deus dá o frio conforme o cobertor
era o que eu pensava durante aquele campeonato de arremesso de anões na noite iluminada e seca de las vegas
sou o butthole kongo
o big brother da semana
o santo de cabeceira das famílias engajadas em enjaulamento precoce
eu só te digo que faz um frio ducaralho nessa cidade e eu só queria sentir o vento trazer o mar na minha cara
– como na época em que os sapos choviam e meus amigos riam de minhas piadas e em meus ouvidos somente um sino obscuro –
quem dá mais, quem dá mais
volte, mente, volte
little joe de minneapolis foi jogado pra lá de vinte e cinco metros de distância por big foot um negão de chicago viciado em speed
a aposta tinha sido de dois para um e eu perdi
[achava que aquele anão era meio gordo]
pobre little joe deslocou o ombro na queda pra além da caixa de brita
quis regatear com o bookmaker
mas com aposta de anão arremessado não se brinca
presságio de tambores
paguei e saí fora
fui beber com uns caras amigos de uns anões que trampavam num circo freak
uma mulher barbada lia uma revista de moda
dois homens-mãos mexicanos passavam o tempo jogando baralho
[um deles roubava girando sutil seu tronco sobre o lar-skate]
com gêmeas xifópagas de sotaque francês de new orleans
[uma delas trapaceava tirando discreta um ás do meio dos quatro peitos]
os caras do circo freak passavam muita fome essa época e há uma semana tinham comido seu amiguinho george
[seu bode preto de duas cabeças]
me disseram que depois disso sempre sonhavam com coisas aos pares
eu conseguia ver veias azuis se duplicando através da minha pele cristalina
– na época em que todos os lugares para onde eu ia eu via câmeras
como aquele meu vizinho sarará que noiou forte com uma parada na zona norte
do rio
carlos
vulgo carlinhos
dito zé-boquinha
[de tanto comer bolinho de aipim virou um gordo bujãozinho de gás]
zé boquinha curtia pichar um muro
de tanto escalar parede e portão e grade e pular de janela sarou a banha
e virou um cara bombadaço
mais rápido que a bala que matou kennedy
o cara era um artista
precisava ver os lugares por onde escapava dos guardas da polícia dos vizinhos das pessoas das casas por ele pichadas
sempre a marca registrada:
kk
que era o apelido que ele queria ter
ele odiava ser chamado de zé-boquinha
kk não era óbvio
achava o homem aranha uma bicha louca
era pirado sim no filme king kong
[foi daí que tirei meu nome – mais tarde explico]
eu tinha quinze e kk era meu herói
sempre encontrava kk escrito pelos muros da penha caxambi vila kosmos
um k certo outro invertido
porém aí o sarará caiu pesadamente no ratatá
começou a vender umas paradas do barraco onde morava com sua vovó
sofá tv rádio até a bomba do poço do quintal
só no pó
trepava nos muros trincado e pirava que tinha uns canas querendo pegar kk quando chegasse em sua kkasa
aí inventava umas maneiras escrotas de entrar em sua própria goma pelos fundos
escalando as paredes mais sinistras
até que um dia vi kk despencar no meu quintal feito manga madura
kk nem deu seta
pulava do prédio vizinho
no caminho tinha uma dessas grades com lanças de ferro
apontando o atalho pro céu
kk morreu bem quando eu tava fumando uma ponta no meu quintal
kk voou durante anos até morrer os olhos fixos na minha pessoa
faltava pouco para chegar no cafofo dele
e no final a gente da rua descobrimos que ninguém estava atrás dele
kk estava limpo
e morreu
limpo
olhos em mim
não teve tempo de conhecer las vegas
não teve tempo de desenhar em meu muro
um k certo outro invertido
um convite ao abismo
os mitos são invenções babacas de professores de cursinho
por isso em homenagem a kk
que eu virei butthole kongo
o imbecil do ano
phd em retardamento mental
em sua honra
quando voltei de las vegas
[estava ilegal e a imigração me pegou – é muito fácil pegar um macaco albino num cassino] arranjei um emprego de vigia noturno e agora moro nesta guarita rodeado de fotos de mulher pelada
um dia saio daqui porém
deus dá o frio conforme o cobertor
sou um cara ambicioso
e já comprei minhas latas de spray para selar o meu protesto contra a humanidade depois que a onu proibiu terminantemente a prática anti-humanitária do arremesso de anões em todo o planeta
cetáceos águias corujas macacos da noite manifestem-se
[quem dá mais, quem dá mais]
boa noite
butthole kongo
– escrevi com letras vermelhas no murão da mansão da esquina:::::::::::::
eu sou o cara que vigia a sua rua
[...] que, fugindo dos gambés, caiu atravessado numa lança de portão [escrevi a história neste conto aqui]. Flávio me afirmou conhecer um cara que continua pixando mesmo agora, na cadeira de rodas. A [...]
Por: Filhos de Duchamp na Vila « IMPOSTOR em Julho 18, 2008
às 5:52 am