Eles rastejavam atrás do Sol por séculos de poeira. O chão, um tapete persa mudando constantemente formas padrões cores desenhos – da boca de um tigre surgiam palmeiras jorrando cânfora almíscar garrafas de coca-cola –, às vezes afundava-se num fofo abismo sem dar aviso: era preciso ter cuidado. Criaturas não eram ainda. Nunca olhar pro céu, nunca olhar pra trás – cantavam, alegres, os mais moços –, o último que olhou aqui jaz, o último a chegar é um mané. Certos momentos, paravam, atirando-se nariz na terra de sombras. Riam. Uns comiam grama. Não faltavam insetos, tampouco pequenos animais. Carmesim – tudo em volta das pálpebras ao se abrirem.
Uma mulher rojou desesperada no encalço de um pato selvagem, joelhos sangrando: com a ave nas mãos e já na boca foi estuprada, comida que comida come. O filho, um bicho com olhos de lobo, nasceria sete meses depois, os dedos fincados já nas dunas, o pai fincado já noutra mulher. Eles iam rastejando. O Sol nunca esteve tão perto – cochichava um outro velho. Em todas as suas vidas. Um homem pode viver várias vezes: o Sol só vive uma vez. E este a cada minuto mais próximo. O filho da vizinha duma fila que não a primeira morrera afogado, engatinhando na superfície de um lago em busca do controle remoto do trenzinho. Neste inverno, seus pais fariam cinqüenta anos de casados. Acreditavam os mais velhos que não tivera fé suficiente o menino: tinha olhado pra cima. Um mané.
Suando, a gorda reclamou que seus joelhos estavam se assemelhando a cascos de cavalo; um homem de longas barbas pulou sobre o dorso dela e esporou-a rindo: então rolaram no solo e amaram-se debaixo da raiz de uma enorme árvore, enquanto os companheiros de viagem, andando ao largo, iam jogando-lhes terra. Aos noivos. Um certo homem, um homem não muito velho [embora nunca tivesse sido moço] havia tentado o Sol nas curvas de um desfiladeiro de metal pelo qual só passava uma serpente específica. Existem escritos comprovando ter sido aquele sujeito o único a encontrar o rastro; e que ele, um dia, voltaria para lhes mostrar o caminho verdadeiro.
Uma noite ouviu-se o coaxar de um sapo. Outra noite, o canto de um rouxinol. Na tarde seguinte ventava muito, e alguém disse ter ouvido o uivo de um mamute; na terceira noite, uma jovem bastante magra e branca expirava aos gritos o Sol, o Sol o Sol está dentro de mim, todos vocês são uns loucos, não agüento mais cheirar a bunda dos outros. Disseram os antigos tratar-se de um sinal sagrado. Disseram as mulheres tratar-se de falta de homem nas costas. Rastejando iam. As roupas das pessoas da fila do outro lado apodreciam pelo caminho. Perdidas nas farpas das rochas cristalizadas pelo petróleo e nos galhos amarelo-cromo-cobalto das árvores proibidas que alguns comiam com saudade do gosto da banana nanica.
Um jovem sem cabelos e orelhas veio na direção contrária gritando eu vi o Sol de perto, mas ele é azul, não posso jamais conformar-me com isso. Além de tudo é frio, urrava, rindo, com as línguas entre os dentes em sangue. Um grupo de menininhas discutia o que fazer com o tesouro do Sol, quando o encontrassem. Uma velha com roupas de lurex passou anunciando um novo modelo de joelheira que havia criado. Durava mais do que as outras – e ainda vinha com um bolsinho lateral onde você podia pôr a sua camisinha e seus anticoncepcionais.
Depois de muito tempo pensando, os sábios anciãos declararam solenemente que o jovem careca houvera se confundido com a Lua. Talvez, estivessem na direção errada. O ar na região era muito rarefeito. Havia, no entanto, quem confiasse que o Sol estivesse cada segundo menos distante. Eles rastejavam e falavam. Debateram-se por longo tempo, criaram o partido da vanguarda e o partido da retaguarda e o partido estático – mas logo se cansaram de fazer política de quatro. E continuaram meramente se arrastando.
Eles seguiram rastejando por muito tempo atrás de mim, pelo menos até onde os vi.
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Primavera, 1989.