Publicado por: faker | Fevereiro 24, 2008

Mind the gap


Lay down all thoughts, surrender to the void
It is shining, it is shining
John Lennon

Uma simples parada em Covent Garden poderia render uma história de amor. Uma simples garota com quem se come batatas fritas numa lanchonete. Uma simples garçonete num pub. O Agente Especial, 25, paulistano, sabia que tinha outra garota presa dentro da garota, mas não sabia se isso era um déjà vu ou uma premonição – o velho problema. Táxis pequenos, comida vietnamita e uma saudade idiota de correr os olhos pelo capim-gordura de uma fazenda em Minas Gerais. O embaço não era o Brasil: era simplesmente ir embora. Embora do quê, forasteiro? Há poucas situações na vida. Comemos, amamos, cagamos, morremos. Inútil esgotar o tema pra além desses quatro pontos cardeais. Exatamente agora tinha uma conjunção de dois sentidos, numa esquina: e o gosto da batata no dente seria o sabor das batatas fritas nos dentes dela, french fries em qualquer lugar do mundo, comunhão tubércula em massa – ele só queria ser uma batata numa fazenda de Minas Gerais, plantada pra sempre.

Tens haxixe?, Cleo sorriu torta, flores vermelhas no bolso do casaco, os cabelos hiperpretos pela testa, ketchup a boca vazava. Ele passou um guardanapo pra ela:

Não… Mas acho que eu tenho algo importante pra te falar. Você não é você. Tem alguém aí dentro.

Don’t be a fool… we all have another persons inside… Se tu não sabias disso… é porque tu és doente e unidimensional… não deve ter ninguém aí dentro… Another selfish man… égoïste… Deve ser por isso que tu és branco… feito papel sulfite…

Tá bom. Então me preencha.

Sorry… I can’t… Tu bem poderias cobrir-me… numa noite de frio… como os homeless… e seus jornais…

Eu não posso ser um jornal. Mas – gostaria muito de ser um embrulho pra presente.

Que seja… um embrulho para presente… And I’ll be… your pretty cadeau…

A primeira vez que se abraçaram ela tremeu como uma gatinha friorenta. Seus cabelos eram negros, longos, olhos de um azul gris, a cabeça uma efígie de moeda, e ainda tinha uma pintinha pulando no canto do lábio. Mas, o Agente intuía, haveria mais alguém dentro daquela francesa com sotaque português.

Disse Cleo coisas como seu pai ser maçom e que a cicatriz na testa tinha se criado numa queda da bicicleta aos sete anos e que tinha vindo duma aldeia tramontana e que sonhava ser dançarina árabe e que dividia o apartamento com uma amiga, num subúrbio do subúrbio, pra lá da Chelsea Bridge… O táxi seria caro – tudo bem: a Divisão paga tudo. O discman dela foi povoar os ouvidos dele com uma canção dos Beatles: ele tinha ido a Abbey Road de manhã, especialmente pra atravessar a mesma calçada da capa do disco e pedir ao lambe-lambe que o clicasse. Por causa da foto, mancava – tinha tirado os sapatos pra encarnar Paul McCartney antes da senilidade e pisou num pedaço pontiagudo de lata; os ingleses sabem ser porcos.

Feed me – ela pedia, enquanto chupava seu pau. Rape me – ela pediu, antes.

Não, mas bem antes de matarem essa fome e a anterior, num fast food idiota, ela e o Agente jogaram sinuca num pub, cada um numa mesa. Fritz the Cat Pub – na parede sobre o balcão, um gato preto pintado. Ele se lembrou – observando, espanto morno sob as lâmpadas frias do bar, que suas mãos não deitavam sombra sobre o feltro verde –: tinha sonhado, a noite passada, que um gato preto deduraria um segredo. Solitário, passou rodadas inteiras mandando sinuca solo e sacando a morena Cleo, que tinha visto numa livraria – ela fazia um bico de vendedora –, uma das garçonetes do pub, esta noite de folga, jogando snooker na mesa doutro lado com mais umas três pessoas, e fingindo que não o conhecia. Nublada como a boa menina inglesa que fingia ser.

Certo momento ela deixou o giz azul cair no chão e se abaixou sem nem flexionar as pernas. A saia cereja e preta subiu – sua calcinha branca, uma última luz. Ela logo percebeu que alguém a enquadrava e rapidamente girou o pescoço pra trás, bem na hora em que ele pretendia que não a estava sacando e mirava a caçapa do meio – o resultado foi que espancou a bola com uma força fudida e ela voou de sua mesa até pousar na mesa de Cleo, batendo na preta e, após uma, duas tabelas, matando a redonda na caçapa do fundo.

Quatro olhares revoltados se fincaram. Um insulto ao Império Britânico. Bloody brasilians, chiou o barman.

O Agente foi andando de lado, envergonhado da façanha besta, pegou a bola, voltou, a depositou na mesa. Fez um v da vitória para o garçom – hey, respect, remember two-thousand-two –, mas, antes que os dândis virassem hooligans e sua pistola queimasse sob o sovaco, resolveu ir até o banheiro.

Dentro do reservado, em cima da privada, estava o gato Fred Astaire. Uma mancha preta que gingou de um lado para o outro e avisou:

Fica esperto que logo vai te procurar um cara chamado Mark Sandman. Ouvi dizer que tem uma conspiração ou coisa assim e ele está meio que acobertando aquela mina na mesa de snooker que você estava olhando. Recebi uma ordem da Divisão dos Não-Lineares pra que você saque qual é a jogada. Conversei com o Agente Sorall e ele falou que tem a ver com Mark Chapman. Ou com o Santo Agostinho, não me liguei bem. Soltou um miado curto. Ah, outra coisa. Você saiu de casa sem sombra. Pega mal.

O gato disse isso e escapuliu por debaixo da porta do reservado. Durante quase cinco minutos o Agente mijou, até ficar exausto – não aliviado, porém. Caçou as cápsulas de anfetamina e encaçapou pra baixo, enquanto alisava a água nos cabelos, pra trás. Quantos meses – anfetaminas ecstasys ácidos – ele não dormia? Mais de ano? Não se lembrava de como era no tempo em que dormia. E seu rosto nunca tinha se parecido tanto com ele como hoje. Mu, ele mugiu pro espelho. Muuuu. Um dia, vou parar essa merda de trabalho e ter um sítio em Minas, refletiu. Mesmo que Minas Gerais fique em Papua, mascou, e saiu fora. Bem na hora em que a garota chegava no toilette.

Precisa de ajuda? ofereceu ele, estupidamente.

Course not… acho que sei trocar meu tampax sozinha, mandou ela.

Estava mesmo pensando em tomar um vinho, devolveu o Agente, de volta pra sua mesa. Depois de invadir outra mesa com uma bolada, pedir um Beaujolais naquele pub metido especializado em cerveja preta era pedir para apanhar, mas o Agente estava só e melancólico. Precisaria de mais umas missões pra conseguir o dinheiro pro sítio, e não matava ninguém tinha semanas. Por enquanto, o a fazer era investigar a conexão entre o reverendo Sandman, o assassino Chapman e a menina. Pensou: que bom jogar isso para o alto e ler alguma notícia do São Paulo. Notícias do seu time do coração…

Mas lembrou: não tinha nenhum time do coração. Na verdade, detestava futebol. Achava que, ao se imaginar torcendo pralgum time – e, pra ele, que detestava bola, o melhor time devia ser mesmo o São Paulo, o time dos vencedores metidos a besta –, pertenceria a alguma coisa, ainda que algum tipo de farsa em que seria, em vez de protagonista, figurante, pois todo homem precisa ser parte duma torcida: o credo brasileiro.

Tinha um tempo que já não era brasileiro. A última vez que se sentiu assim foi num terreiro de macumba, quando mesmo? Sem querer, sem acreditar, tinha incorporado Ogum. Pra ele contaram depois, o baque surdo no peito: ôôôôôôôô! Dois litros de cana escadas abaixo, uma garrafa cheia de pimenta no estambo – tu não lembra nada, mas tomou e comeu tudo isso aí, deve dar pra coisa, riram os colegas de Divisão que o tinham levado lá. Por que não vira pai de santo, véi? Nada disso, muito trabalho. Nem tinha saco pra ficar preso num quartinho 30 dias só comendo lixo. Um dia, quem sabe – viajou, procurando no peito o patuá. Melhor continuar com esse emprego. Um emprego que ele não sabia exatamente o que era – pagava os remédios, entretanto. Girou o dedo indicador na pedra preta, em seguida a deslizou na testa, depois nos lábios, e aí, na manha, no próprio pau.

Pegou o jornal e escaneou os resultados do turfe. Cold Turkey estava ganhando demais, pensou. Tomando algum aditivo? Dia desses catou um papo na internet sobre o primeiro emprego de Mark Sandman, antes de se tornar filósofo-reverendo: ele tinha sido bookmaker, ali mesmo em Londres. Em seguida, foi trampar como pescador no Rio de Janeiro. Pra certas pessoas, o passado nunca passa – se fragmenta em múltiplas possibilidades. Pro Agente, tudo passava, nada ficava nele – ele era um rio em que nada se banhava duas vezes. O porvir, o que interessava: seu corpo seria devastado pelas novidades, sua cabeça doía demais e ele tinha se acostumado a viver como quem foge duma conspiração.

Your wine, sir, veio o garçom. Aquela menina disse que é por conta dela. By the way, o futebol foi uma invenção nossa, assim como o snooker.

You’re right, Rudolf. Mas, até onde eu sei, o cara que inventou a roda nunca conheceu Steve MacQueen. Testou o vinho. Cheers.

Seqüência 3: entrando no prédio de Cleo, sentiu um cheiro estranho e familiar. O cheiro familiar era de repolho. Puta que pariu. Como os ingleses gostam de repolho. Não podem mesmo entender de comida, se comem o próprio peido, veio na cabeça. O cheiro estranho parecia ser incenso, sândalo – cigarro de cravo, quem sabe. Subiram pela escada de incêndio – o Agente olhou pros lados, a mão no sovaco: não, não tinha nenhum vietcong esperando pra fazer ele. Anotou no miolo: preciso caçar aquele psicanalista e curar duma vez essa paranóia de ver vietcongs fumando gudang garangs atrás da escada – não pegava bem ter uma psicose oriunda de imaginário colonizado; certo era ter alucinações com Sacis Pererês e Mulas Sem Cabeça e Cumadres Fulôzinhas. Caíram pra dentro. Na sala, um sofá rarefeito, um tapete roto, almofadas furadas. Ela tirou o cd do discman e o colocou no cdplayer – I’m not a superficial girl… Tenho poucos cds… e estou numa fase Rubber Soul… Se não te importas em ouvir de novo… Um narguilé, um quadro de Ganesh, uma janela prum fundo infinito de janelas – um apartamento de fundos. Pelo menos tinha calefação. Na seqüência, um banheiro, um quarto dividido por um biombo. Meu quarto não tem nada de mais… nem vou te mostrar… To the kitchen, get something to drink… Ela sorriu, dentes tomando conta da epiderme – huh… preciso avisar-te… tenho um submarino no meu quintal… Excusez-moi… Não tenho como explicar…

Na mesinha da cozinha, retangular, um pote com pot e uma Dazed & Confused velha, sedas soltas, um laptop aberto, um vaso com lírios, um baralho, um prato enquadrando uma baratona morta. Cleo pegou o prato, o virou na sacada na área de serviço, um corredor mínimo saindo pela porta dando para um terreno baldio – o tal quintal –, e o jogou na pia. Não o convidou a se sentar – só tinha mesmo uma cadeira. Tirou dum armário de fórmica uma garrafa de absinto: trouxe de minha última viagem a Praga… Conheces Praga?

Sim, morei em Praga há uns dois anos. Praga… Cheers. O absinto pegando na garganta. Foi em Praga que eu entendi que sou troncho e não me entendo com as pessoas… Esbugalhou-se para o tubo-periscópio: uma sombra? Nessa época, trabalhava como redator de manuais para automóveis que o Brasil importava da Tchecoslováquia, morava num estúdio às margens do Vitava… Não, foi só um relâmpago. Bebeu de novo o líquido verde. Sorrindo meio dura, ela abriu a palma da mão e esfregou-a com força no púbis do Agente. Suave, aguda, esperta.

Uma garota que tem um submarino no quintal não pode gostar de safe sex… It’s ok for ya?

Por que será que vocês, inglesas, têm tantas nuvens nos olhos?, ele provocou.

Tomorrow never knows – murmurou, se jogando úmida no peito dele, deslizando de lado, mole, até ficar de costas, lã xadrez em jeans –, take it or leave it…

Sobre amanhã ainda nem pensei… respondeu ele.

Foi como encher a boca de raiz forte, bem ali, no batente da porta entre a cozinha e a sacada da área de serviço, sacando a chaminé em forma de periscópio prateado hastear sua bandeira branca e vaporosa.

Foi bem ali, suas calças arriadas, a calcinha rasgada, o pau dele doendo, doendo, não era possível mergulhar no maelstrom sem doer – ele e ela doíam. Foi bem ali, abraçados ao batente, na nuca da menina uma estrela de fogo celta e os dentes dele tão morenos. Foi bem ali que ele deixou de novo de pensar e desligou seu narrador off e abriu braçadas pra dentro do único abismo em que se reconhecia como num espelho, não ser, não mais existir, e assim querer casa, lá onde as coisas não têm mais nome, nem explicações, um soldado olhando fixo no olho do inimigo, vento, solidão, solidão nenhuma, céu dissoluto, movimento e movimento, céu dissolvido, túnel pro susto: bem ali, do nada, de fora do azul, pro sul, o sul – o sul. Antes de gozar, os dedos flexionando-se em seu clitóris, passeando por deliciosas dobras magnéticas e resvalando pelo barbantinho do absorvente, ele lembrou de um velho bangue-bangue: quem vai atirar primeiro?

Amor verdadeiro só existe pros perfeitos estranhos.

Nisso a porta se abriu e surgiu outra garota, ventando. Sorriu pra eles e se atirou sobre a pia: Estou morta de sede… Wow! Vocês são uns loucos, transando com essa porta aberta…

Meio sem graça, o Agente se diminuía de dentro de Cleo, que abraçava suas pernas, rindo devagar, um sininho entre as coxas. A outra menina, loira, alta, esguia engoliu a água, jogou o copo na pia, girou nos calcanhares, tirou da bolsa uma minipolaroid e fotografou o casal se desacoplando: Como vocês são lindos, estão tão lindos, que pele linda…

This is Zed, Cleo apontou pro Agente. And this is Lara, soltou, passando a mão no seu queixo. Depois do flash, Lara veio, abraçou os dois, um selinho leve nos lábios deles. Well… gonna take a shower… preciso ir dormir logo hoje… acho que amanhã vou pegar aquele trabalho bem cedo… E ainda tenho o ensaio do espetáculo de bellydancing… don’t you forget, huh… Excusez-moi…

Sumiu da cozinha do mesmo jeito que entrou. Cleo se virou de frente e deu um beijo nele – não o tinha beijado até então, a boca bem aberta, a língua passeando por todos os dentes, dentro da gengiva, se enrolando na língua dele como uma cascata de facas sabor morango. O Agente conseguiu se abandonar no beijo sem perguntas, ocupado em exercitar suas técnicas, de bicicleta numa reta para o abismo, que bom seria se não tivesse um beijo depois – se este fosse o último estaria redimido de todas as suas mancadas. Ela se insinuou lenta pra orelha dele, depois o pescoço, daí descendo pelo peito até chegar ao pau horizontal, lambendo devagar, respirando fundo pra captar o cheiro dos dois impresso naquela pele avermelhada, vertical, envolvida em saliva quente, devagar, até que o Agente se excitasse de novo… Sou uma sarça ardente nua no deserto – ele imaginava –, estamos trancados neste deserto celta e eu perdi minha passagem pro último submarino. O chuveiro trazia notícias do banho de eucalipto envolvendo a pele de Lara e os dedos dele abriam as senhas da garota que pedia, a língua dando voltas:

Me alimenta… me alimenta…

A pele de Lara, cerveja solar, múltiplas gotas de pinho. A nuca de Lara, lua tatuada. Queria que seu corpo fosse corrompido por sensações sem nome, sobrenome, pseudônimo… e a cada dose, tudo o que tinha era uma mentira da primeira, uma lembrança: da primeira foi melhor. Da primeira tudo foi free, a amostra grátis que o viciava sempre, sempre dessa sensação que queria se recordar quando de dentro pra fora – aquele escape possível de si mesmo, atravessando pra outra face; mas impossível, na novidade o germe não vingado, seu desejo arruinado, montanhas de cristal gelando as veias, flecha parada… No alvo. Quando abriu os olhos, os olhos azuis de Lara o observavam pelo tempo de uma maçã envenenada. Passou a língua pelos lábios finos, violinos cítricos, trazendo a porra pra boca, à última gota. Inteira, num sorriso, soprou-lhe o odor de seu sumo na cara, feliz: merci beaucoup.

Ela se levantou, terna, o abraçou. A primeira vez que se abraçaram ela tremeu como uma gatinha friorenta. Seus cabelos eram curtos, loiros, seus olhos de um gris azul, sua cabeça uma efígie de moeda, e ainda tinha uma pintinha pulando no canto do lábios.

Olha… me desculpa por te falar isso… but you gotta go…

Mas… e a Cleo?, ele espantou-se.

Que Cleo? Não conheço nenhuma Cleo… Suspirou. Olha… me desculpa mesmo… mas é que tenho aula de dança do ventre amanhã bem cedo… tinha te avisado… O beijou no peito, filou um cigarro da bolsa – mulheres são mesmo clichês ambulantes, pensou o Agente. Talvez… sábado vou ter que trabalhar de manhã… a gente podia ir ao Museu Britânico de tarde… fica ali perto…

Ah essas inglesas e seu fog peculiar pós fogo. Ainda se perguntando de Cleo, o Agente olhou fundo nos olhos azuis de Lara, os cabelos curtos de Lara, as saboneteiras angulosas de Lara, trampolim pra um perfeito suicídio. Virou pro lado, o submarino ainda fumegava, sua pele arrepiava. Frio. Boca seca. Os pés se moveram sozinhos, o corte nos dedos latejando. As calças subiram, zíper fechado, mãos nos cabelos: posso ir ao banheiro?

Antes de entrar no aposento minúsculo, olhou pro quarto – alguém por trás do biombo?

Ainda muito vapor no lavabo. Espelhos baços, algo fora do lugar. Logo percebeu que era Fred Astaire, o gato.

Isso sempre te acontece fácil, hein?

E o que é que você tem com isso?

Essa aí não era aquela louca que comia livros no Hyde Park?

Não, véi, essa foi no verão passado. Essa aqui era aquela menina que trabalhava na livraria especializada em roteiros, ali perto do Museu Britânico, tá ligado?

Você olhou por trás do biombo, no quarto?

Não.

Besta. Assim, nunca vai sair da Divisão dos Não-Lineares. Do your job man.

Não lavou as mãos, queria ficar com o cheiro de Lara nos dedos, queria guardar aquele perfume pra sempre, numa garrafinha mágica. Marchou decidido e silencioso pro quarto, em dois passos estava atrás do biombo. Frente a frente com Mark Sandman.

Sente-se, ele disse, grave.

O Agente puxou um banquinho e se reclinou devagar, fascinado pela luz que emanava do velho filósofo com cara de peixe morto. Mark Sandman era O Incrível Homem Que Não Doía. Uma lenda na Divisão: diziam que adorava comer gafanhotos pela manhã, e que isso ajudava em sua auto-anestesia, lembravam que estudou técnicas avançadas de acupuntura na China quando foi correspondente na Ásia – mas, na real, o Agente só o tinha visto uma vez antes, numa festinha de fim de ano da Divisão, quando Sandman subiu no palco pra tocar um blues safardana. Tocava baixo dum jeito esquisito. E, porra, pecado dos pecados, usava a camisa para dentro da calça, com cinto.

Preste atenção: há rumores de que Mark Chapman escapou da cadeia trocando de lugar com um guarda. Este homem é uma verdadeira bomba – foi instruído por Charles Mason para terminar seu trabalho. Sua nova missão é ir para Aix-en-Provence encontrar-se com O Escritor Recluso.

Como assim? Salinger saiu dos EUA?

Foi enviado pela Divisão de Não-Lineares especialmente para deter um massacre. Se Chapman chegar ao esconderijo de John Lennon na Provença, fatalmente irá encontrar Elvis, Jim Morrison e Raul Seixas no Heartbreak Hotel. Somente Salinger tem a chave do estabelecimento. Mas você sabe como ele é chato. Salinger precisa de provas para agir. Está esperando por isso. É para isso que você vai lhe entregar este envelope.

Oh Deus.

Pare com essa mania, Zed. Já te disse que Deus existe, só que é ateu.

Oh God.

Apertar a tecla sap não adianta. Está anotando o que eu digo? Não se esqueça de relatar detidamente os fatos: Salinger só nos ajudará se vir a foto da filha de John Lennon. Em breve, você receberá novas instruções. E não se esqueça das pílulas antes, durante e depois das refeições, meu filho. Tome este envelope e guarde-o. Você já sabe onde.

O reverendo apontou pro chão. O Agente ficou fascinado ao ver novamente sua sombra, sua velha amiga. Mas, quando levantou a cabeça após se delinear nos azulejos do banheiro, o filósofo tinha desaparecido. Ele colocou o envelope no bolso e, à francesa, buscou a saída, uma escada de incêndio, as ruas, os predinhos de tijolos vermelhos, aquela garoa, sapatos batendo fortes no chão, um ônibus velho, o metrô, keep your right, mind the gap, mind the gap. Seu peito batia devagar ao exagero. Tinha surtos de taquicardia combinados a longos períodos em que o coração atingia 25 bpm e parecia que todos os seus miolos estavam na pele. O momento da revelação. Alguma coisa queimava dentro do casaco.

No envelope. Era só uma foto, com uma moldura branca duas vezes maior. A polaróide enquadrando a ele e à garota, e atrás, a tubulação-periscópio. Do cano, saía o que parecia um rabo de gato. No fundo do envelope tinha ainda outra coisa. O recorte de um jornal – uma pequena imagem em preto e branco. Uma foto de um feto. Um feto de sete meses, dizia a legenda da foto. O que o Agente teria feito, sete meses antes? O feto feito para sempre, ainda imerso em uma felicidade que jamais sentirá de novo. Um erro, talvez, transar sem camisinha, ele pensou. Há quanto tempo estou em Londres? – falou alto, palidez rouca: na foto maior Lara Lennon sorria, suada, fantasmagórica, olhos cor do mar da Mancha.

Entre suas pernas, nenhum barbantinho de tampax.

O metrô parou na Victoria Station e ele subiu. Mind the gap. O que seria melhor – morrer rápido do veneno das mulheres ou morrer lento engasgado com uma batata do McDonald’s? Tirou do casaco sua foto em Abbey Road, colocou no envelope, e este na caixa 725XK. Daria adeus aos perfeitos e mortos gramados ingleses – Paris estava a duas horas. Às vezes, pensava que queria desistir dessa vida de soldado do caos; às vezes se lembrava de que essa tinha sido uma escolha sua… Na banca, antes de pegar o hovercraft, parou para filar um jornal brasileiro: o São Paulo tinha perdido de três a dois para o Corinthians. Mas que perfume maravilhoso nas mãos, pensou, passando as mãos no rosto, se lavando em mais um esquecimento.

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Londres–São Paulo, inverno, 1997-2002.


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