deus aqui se chama makemake
nos informa o vendedor de estatuetas
dado inútil quando você está sem um puto
o makemake de madeira custa 200 dólares
nos informa o vendedor
jornalistas se informam sobre câmeras
a minha armazena 400 bilhões de megapixels informa um repórter bicha
já os moai kiss my ass sopram pro mar turquesa
em hangaroa no hotel a arenga: sucata romântica americana & muitas libélulas & um copo d’água por 3 dólares
, velhos japas gringos dançando hula-hula informam: tudo vai acabar em banha trêmula
muito embora
não pareça educado deixar de aprender com a estupidez alheia
& provocar acidentes felizes
como a miss chile
que me informa
no meio de duas piñas coladas
dois peitos soltos
os rapanui ao pressentir a morte procuram as grutas de seus lagartos ancestrais
& nunca perdem o caminho de volta quando se tornam os fantasmas da noite
pradarias, cabeças enterradas e bosta por bosta lembram minas gerais
tudo eterno, severo, indiferente
e desperdiçado
inexiste magia em lugares encantados como esta fábrica de sombreros de pedra rubi
senão repórteres atrás de fatos fajutos e cercas de arame farpado
se queres saber do amor que fazem as pedras
detona um omelete com um ovo de pássaro sagrado
e esculpe um moai com a tua própria merda
e então surgirá um cavalo branco no alto do vulcão
sou um moai esperando pelos olhos que meu clã prepara
um golem enterrado saudoso de minha origem e da magia mana me comunicando com magma e peixes curados
o nariz pra baixo derrubado
palmeira solitária entre cactos que falam demais
não quero incomodá-los, mas vocês estão me incomodando
– maresia venenos fotos roem meu corpo há séculos
e assobios e gritos de perdizes superaquecem a luz da minha consciência
aqui neste vôo de moscas à espera que nosso rei retorne
se quiser minha foto nalguma revista
mesmo deitado e sem olhos importa é manter a aparência de homem-pássaro
céu
nesta última ilha, o dia é sempre mais longo que os teus arrependimentos
passo todos os dias olhando para o oeste
na esperança que meus olhos retornem do mar
aí provarei da carne das cores sem metáforas mumunhas cochichos
durante as guerras intestinas cada clã derrubou os moai do inimigo
agora 400 lábios beijam o mesmo chão que budas amassaram por amor aos talibãs
enquanto esquecem bitucas entre pretas pedras vulcânicas
nem todos se calam diante das pedras eternas
onde japas ricos se dissolvem em nitrato de prata
pássaros novos insistem em voar
e caem
em rano raraku, em torno a um morro em forma de mamilo, perto do mar
cavalos relincham e a grama cheira forte
somos todos peças de um xadrez de moscas e americanos que zunem
& as crianças maori riem do meu nariz de macaco e de meus cabelos brancos
me apontam e dizem que eu pareço makemake
makemake
makemake
earthquake
nunca sairei daqui
makemake é só o rosto de um deus sorridente
quantos campos de futebol cabem num vulcão?
quantos discos voadores couberam no céu de páscoa?
quantos deuses cabem no meu cartão de crédito?
pra crer nalguma informação
tem que passar pela morte
pois se fria a água, a gaivota não pode tomar o sonho
assim
só por delicadeza
só me resta subir ao mais alto rochedo
encher meus bolsos de pedras
me atirar no azul turquesa
tentar voltar à única polinésia real
a submersa
butthole kongo
um qualquer turista
fui
.
Outono, 2003.