos azulejos do banheiro, o filósofo tinha desaparecido. Ele colocou o envelope no bolso e, à francesa, buscou a saída, uma escada de incêndio, as ruas, os predinhos de tijolos vermelhos, aquela garoa, sapatos batendo fortes no chão, um ônibus velho, o metrô, keep your right, mind the gap, mind the gap. Seu peito batia devagar ao exagero. Tinha surtos de taquicardia combinados a longos períodos em que o coração atingia 25 bpm e parecia que todos os seus miolos estavam na pele. O momento da revelação. Alguma coisa queimava dentro do casaco.

No envelope. Era só uma foto, com uma moldura branca duas vezes maior. A polaróide enquadrando a ele e à garota, e atrás, a tubulação-periscópio. Do cano, saía o que parecia um rabo de gato. No fundo do envelope tinha ainda outra coisa. O recorte de um jornal – uma pequena imagem em preto e branco. Uma foto de um feto. Um feto de sete meses, dizia a legenda da foto. O que o Agente teria feito, sete meses antes? O feto feito para sempre, ainda imerso em uma felicidade que jamais sentirá de novo. Um erro, talvez, transar sem camisinha, ele pensou. Há quanto tempo estou em Londres? – falou alto, palidez rouca: na foto maior Lara Lennon sorria, suada, fantasmagórica, olhos cor do mar da Mancha.

Entre suas pernas, nenhum barbantinho de tampax.

O metrô parou na Victoria Station e ele subiu. Mind the gap. O que seria melhor – morrer rápido do veneno das mulheres ou morrer lento engasgado com uma batata do McDonald’s? Tirou do casaco sua foto em Abbey Road, colocou no envelope, e este na caixa 725XK. Daria adeus aos perfeitos e mortos gramados ingleses – Paris estava a duas horas. Às vezes, pensava que queria desistir dessa vida de soldado do caos; às vezes se lembrava de que essa tinha sido uma escolha sua… Na banca, antes de pegar o hovercraft, parou para filar um jornal brasileiro: o São Paulo tinha perdido de três a dois para o Corinthians. Mas que perfume maravilhoso nas mãos, pensou, passando as mãos no rosto, se lavando em mais um esquecimento.

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Londres–São Paulo, inverno, 1997-2002.

Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

Atrás do sol

Eles rastejavam atrás do Sol por séculos de poeira. O chão, um tapete persa mudando constantemente formas padrões cores desenhos – da boca de um tigre surgiam palmeiras jorrando cânfora almíscar garrafas de coca-cola –, às vezes afundava-se num fofo abismo sem dar aviso: era preciso ter cuidado. Criaturas não eram ainda. Nunca olhar pro céu, nunca olhar pra trás – cantavam, alegres, os mais moços –, o último que olhou aqui jaz, o último a chegar é um mané. Certos momentos, paravam, atirando-se nariz na terra de sombras. Riam. Uns comiam grama. Não faltavam insetos, tampouco pequenos animais. Carmesim – tudo em volta das pálpebras ao se abrirem.

Uma mulher rojou desesperada no encalço de um pato selvagem, joelhos sangrando: com a ave nas mãos e já na boca foi estuprada, comida que comida come. O filho, um bicho com olhos de lobo, nasceria sete meses depois, os dedos fincados já nas dunas, o pai fincado já noutra mulher. Eles iam rastejando. O Sol nunca esteve tão perto – cochichava um outro velho. Em todas as suas vidas. Um homem pode viver várias vezes: o Sol só vive uma vez. E este a cada minuto mais próximo. O filho da vizinha duma fila que não a primeira morrera afogado, engatinhando na superfície de um lago em busca do controle remoto do trenzinho. Neste inverno, seus pais fariam cinqüenta anos de casados. Acreditavam os mais velhos que não tivera fé suficiente o menino: tinha olhado pra cima. Um mané.

Suando, a gorda reclamou que seus joelhos estavam se assemelhando a cascos de cavalo; um homem de longas barbas pulou sobre o dorso dela e esporou-a rindo: então rolaram no solo e amaram-se debaixo da raiz de uma enorme árvore, enquanto os companheiros de viagem, andando ao largo, iam jogando-lhes terra. Aos noivos. Um certo homem, um homem não muito velho [embora nunca tivesse sido moço] havia tentado o Sol nas curvas de um desfiladeiro de metal pelo qual só passava uma serpente específica. Existem escritos comprovando ter sido aquele sujeito o único a encontrar o rastro; e que ele, um dia, voltaria para lhes mostrar o caminho verdadeiro.

Uma noite ouviu-se o coaxar de um sapo. Outra noite, o canto de um rouxinol. Na tarde seguinte ventava muito, e alguém disse ter ouvido o uivo de um mamute; na terceira noite, uma jovem bastante magra e branca expirava aos gritos o Sol, o Sol o Sol está dentro de mim, todos vocês são uns loucos, não agüento mais cheirar a bunda dos outros. Disseram os antigos tratar-se de um sinal sagrado. Disseram as mulheres tratar-se de falta de homem nas costas. Rastejando iam. As roupas das pessoas da fila do outro lado apodreciam pelo caminho. Perdidas nas farpas das rochas cristalizadas pelo petróleo e nos galhos amarelo-cromo-cobalto das árvores proibidas que alguns comiam com saudade do gosto da banana nanica.

Um jovem sem cabelos e orelhas veio na direção contrária gritando eu vi o Sol de perto, mas ele é azul, não posso jamais conformar-me com isso. Além de tudo é frio, urrava, rindo, com as línguas entre os dentes em sangue. Um grupo de menininhas discutia o que fazer com o tesouro do Sol, quando o encontrassem. Uma velha com roupas de lurex passou anunciando um novo modelo de joelheira que havia criado. Durava mais do que as outras – e ainda vinha com um bolsinho lateral onde você podia pôr a sua camisinha e seus anticoncepcionais.

Depois de muito tempo pensando, os sábios anciãos declararam solenemente que o jovem careca houvera se confundido com a Lua. Talvez, estivessem na direção errada. O ar na região era muito rarefeito. Havia, no entanto, quem confiasse que o Sol estivesse cada segundo menos distante. Eles rastejavam e falavam. Debateram-se por longo tempo, criaram o partido da vanguarda e o partido da retaguarda e o partido estático – mas logo se cansaram de fazer política de quatro. E continuaram meramente se arrastando.

Eles seguiram rastejando por muito tempo atrás de mim, pelo menos até onde os vi.

.

Primavera, 1989.

Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

Peça seu demônio pelo número

deus não é pai é padrasto
é dando que se recebe e tudo vai acabar em pizza eu roubo mas faço

meu nome é butthole kongo
eu mordi pra moça na clínica de bronzeamento artificial
desculpa mas mas mas nós não bronzeamos pessoas com baixa incidência de melanina na pele mas ela mascou o tuttifrutti balançando discreta o pé ao som do reggae mas
detesto reggae eu roubo mas faço rabisquei pra ela meu nome é butthole kongo e eu quero ser preto
[é foda ser albino meus olhos não se acostumam ao sol nas bancas de revista e eu nunca sairei na caras com essa falta de melanina se a vida é blues e melanina melando a cueca dos playboys ocultos nas cherokees da vida quando meu pai era um índio cherokee já minha mãe nunca dirigiu um carrinho de bate-bate]

eu quero ser preto lambi para ela eu pago eu roubo mas faço tó aqui a grana

[quando nasci um anjo morto pousou na minha testa; enfiei meu nariz em seu sexo e felei a música das esferas grávidas: minha mãe me ninava entre os escorpiões das cavernas de alto paraíso]
você não aceita dólar?
o senhor pode então preencher a ficha mascou ela mas
nenhuma pessoa na clínica fora nós dois adão e eva à beira da maçã o cenzinho um canudo bright lights inside our heads
vamos entrar na caverna hiperbárica meu amor meu nome é butthole kongo & é dando que se recebe & nós seremos deuses supersônicos supermelânicos dance with me billie jean is not my love is just a girl who says that i am the
ela ploc os olhos ploc você é o homem que eu sempre kiss
não sou homem meu amor sou um macaco albino meu deus é king kong subindo o wtc 11/9 don’t worry about it tudo vai acabar em pizza ou em umbigo
ela ploc os olhos ploc os peitos ploc mas mas
liga no último essa porra eu roubo mas faço
meu pau em sua buceta fritando você é o homem que eu sempre kiss mas

meu nome é legião

seu corpo derretido na câmara hiperbárica
[mamãe mamãe onde estais não me abandoneis]
escorpiões sob a pele
no boteco merda me dá essa de mussarela e uma pepsi com gelo limão e vidro moído
o pau um pouco chamuscado e doído e a menina frita no reggae que deus amassou
ela preta pra sempre eu sempre branquelo
mas pelo menos o pau duro
é dando que se recebe
paz no esgoto aos deuses de boa vontade
volto ao trampo

bom dia senhora meu nome é butthole kongo eu sou o funcionário do mês
aceita a promoção número 1?

Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

Manifeste-se em forma de pássaro


deus dá o frio conforme o cobertor
era o que eu pensava durante aquele campeonato de arremesso de anões na noite iluminada e seca de las vegas

sou o butthole kongo
o big brother da semana
o santo de cabeceira das famílias engajadas em enjaulamento precoce

eu só te digo que faz um frio ducaralho nessa cidade e eu só queria sentir o vento trazer o mar na minha cara
– como na época em que os sapos choviam e meus amigos riam de minhas piadas e em meus ouvidos somente um sino obscuro –
quem dá mais, quem dá mais
volte, mente, volte

little joe de minneapolis foi jogado pra lá de vinte e cinco metros de distância por big foot um negão de chicago viciado em speed
a aposta tinha sido de dois para um e eu perdi
[achava que aquele anão era meio gordo]
pobre little joe deslocou o ombro na queda pra além da caixa de brita
quis regatear com o bookmaker
mas com aposta de anão arremessado não se brinca
presságio de tambores
paguei e saí fora
fui beber com uns caras amigos de uns anões que trampavam num circo freak
uma mulher barbada lia uma revista de moda
dois homens-mãos mexicanos passavam o tempo jogando baralho
[um deles roubava girando sutil seu tronco sobre o lar-skate]
com gêmeas xifópagas de sotaque francês de new orleans
[uma delas trapaceava tirando discreta um ás do meio dos quatro peitos]
os caras do circo freak passavam muita fome essa época e há uma semana tinham comido seu amiguinho george
[seu bode preto de duas cabeças]
me disseram que depois disso sempre sonhavam com coisas aos pares
eu conseguia ver veias azuis se duplicando através da minha pele cristalina
– na época em que todos os lugares para onde eu ia eu via câmeras

como aquele meu vizinho sarará que noiou forte com uma parada na zona norte
do rio
carlos
vulgo carlinhos
dito zé-boquinha
[de tanto comer bolinho de aipim virou um gordo bujãozinho de gás]
zé boquinha curtia pichar um muro
de tanto escalar parede e portão e grade e pular de janela sarou a banha
e virou um cara bombadaço
mais rápido que a bala que matou kennedy
o cara era um artista
precisava ver os lugares por onde escapava dos guardas da polícia dos vizinhos das pessoas das casas por ele pichadas
sempre a marca registrada:

kk

que era o apelido que ele queria ter
ele odiava ser chamado de zé-boquinha
kk não era óbvio
achava o homem aranha uma bicha louca
era pirado sim no filme king kong
[foi daí que tirei meu nome – mais tarde explico]

eu tinha quinze e kk era meu herói
sempre encontrava kk escrito pelos muros da penha caxambi vila kosmos
um k certo outro invertido
porém aí o sarará caiu pesadamente no ratatá
começou a vender umas paradas do barraco onde morava com sua vovó
sofá tv rádio até a bomba do poço do quintal
só no pó
trepava nos muros trincado e pirava que tinha uns canas querendo pegar kk quando chegasse em sua kkasa
aí inventava umas maneiras escrotas de entrar em sua própria goma pelos fundos
escalando as paredes mais sinistras
até que um dia vi kk despencar no meu quintal feito manga madura
kk nem deu seta
pulava do prédio vizinho
no caminho tinha uma dessas grades com lanças de ferro
apontando o atalho pro céu
kk morreu bem quando eu tava fumando uma ponta no meu quintal
kk voou durante anos até morrer os olhos fixos na minha pessoa
faltava pouco para chegar no cafofo dele
e no final a gente da rua descobrimos que ninguém estava atrás dele
kk estava limpo
e morreu
limpo
olhos em mim

não teve tempo de conhecer las vegas
não teve tempo de desenhar em meu muro
um k certo outro invertido
um convite ao abismo

os mitos são invenções babacas de professores de cursinho
por isso em homenagem a kk
que eu virei butthole kongo
o imbecil do ano
phd em retardamento mental
em sua honra
quando voltei de las vegas
[estava ilegal e a imigração me pegou – é muito fácil pegar um macaco albino num cassino] arranjei um emprego de vigia noturno e agora moro nesta guarita rodeado de fotos de mulher pelada
um dia saio daqui porém
deus dá o frio conforme o cobertor
sou um cara ambicioso
e já comprei minhas latas de spray para selar o meu protesto contra a humanidade depois que a onu proibiu terminantemente a prática anti-humanitária do arremesso de anões em todo o planeta

cetáceos águias corujas macacos da noite manifestem-se
[quem dá mais, quem dá mais]
boa noite
butthole kongo
– escrevi com letras vermelhas no murão da mansão da esquina:::::::::::::

eu sou o cara que vigia a sua rua

Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

Suas mãos fazem gestos automáticos

deus dá asas pra quem não tem dentes
e nozes pra quem não sabe voar
costumo falar frases como essas no meu trabalho
as pessoas costumam rir
logo porém se lembram que sou uma criatura inferior e após concedido o sorriso voltam a suas preocupações
todos estão muito preocupados o tempo todo
as pessoas estressadas se preocupam com seus nervos
e muita química
este macaco albino aqui gostaria também de estar preocupado com eles
só me preocupo no entanto com minha própria mente
e com essa vaga impressão que um dia ela vai apertar o botão do subsubsubsolo
meu trabalho envolve segurança e movimento
sei que fui caronte em outra vida
sei que tive outra vida
melhor acreditar nisso que pressionar duma vez o botão de emergência
todos temos botões de emergência
menos butthole kongo
eu curto profundidades ignoradas
como um gêiser me escapo no espaço de mim mesmo
e ainda assim estou em contato com outros manés
escuto as mínimas emanações nos interstícios das paredes
ali bem onde o oco mora no tijolo
me esgueiro entre bons dias e sapatos de verniz e pianos e ternos e gestos automáticos e piadas sempre ouvidas pela metade
eu sou o homem automático
– sabe onde vendem um homem automático?
um que não faça gestos estranhos nem perguntas inadequadas demais
[sou eu quem detém o movimento para baixo: sou o anticaronte: o psicopompo]
assim, sem pompa nem circunstância decido adiar o giro do planeta em seu eixo
e desço a alavanca de repente

deus ::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: estamos caindo

bom dia
sou o butthole kongo
o ascensorista do sétimo diaaaaaaaaaaaaaa

Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

In the name of the copy-paste master

[para Jorge Cardoso – o Pai do Macaco]

deus ajuda a quem cedo madruga disparou meu chefe num semirisinho árabe na sala do depto de recursos humanos
amanhã por exemplo eu acordo às três da manhã para cair pro litoral e pegar onda bem cedinho
o dono da empresa diz a este subchefe de recursos humanos que eu tenho que me manter sempre jovem
como ele
que tem vinte anos mais que eu mas usa os tênis dos sobrinhos

o dono da empresa não gosta do fato de seu subchefe de rh ter deixado para trás a carreira de grande fodão da firma pra me tornar um mero maridinho monkey
é o que penso enquanto desbasto o jardim esperando minha esposa que foi tomar cerveja com os amigos
penso demais penso eu
em microondas

a capacidade de escrever coisas antes delas acontecerem não chega a ser um dom divino
é mais uma maldição
ou uma má dicção do destino

também pequenos cacos de vidro no alto dos muros que cercam os lares do meu país não deixam de ser um subterfúgio para o amor
trabalhei uma época na construção civil e sei como as pessoas gostam de erguer paredes separar uma coisa da outra é o princípio da civilização
até que separam os miolos da tua cabeça com um tiro

serei eu dois homens ou um só que o outro habita do lado inverso do dia?

eu não sei
as pessoas dizem adeus para mim
vozes invisíveis nos meus labirintos
bem o que é isso porque penso demais
sou somente o elo perdido
entre a tv
e o controle remoto
uma microonda exilada

comecei cortando as pequenas folhas do jardim e os galhos do limoeiro que tem minha altura meu modesto quintal de pequeno-burguês
arrancando as pestes os musgos as ervas daninhas e tudo o que me parecesse vil e mesquinho
vá se olhar no espelho agora mesmo e me responda com sinceridade

quem é que você pensa que é e com quem pensa que está falando???

não não há mais escada que nos acuda para qualquer paraíso em microondas curtas
enquanto isso os famélicos cães domésticos afiam os dentes nas latas de bonzo que seus donos se esqueceram de abrir
perceba como em todos os quintais os cães domésticos já comem no mesmo horário
preste atenção como os cães domésticos já estão se alimentando de segunda a sexta nos restaurantes por quilo

vá também olhar se não esqueceu a porta aberta
o gás aberto
a torneira aberta
a luz acesa
o portão destrancado
o alarme desligado
os cães destravados
tenho um problema com meus impulsos de macaco albino
nem me toquei que já não cortava os galhos das árvores
mas sim as patas do meu cão
e a língua de minha esposa
amanhã eu consigo um aumento de salário
e quem sabe viro vice-diretor do depto de rh

boa noite
tudo bem com o senhor
está frio hoje não
deus ajuda a quem cedo madruga como você e eu
sou o butthole kongo
seu criado
seu vizinho

Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

Na festinha de aniversário

deus mora nos detalhes
mas embora acredite nele ele nunca ligou no meu microcelular
mero detalhe

como cursores de computador crianças & brinquedos & bichinhos pulam pra todo canto na casa de preto famoso cantor de rock
de terno branco e óculos escuros
que na boa troca idéia comigo hoje que tou bacana nesses panos de gangsta
sou o superlegal professor de educação artística daquele colégio mauricinho de esquerda
meus albinos dreadlocks muquiados numa boina branca, se sou gangsta só falo de mim na terceira
afinal você coleguinha tá ligado que minha mente é uma guerra de serpentes e aqui tentamos manter o tal entusiasmo
nessa festa pro futuro ao som de música e brejas em lata
na sanha dos lobos maus tamos todos ocupados em manter nossos instintos de caçadores sob suspeita de nós mesmos
e submergimos eles com guaranás amendoins línguas de sogras videogames celulares truques

deus é o lobo de deus

?

por que nos abandonastes por que nos deixastes descer das árvores ao último dos estacionamentos subterrâneos dos shopping centers

beira da piscina gangsta comenta com preto dono da festa que tá estudando agronomia
joguei no jardim umas sementes dum puta fumo bom que mocozava dentro duma matrioshka diz gangsta enquanto enfia um hamburguinho inteiro na boca
que máximo, tu coleciona matrioshkas pergunta preto enquanto enfia um doguinho inteiro na boca
nem
foi um presente de uma mina russa
a quem conheci quando trampei na kgb
ah
& as sementes?
em três semanas, as três sementes cresceram três centímetros ostenta gangsta
olha só que interessante se entusiasma preto passando as mãos por sobre os ombros de gangsta na espreguiçadeira
deslizam perto deles três meninas vestidas de branco feito fadinhas
na trilha: sai sandy, entra marisa monte
uma delas de longos cabelos louros encaracolados coxas redondas mamilos despontando do vestido de renda
nove, treze anos?
também tou plantando conta preto
comecei a investir em ações, saca
tenho separado todo mês uns dez por cento da minha grana e boto na bolsa
tu vai guardando um pouquinho & aí investe dependendo do teu perfil no mercado
se mais agressivo, mais conservador
jesus alegria dos homens
às vezes me acho meio hum meio agressivo, saca, alô
seu celular toca jesus alegria dos homens de johann sebastian bach

deus mora nos detalhes
o diabo é o cenário

pais filhos netos sobrinhos primos amiguinhos splash na piscina
do outro lado da mesa lotada de hamburguinhos doguinhos refris cervejotas na parede um quadro pós-conceitual figurativo expressionista com calda de chocolate em que dez gorilas fodem numa jaula
muito divertido como fantasia diz bionda anfitriã mulher de preto ajeitando as presilhinhas de mickey nos cabelos pra gangsta
que devolve enquanto confuso enfia um hamburguinho inteiro na boca é verdade, dez trepando deve ser complicado administrar
filmando os peitos sinuosos e os lábios meio vesgos da anfitriã

deus eu provarei da carne do tempo e te vomitarei na cara

mesa ao lado ex-marido de bionda anfitriã funga por trás do rayban e conta ao pai de preto
o senhor ficou sabendo dum diretor duma agência de propaganda que ontem tava no sinal na sua harley davidson na avenida águas espraiadas & aí um motoboy apontou uma arma pra ele pedindo o laptop que tava no alforje da harley & aí depois que o publicitário foi assaltado surtou & jogou sua harley em cima da cg 125 do motoboy
& aí matou o cara na hora
a harley só entortou o guidão

ex-marido ri brincando de serra-serra-serrador com sarará filha caçula de bionda anfitriã com preto dono da festa
é isso mesmo concorda detrás de suas lentes varilux pai de preto enquanto enfia uma coxinha inteira na boca
com esse estresse na cabeça no trânsito o senhor às vezes brigado com a mulher chateado com o trabalho está só à espera de despachar um energúmeno
pois eu mesmo sussurra ex
você tem que se defender, né
comprei um 765
precisa ver
prateadinho
uma graça
material girl
não
não está comigo
deixei em casa, funga
material girl
só levo ele no carro durante a semana, alô
seu celular toca material girl de madonna louise veronica ciccone

mas no fundo descobri que sou um cara conservador semisorri preto desligando seu celular
súbito o papo entre gangsta e preto cortado por três minas de azul que trampam no buffet pedindo autógrafos pro preto que os preenche junto com o cheque usando o lápis de cor de sua outra filha
já gangsta ceva outra cerva o olho agulha nas coxas fofas da minazinha loirinha onzinha
céu roxo e cinza feito repolho podre
mosquitos ventam
gangsta pressente binóculos do prédio do outro lado da rua
de butuca na festinha
volta à piscina lembrando
seu celular não tocou nenhuma vez hoje
chato
todo mundo quer entrar na sala de todo mundo
não é por nada não – mas aquela mosca de cabeça branca na velinha no bolo de aniversário tá me encarando
11, diz a velinha
não é por nada não – mas a mosca é a cara do osama
ex de bionda vocifera pro pai de preto

& aí você se fode por causa desse filho de uma puta

preto dispensa minas de azul pagas & rubricadas e volta pra gangsta do que falávamos?
a gente especulava sobre o mercado
você se interessa mesmo por esse assunto? se preferir trocamos por outro
bsolutamente diz gangsta enquanto enfia um hamburguinho inteiro na boca
pai de preto brinca de serra-serra-serrador com caçula sarará
mercado futuro é um tema que me interessa para caralho diz gangsta
sacando cada pintinha nas costas da onzinha filha da mulher de cantor de rock com ex de bionda que mostra um desenho pro preto
ah, onze anos ok; onze anos tá limpo
na trilha: sai marisa, entra chico buarque
quanto é que tu investe por mês?
dezinho, vintinho, cicia preto, às vezes cinqüentinha
ex de bionda funga e vocifera pro pai de preto

um dia mato um

nós gatos já nascemos pobres
porém
já nascemos livres

se deus mora nos detalhes
butthole kongo flutuará em máscaras
de fora a fora
só para te ser fumaça
& fincará o fantasma em terra
clara
como a tua mínima maldade sem fiança

licença vou no banheiro
no wc no bidê no jornal na manchete CÃES MATAM AVÓ E NETA NA BAIXADA
no espelho sua cara de macaco macaqueia mas gangsta sai do wc
sobe uma escada
vira o último lance e dá de fuça com a última matrioshka
quem é você ela pergunta

sou butthole kongo
o melhor amigo dos papais pós modernos
e levanto o vestido da minazinha com o nariz

!

feliz aniversário

Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

O homem quadro-negro

deus deu

minha carapinha branca
provoca o respeito de todo o bairro
mentira
minha carapinha branca nunca provocou o respeito de ninguém
desde o médico que me tirou da buceta de mamãe
maldita hora
desde então o sangue branco nunca saiu da minha cabeça
o sangue nunca saiu de cima de mim
mas agora meu corpo sangrento está finalmente oculto por palavras
tem um cigarro, ô bacana?

chove
chove todo dia aqui no centro da cidade
meu coração está seco porém

abro a porta para o vendedor de seleções do reader’s digest
você aprenderá sobre as últimas descobertas médicas
maneiras saudáveis de ganhar peso
como combater o estresse
e dicas sobre como lidar com o seu dinheiro
além disso
seleções ainda lhe dá a oportunidade de participar com suas cartas e colaborações
isto poderá lhe trazer uma remuneração interessante se alguma de suas colaborações for publicada
apanhei o revólver
puxei o cara pra dentro
e o enterrei numa roupa de borracha preta
servia-o com os restos da cozinha
ele mofando no porão
escravizei também vendedores de bíblia
garotos da tfp
mendigos
órfãs
carteiros
vizinhas

o destino batia à minha porta
eu sabia que estava cercado por cobras e escorpiões
por isso eu jogava o destino no porão
nada pessoal

sem fazer alarde
serei sempre eu mesmo fugindo de mim mesmo
tentando não ser identificado
que tenha virado ninguém
só o chão que minha sombra pisa
escapando dos próprios reflexos
depois que passei no vestibular pra humano
só sacando os homens cuspirem
guardo um coração seco sob a embalagem

chove

noutro tempo
era eu o homem que ficava em casa
aguardando que o destino pousasse feito pássaro
era eu a própria arapuca
não acuso na experiência causas e efeitos
não é por isso que sou isto
não é por ter morado numa casa que agora uma não tenho
vamos parar com essa mania de entender as coisas progressivas
há nada progressivo na vida
só ao revés

tem um cigarro, ô bacana?

uni os corações de sete escravos num
os enterrei sob a macumba de sete luas
sequei
amarrei num escapulário
agora estão todos aqui
sob minha camisa
sob minha embalagem
sob minha carcaça velha

vagas pra carpinteiro
encanador
vendedor
representante
porteiro
mágico
espião
deus é uma tempestade de nomes
e eu nasci para ser seu quadro-negro

sou butthole kongo
o homem-sanduíche
& estou agora no cordão umbilical de minha vida
por isso me atrelo a ela por meu coração seco
coração seco
coração seco

chove

seco

Publicado por: rbressane | fevereiro 24, 2008

Easter Island

deus aqui se chama makemake
nos informa o vendedor de estatuetas
dado inútil quando você está sem um puto

o makemake de madeira custa 200 dólares
nos informa o vendedor
jornalistas se informam sobre câmeras
a minha armazena 400 bilhões de megapixels informa um repórter bicha
já os moai kiss my ass sopram pro mar turquesa

em hangaroa no hotel a arenga: sucata romântica americana & muitas libélulas & um copo d’água por 3 dólares
, velhos japas gringos dançando hula-hula informam: tudo vai acabar em banha trêmula

muito embora
não pareça educado deixar de aprender com a estupidez alheia
& provocar acidentes felizes
como a miss chile
que me informa
no meio de duas piñas coladas
dois peitos soltos
os rapanui ao pressentir a morte procuram as grutas de seus lagartos ancestrais
& nunca perdem o caminho de volta quando se tornam os fantasmas da noite

pradarias, cabeças enterradas e bosta por bosta lembram minas gerais
tudo eterno, severo, indiferente
e desperdiçado
inexiste magia em lugares encantados como esta fábrica de sombreros de pedra rubi
senão repórteres atrás de fatos fajutos e cercas de arame farpado
se queres saber do amor que fazem as pedras
detona um omelete com um ovo de pássaro sagrado
e esculpe um moai com a tua própria merda

e então surgirá um cavalo branco no alto do vulcão

sou um moai esperando pelos olhos que meu clã prepara
um golem enterrado saudoso de minha origem e da magia mana me comunicando com magma e peixes curados
o nariz pra baixo derrubado
palmeira solitária entre cactos que falam demais
não quero incomodá-los, mas vocês estão me incomodando
– maresia venenos fotos roem meu corpo há séculos
e assobios e gritos de perdizes superaquecem a luz da minha consciência
aqui neste vôo de moscas à espera que nosso rei retorne
se quiser minha foto nalguma revista
mesmo deitado e sem olhos importa é manter a aparência de homem-pássaro

céu

nesta última ilha, o dia é sempre mais longo que os teus arrependimentos
passo todos os dias olhando para o oeste
na esperança que meus olhos retornem do mar
aí provarei da carne das cores sem metáforas mumunhas cochichos

durante as guerras intestinas cada clã derrubou os moai do inimigo
agora 400 lábios beijam o mesmo chão que budas amassaram por amor aos talibãs
enquanto esquecem bitucas entre pretas pedras vulcânicas
nem todos se calam diante das pedras eternas
onde japas ricos se dissolvem em nitrato de prata
pássaros novos insistem em voar
e caem
em rano raraku, em torno a um morro em forma de mamilo, perto do mar
cavalos relincham e a grama cheira forte
somos todos peças de um xadrez de moscas e americanos que zunem
& as crianças maori riem do meu nariz de macaco e de meus cabelos brancos
me apontam e dizem que eu pareço makemake
makemake
makemake
earthquake

nunca sairei daqui

makemake é só o rosto de um deus sorridente
quantos campos de futebol cabem num vulcão?
quantos discos voadores couberam no céu de páscoa?
quantos deuses cabem no meu cartão de crédito?

pra crer nalguma informação
tem que passar pela morte
pois se fria a água, a gaivota não pode tomar o sonho
assim
só por delicadeza
só me resta subir ao mais alto rochedo
encher meus bolsos de pedras
me atirar no azul turquesa
tentar voltar à única polinésia real

a submersa

butthole kongo
um qualquer turista

fui

.
Outono, 2003.

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